D E S T R U I Ç Ã O
Justin está me levando pra casa quando dou início a uma crise de tosse, fazendo com que toda minha garganta doa.
Aquela sensação estranha de falta de ar me envolve e me esforço para respirar cortando a tosse. Enquanto isso, Justin está concentrado no transito, quando vira a esquerda da 6th com a 59th.
— Você sabe que minha casa é pro outro lado, não sabe? — Pergunto assim que paro de tossir.
— Eu sei. — Ele disse sem preocupação alguma.
— E pra onde você está indo? — Questiono.
— Farmácia. — Ele reponde virando a esquina enquanto eu volto a tossir.
Em seguida, penso em falar mais alguma coisa, mas é sem tempo, Justin estaciona o carro com agilidade, perante ao silencio continuo, e me encara atentamente, antes de sair do carro e atravessar a rua.
Penso sobre o que conversamos essa manhã, em nenhum momento tocamos no assunto do que aconteceu nessas últimas noites. Não que tenha algo a falar, mas eu adoraria saber o que ele acha que será de nós, mesmo que não exista um nós.
Sem demora, vejo Justin sair da farmácia e atravessar a rua em direção ao carro, ele abre a porta e entra no mesmo, colocando uma pequena sacola em meu colo.
— Acho que vai começar a chover. — Ele diz fechando a porta.
— O que é isso? — Pergunto abrindo uma pequena brecha na sacola e espiando, enquanto ele liga o carro.
— Um remédio. — Justin diz acelerando. — O farmacêutico disse que é melhor que a aspirina do cara chapado do hotel.
— Justin? — Digo tentando conter o riso, pelo modo como ele falou.
— Okay, ele não disse com essas palavras. — Justin ri fraco. — Você pode tomar um pouco agora? — Ele diz esticando a mão e colocando dentro da sacola. — Talvez, assim, diminua um pouco a sua irritação na garganta.
Justin tira o frasco me entregando, sem desviar o olhar do transito. Já se passavam das 7:00 PM, e a cada segundo, as ruas pareciam ficar ainda mais lotadas.
— Você não precisava comprar nada. — Digo, abrindo o frasco e colocando um pouco do líquido na tampa. — Eu tenho alguns remédios lá em casa, dava pra me virar.
Levo a tampa a boca e a viro sem pensar duas vezes, gosto não era dos melhores, mas também não era tão ruim quanto a sensação do líquido descendo pela garganta como se estivesse arranhando cada centímetro. Termino de tomar o remédio com uma careta e fecho o frasco, o guardando de volta na sacola.
— Fui eu que te arrastei pra patinar. — Justin diz me olhando rapidamente. — Tenho culpa parcial pelo seu resfriado.
— Quer dizer que eu ganhei o dia de folga amanhã? — Digo com um sorrisinho nos lábios e o gosto do remédio ainda presente na boca, mas ele não responde.
Justin está sério enquanto dirige mais devagar que o normal, sem dizer uma palavra ou dar qualquer sinal de que estivesse escutado o que eu falei.
Uma pequena insegurança me invade a cada momento que eu o observo de canto. Será que eu falei algo errado?
Estamos na 58th com a 7th quando o sinal fecha e Justin para o carro.
— Isso significa que eu não vou te ver amanhã? — Ele diz se virando para mim.
— Se quiser me ver, é só ir ver. — Respondo me virando de frente pra ele.
— Está me convidando para ir a sua casa, Selena? — Ele questiona com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
— Está insinuando que deseja me ver, Justin? — Indago no mesmo tom que ele, que sorri aberto dessa vez.
Ele se aproxima com o sorriso ainda presente e está tão perto que sinto meu coração disparar, conforme encaro sua boca. Nós ainda não tínhamos nos beijado hoje, e da forma como ele estava próximo, cheguei a acreditar que ele me beijaria agora. Não beijou.
O sinal muda e alguns carros atrás de nós começam a buzinar, fazendo com que Justin beije minha bochecha direita rapidamente e se virasse pra frente, voltando a dirigir.
— Desejo. — Ele murmura depois de alguns segundos e é a minha vez de sorrir.
Não demora muito e Justin estaciona o carro na frente do prédio. Tiro o sinto de segurança, me inclinando para o banco de trás e pegando minha bolsa.
— O que foi? — Questiono quando percebo que Justin me encarava.
— Não sei. — Ele responde, se fazendo de desentendido, e eu sorrio sem mostrar os dentes.
— Quer entrar? — Convido um pouco receosa.
— Seria invasivo se eu dissesse que quero? — Ele questiona e eu sorrio.
— Jamais. — Respondo.
