Capítulo 2 - O Jantar
2320 Palavras
Kira sabia que Agamenon estaria em sua casa naquela noite. O pai não parava de falar dele, exaltando-o como o herói que havia resgatado sua filha, quase como se ela fosse ainda uma menina indefesa. Era uma história que ela já estava farta de ouvir. Ele, o "herói", parecia ser sempre o centro das atenções, e ela, a quem o mundo realmente deveria chamar de heroína, estava perdida nas sombras dessa mentira. A verdade, aquela que ela sabia e ninguém mais parecia querer ouvir, era completamente diferente. Passara toda a semana pensando em como fazê-lo sentir o peso de sua falsidade, como arrancar dele um reconhecimento do que realmente acontecera, mas as palavras nunca vinham. Então, decidiu que a única maneira de lidar com isso seria ignorá-lo. Ignorar até que ele se perdesse em sua própria mentira, se fosse possível.
O pai de Kira estava entusiasmado com a chegada de Agamenon, convidando todas as primas solteiras, acreditando que uma delas poderia conquistar o barão rico. As moças eram encantadoras, e sua beleza e educação faziam qualquer homem se apaixonar, mas o que realmente atraía seus pais era o status de Agamenon. Ao descobrirem que ele era um barão muito rico do Sul, a excitação tomou conta de todos. Enquanto isso, Kira, distante de toda essa movimentação, se via afogada no silêncio, presa à verdade que ninguém parecia disposto a ouvir.
Kira pouco se importava com o status social daquele homem, só conseguia pensar em sua língua mentirosa fazendo ela se passar de boba na frente do pai. Era certo que nem sempre ela tinha razão em suas especulações, mas naquele caso era diferente, ela tinha realmente visto ele cair do céu, se dessem algum crédito à ela, podia provar levando-os até a cratera. Mas é claro, ninguém dá ouvidos a uma garota com pensamentos tão férteis, cuja ideias parecem alucinações.
Assim que ele chegou à casa, todo pomposo e nos melhores trajes, todas as damas ficaram ainda mais derretidas por ele, além de rico, ter um título nobre, Agamenon ainda era de tirar o folego, cabelos negros escorrendo pelos ombros e testa, olhos tão azuis que pareciam de mentira, e aquele porte alto e atlético, homem cobiçado por toda mulher.
O olhar de Agamenon se fixou nela imediatamente, sendo recebido por um olhar ardente, carregado de fúria. Ele não imaginava que, após dez dias sem se verem, ela ainda nutria rancor pela pequena mentira que havia contado. Cumprimentou os presentes com a elegância que lhe era característica, encantando-os com seus gestos refinados e conduta impecável. Seu jeito polido e agradável arrancava risadas e suspiros sem esforço. Finalmente, conseguiu se sentar ao lado de Kira, que, em nenhum momento, havia demonstrado vontade de cumprimentá-lo. Ninguém da família se surpreendeu, pois conheciam bem seu temperamento forte e já estavam acostumados com sua falta de etiqueta.
- Boa noite, está tão bela quanto uma rainha. - Ele sorriu, dizendo a última palavra quase inaudível. Kira o ignorou, virando a cara, pensando em levantar e ir para outro lugar, bem longe dele. - Por favor, não seja cruel. - Ele pediu, mas o rosto bonito dele não surtia o mesmo efeito que surtiria em suas primas. - Seu pai dificilmente acreditaria que eu caí do céu. - Ele sussurrou para ela, e olhou em volta em seguida. Todos da sala tinham sua atenção quase que completamente na conversa que ele tentava travar.
Embora muitos na família considerassem Kira uma mulher improvável de se casar, devido ao que julgavam ser sua instabilidade mental, ninguém poderia negar a beleza que ela exalava. Seus cabelos negros, caindo até a cintura, nunca haviam sido moldados em um penteado como as moças costumavam fazer. Seus olhos, tão negros quanto a noite, contrastavam com sua pele oliva, e seus lábios carnudos e corpo curvilíneo faziam com que ela parecesse não pertencer àquele lugar. Os homens sempre se interessavam por ela primeiro, antes de sequer notar suas primas. Mas, ao perceberem sua instabilidade, logo percebiam que sua beleza não compensava o turbilhão emocional que ela carregava.
- Pode ter razão. - Ela disse alto o suficiente para que uma das primas mais próximas conseguisse ouvir. - Mas não estou afim de perdoá-lo. - Ela sorriu, o que a deixou ainda mais encantadora. Agamenon não caia de amores pela beleza dela, como outros homens caíram, mas não deixava de admitir que de fato, ela era bem atraente, mas nada enlouquecedor, afinal de onde veio, beleza era o que não faltava.
- Não estou surpreso. - Ele sorriu se levantando. - Se me der licença, irei dar atenção a alguma de suas primas, que certamente gostarão do meu afeto. - Ele disse isso voltando-se somente para Kira, a fim de que só ela escutasse.