Abro a porta saindo do carro e vejo Justin fazer o mesmo, indo até o porta malas. Começo a andar até ele mas, em algum momento olho para dentro do prédio e vejo um homem, desconhecido por mim, parado na frente do balcão.
Ele conversava com Cameron atentamente. Usava um terno escuro e bem alinhado, o cabelo estava em um topete arrumado e carregava uma pasta e uma prancheta em mãos, como se não pudesse perder.
— Eu já volto. — Digo enquanto Justin tira a mala e não espero sua resposta para me afastar.
— Boa noite, Sel. — Cameron diz assim que me vê entrar. — Eu tentei te telefonar, mas seu celular só dava fora de área.
— Fiquei sem bateria. — Respondo me aproximando do balcão e colocando minha bolsa sobre o mesmo. — O que houve?
— Pelo que entendi... — Cameron começa a dizer mas é interrompido pelo homem.
— Srta. Gomez? — O homem diz se referindo a mim.
— Sim, o que deseja? — Digo, sentindo um braço envolver minha cintura e olho para o lado vendo Justin.
— Eu sou Holden Ford... — O homem diz esticando a mão para me cumprimentar e em seguida a Justin. — Assistente da promotoria jurídica do estado de NY, estou aqui para informar que a senhorita tem até 30 dias para evacuar esse prédio, junto com todos os seus inquilinos, antes do despejo e... — Ele diz tão naturalmente, que parece ter todo esse discurso decorado e repetido quando conveniente, me deixando quase sem coragem para interromper, mas mesmo assim faço.
— Perdão, 30 dias? — Questiono confusa. — Eu pensei que fossem 15.
— Vejo que a Srta. não está surpresa, suponho que já saiba o motivo, certo? — Ele indagou e eu assenti. — Bem, os advogados do Sr. Dempsey entraram com uma liminar impedindo que você seja despejada antes do fim do processo. O julgamento tem data marcada para o dia 20 de fevereiro.
— De qualquer forma, ela não pode ser despejada sem que antes o processo encerre em julgamento. — Justin diz seriamente e eu o encaro confusa. — Perante a nossa lei estadual, você da promotoria, deveria saber disso, Sr. Ford.
— Ao contrário do que pensa, a ordem de despejo não foi dada por mim, Senhor..? — Holden diz esperando que Justin informe seu sobrenome.
— Bieber. — Justin completa e sinto seus dedos um pouco mais firmes em minha cintura, agora.
— Senhor Bieber. — Holden repete assentindo. — Caso não saiba sobre o processo, e vejo que não sabe, a ordem foi dada pelo national bank, e eu, da promotoria, só estou passando a informação. — Diz, ele, dando uma breve pausa. — Agora, como sua namorada já deve ter noção, essa é uma carta de despejo. — Ele diz, me entregando uma prancheta, com alguns papéis, e uma caneta. — Por favor, srta. Gomez assine as linhas indicadas abaixo.
— Certo. — Murmuro passando os dedos entre os papéis presos na prancheta, na pura tentativa falha de adivinhar quantos haviam.
Sinto a mão de Justin se soltando lentamente da minha cintura, deslizando pelas minhas costas, e o olho de canto de olho. Sua expressão era séria e convincente, estava nítido que ele iria fazer alguma coisa.
— Nós podemos conversar em particular, Sr. Ford? — Justin diz de forma paciente.
— Por que, não?! — Diz, Holden, e Justin começa a andar em direção a sala de espera da recepção, sendo seguido por ele.
— Ei! — Cameron diz, chamando minha atenção, por um breve momento havia me esquecido de que ele estava ali. — Vai ficar tudo bem, não se preocupe. — Ele diz com certeza na voz.
— Eu espero que sim. — Murmuro forçando um sorriso e vejo ele sair de trás do balcão.
— Vou levar sua mala lá para cima e me arrumar para a escola, enquanto você espera que eles terminem de conversar. — Cam diz pegando minha mala no chão. — Quando você subir me avisa.
— Tudo bem, Cam. Obrigada. — Digo e ele sorri sem mostrar o dentes, logo em seguida se virando e indo em direção ao elevador.
Demoro um pouco para raciocinar o que estava em jogo nesse momento.
Encaro a prancheta, com os papéis e a caneta, em minhas mãos, dou uma rápida olhada na primeira folha a levantando para ver a segunda e logo em seguida a terceira.
Um pequeno parágrafo me chama atenção quando passos meus olhos pela quarta folha.
com certo receio, começo a ler atentamente cada palavra, das letras médias as pequenas, das vírgulas ao ponto.
De primeira não entendo, então leio mais uma vez. Talvez eu estivesse como a procura de um milagre para que o que eu tenha lido não fosse verdade. Eu nunca entendi muito de direito, então, mesmo com todo meu esforço, não importando quantas vezes eu relesse isso, o milagre não viria de mim e muito menos das palavras contidas no texto.
Respiro fundo e tento pensar com calma. O parágrafo dizia algo sobre demolição e construção de um novo edifício empresarial para avanços tecnológicos, conscientizando claramente que nada do La Vie Em Rose sobraria nos destroços após a demolição.
Acabou.
Qualquer resquício de esperança que me sobrará, acabou aqui.
Prendo a caneta na prancheta e as coloco sobre o balcão, logo em seguida me debruçando sobre o mesmo.
A alguns dias atrás, eu li um pequeno texto sobre pessimismo, que dizia algo sobre nossos pensamentos e emoções não precisarmos ser positivos o tempo todo. Como se nossos sentimentos, tanto os bons quanto os ruins, não nos tornassem pessoas, necessariamente, pessimistas ou positivas, e sim que nossos sentimentos só nos tornam humanos.
Bem, eu acho que nos últimos dias, eu tenho sido humana demais, em todos os múltiplos sentidos.
Eu não acho que seja errado esperar pelo pior, na verdade ajuda a ter menos ilusões na vida real. Mas, o problema é que, enquanto estou debruçada nesse balcão de recepção, com meus olhos fechados, a única coisa que posso ver é a destruição em massa.
Meu fim.
Nada de recomeços, finais felizes, romantismo ou qualquer coisa positiva que eu pudesse pensar.
Eu só vejo o final.
Uma luta desastrosa por algo que, na verdade, nunca foi meu. Algo que a única coisa que eu deveria fazer era proteger e nem isso consegui.
Enquanto tento controlar a minha respiração e evitar um nariz congestionado causado por lágrimas. Passo meus dedos pelo balcão até que trompem nos cartões de visitas do La Vie En Rose, com letras em relevo.
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— Finalmente estamos com a casa cheia...! — Papai disse sorridente, me sentando sobre o balcão, ele havia acabado de alugar o último apartamento. — Já tem uma sugestão sobre qual será o nome do prédio, querida?
— Tem certeza que não pode ser Selena's? — Pergunto torcendo para que dessa vez ele diga que sim.
— Eu já disse que não vamos dar o seu nome, Selena. — Ele disse rindo fraco.
— Mas se você fez o prédio pra mim, por que não pode dar o meu nome? — Pergunto meio chateada.
— Imagina só, o quão estranho seria se algum dia eu tivesse que vender o prédio e no anúncio estivesse "Vende-se Selena's"? — Ele diz e por um momento acredito que "Selena's" era uma má ideia.
— Você jamais me venderia, papai. — Afirmo mais para mim do que para ele, e papai beija minha testa.
— Eu jamais ousaria perder você, meu amor. — Ele diz me fazendo sorrir.
— Já fazem 6 anos que você está tentando dar nome ao prédio, Ricardo. — Mamãe diz passando pelo hall e papai revira os olhos me fazendo rir. — Mas, você sabe que eu já escolhi, só não quer aceitar.
— Eu não vou dar o nome da sua música favorita para o prédio, Mandy. — Papai diz e vejo mamãe se aproximar. — Acabei de conseguir fazer a Selena desistir do "Selena's". Por que as mulheres da minha vida, só me complicam? — Ele questiona dramático e mamãe bate em seu braço.
— Eu não desisti de nada. — Digo resistente, por mais que agora a ideia de "Selena's" não me atraísse tanto.
— Ah, não? — Papai diz com um olhar duvidoso em mim.
— Não. — Confirmo negando com a cabeça.
— O que eu faço agora, Amor? — Papai diz olhando para mamãe, que sorri.
— Agora? — Ela questiona, desentendida. — Agora, Me segure mais perto e me abrace rápido... — Mamãe cantarola apertando o dedo indicador no meu nariz levemente, me fazendo rir. — A magia que você lança, Isso é la vie en rose...
— Sem chance! — Papai nega novamente.
— Quando você me beija os céus suspiram... — Mamãe continua e papai fecha os olhos como se isso fosse o impedir de ouvir. — E ainda que eu feche meus olhos...
— Vejo la vie en rose... — Ele diz sem ritmo e mamãe ri.
— O que você acha, Sel? — Ela questiona.
— Agora eu desisti. — Afirmo fazendo eles rirem.
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A verdade é que eu já havia desistido, só precisava de um bom motivo pra deixar ir.
E hoje, mesmo as vezes achando um nome muito parisiense para uma família latina, ainda que eu feche meus olhos...
Vejo la vie en rose.
Mesmo assim, não mudo minha opinião. Ainda é o fim, só que dessa vez não iria deixar ir tão fácil, antes de tudo, pra tirar isso de mim, terá que arrancar dos meus braços...
— Com licença? — Ouço uma voz masculina, desconhecida por mim e levanto a cabeça de vagar. — Estou procurando a srta. Selena Gomez.
Um homem de terno, com os cabelos em um castanho quase loiro e os olhos azuis, estava parado a alguns passos de mim. Sua barba estava por, talvez, dois dias sem fazer o deixando com uma expressão mais séria do que já tinha.
— Sou eu. — Murmuro.
— Boa noite, meu nome é Alaric Saltzmann, eu sou o advogado do seu tio, Patrick Dempsey. — Ele diz se aproximando mais e esticando a mão para me cumprimentar. — Me desculpa o atraso, eu deveria chegar mais cedo, mas infelizmente houve alguns imprevistos.
— Ham, tudo bem. — Digo afastando o cabelo no rosto. — Na verdade eu acabei de chegar, não sabia que o senhor viria.
— Eu pensei que seu tio havia avisado que eu viria para conversarmos. — Ele diz parecendo encomendado pela situação.
— Não conseguimos nos falar nas últimas horas. — Informo. — Sobre o que o senhor veio, mesmo?
— Pode me chamar de Ric, sei como meu nome deve ser difícil de se pronunciar. — Ele diz e eu assinto. — De qualquer forma, eu vim conversar sobre como podemos mater o La Vie En Rose, com você. — Alaric informa e me sinto bem por ele não ter falado "prédio" como todo mundo costuma chamar.
— Obrigado, Sr. Ford. — Ouço a voz de Justin, e em seguida vejo Holand se aproximar.
— A senhorita já assinou? — Ele questiona.
— Só um minuto. — Digo pegando a prancheta com a caneta e assinando nas linhas indicadas.
— Obrigado e até a próxima, srta. Gomez. — Ele diz indo em direção a saída, assim que eu entrego os papéis.
— Até. — Murmuro, olhando para trás e vendo Justin se aproximar.
— Eu estava falando com ele e... — Justin diz parando ao meu lado, quando percebe o homem a minha frente. — Alaric? — Ele pronuncia com facilidade.
— Justin. — O homem diz sorrindo sem mostrar os dentes.
— A quanto tempo você ta aqui? — Justin pergunta e não consigo decifrar a expressão de seu rosto.
— Alguns minutos. — Alaric responde olhando o relógio. — E você?
— Não. Desculpa, pergunta errada. — Justin ri mas o deboche foi nítido. — O que você ta fazendo aqui?
— Eu sou o advogado e você? — Alaric sorri me olhando brevemente.
— A Selena trabalha comigo na revista. — Informa Justin.
— Mamãe sabe que você ta na cidade e ainda não foi ver o Jaxon? — Alaric questiona e eu já não estava entendo mais nada.
— Eu falei com ela quando o avião desceu. — Justin diz dando de ombros. — Ela sabe que você ta trabalhando na cidade agora?
— Ela que insistiu. — Responde, Alaric.
— E mais uma vez, eu não soube de nada. — Justin sorri.
— Se deixasse o celular ligado, quem sabe, soubesse. — Alaric murmura, estalando a língua no céu da boca.
— Desculpa. — Digo interferindo aquele bate e volta. — Vocês se conhecem?
— Somos irmãos. — Justin sorri fraco desviando o olhar para o chão.
— Mas, eu sou o mais velho. — Alaric diz e eu o analiso, até que havia certa semelhança.
— Mas eu sou mais bonito. — Justin rebate e Alaric ri negando com a cabeça.
— Também senti sua falta. — Alaric murmura desviando o olhar para o chão e Justin o imita engolindo em seco.
— Então... — Digo após um pigarro, tentando quebrar aquele clima estranho. — Vamos subir? Conversar no saguão não parece apropriado.
— Como desejar. — Alaric diz assentindo.
— Desejo. — Justin murmura rindo fraco.
Pego minha bolsa sobre o balcão e antes de ir em direção ao elevador, puxo um cartão de visita. E mesmo sem motivo aparente, entre todo a minha "humanidade", como um abraço de alguém que você não vê a muito tempo, um pingo de esperança me toma.
E quando você fala os anjos cantam do alto
Palavras Todos os dias parecem se transformar em canções de amor
Dê o seu coração e alma para mim
E a vida será sempre
La vie en rose.
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