Ele esperava causar ciúme, estava crente que influenciava ela tanto quanto qualquer outra mulher da sala, mas logo percebeu seu equívoco, quando a mesma meteu um sorriso no rosto, deixando que ele se fosse sem se importar ou demonstrar arrependimento.
O desgaste de sua ação impulsiva o levou a passar a maior parte da noite cercado pelas garotas ansiosas, todas tentando agradá-lo e conquistar seu favor, como se ele fosse um prêmio a ser obtido. Tentou manter a educação, sendo o mais gentil possível, mas logo as máscaras começaram a cair, e o peso das conversas forçadas o fez sentir-se suffocado. Aquela atenção excessiva, esse desejo desesperado de agradá-lo, começou a se tornar insuportável. Ele sabia que aquelas mulheres viam apenas a fachada do que ele representava, o homem rico e enigmático que acabara de chegar, e não o peso das responsabilidades que ele carregava. Quando finalmente conseguiu escapar, passou para o lado de fora, onde o ar fresco da noite parecia dar algum alívio, mas, ainda assim, seus pensamentos estavam em guerra.
Lá fora, seu corpo buscava um pouco de tranquilidade, mas sua mente estava longe, mergulhada no frenesi dos últimos dias. Durante a semana, ele havia se apressado para garantir que nada faltasse. Comprou um título rapidamente assim que recuperou o dinheiro que sua família mantinha escondido entre os mundos, uma forma de segurança caso precisasse se estabelecer por mais tempo. Com isso em mãos, se lançou na árdua tarefa de entender aquele novo lugar, um caos disfarçado de civilização. Quando se deparou com a ignorância que reinava ali, quase não conseguiu se conter. Não se surpreendeu ao perceber o quanto a magia era frágil naquele lugar, a ponto de sua espada nem mesmo cogitar atravessar a barreira, temendo que sua simples presença causasse um cataclismo. No fundo, ele sabia que não era bem-vindo naquela dimensão. Não tinha nada em comum com aquele mundo.
Após resolver a parte financeira e se imergir no estudo da sociedade local, fez o que deveria ser feito: escreveu uma carta formal ao senhor Shepard, pai de Kira, para oficializar o jantar, conforme as normas locais. O movimento era estratégico, uma maneira de solidificar sua posição. Mas, no fundo, sabia que tudo aquilo fazia parte de um plano maior: noivar com Kira o mais rápido possível. Ele precisava do tempo para explicar o que queria dela e, mais importante, o que a ligação entre eles representaria. Tudo o que fazia agora era um passo em direção a um objetivo bem maior, e o jantar nada mais era do que uma formalidade necessária para criar um vinculo.
Ele seria muito tolo em pensar que tudo seria tão fácil e sem complicações. O antigo Agamenon, aquele que pensaria com cautela em suas ações e agiria de acordo com seu plano inicial, havia desaparecido no momento que atravessou os mundos, era isso que aquela dimensão fazia, primeiro o esquecimento e depois a loucura, mudava e transformava você na pior versão possível.
Durante a ceia, Agamenon se posicionou ao lado de Kira, esperando que, finalmente, pudesse engatar uma conversa que lhe desse pistas sobre ela. Mas Kira se manteve em silêncio, ignorando suas tentativas. Depois de mais de dez investidas, ele desistiu, frustrado. Os olhares ao redor da mesa eram pesados. O pai de Kira parecia abatido, ciente de que, se a filha fosse mais "normal", já estaria praticamente noiva do barão. As primas, em sua maioria, estavam visivelmente animadas, sabendo que não havia homem que resistisse a uma mulher como Kira. Até os tios e tias estavam de olho. Mas, de repente, Kira quebrou o silêncio.
— O esforço de vocês é em vão... — Ela soltou uma risadinha, os olhos brilhando com sarcasmo. — Podem não acreditar em mim, mas digo isso porque é a verdade: um homem que caiu do céu não vai querer se casar. — Um silêncio desconfortável tomou conta da mesa até que uma de suas primas se apressou a defender Agamenon.
- O melhor que sempre fez, foi ficar calada. Acha que gostamos de ouvir suas bobagens? Por favor pare de nos envergonhar na frente de convidados como o senhor Agamenon.
Os pais da prima a observaram com angústia. Embora Kira pudesse ser excêntrica e agir à sua maneira, todos na família a respeitavam profundamente, especialmente por sua mãe, que fora uma mulher de extrema bondade e generosidade. Frases como aquela nunca seriam bem-vindas, ainda mais vindo de uma jovem que tinha plena consciência de suas atitudes e responsabilidades, coisa que não enxergavam em Kira, a viam apenas como alguém fragilizada mentalmente.
O silêncio tomou conta de toda a mesa até o fim da ceia. A família da prima pediu desculpas ao senhor Shepard e se retirou rapidamente. Agamenon tentou fingir desconforto, mas na realidade, ele se sentia aliviado. Se alguém teria que quebrar o clima, que fosse Kira e não ele. Quando finalmente se sentou ao lado dela novamente, percebeu que algo nela havia mudado.
- Porque disse aquilo? - Ele quis saber, depois de comentar sobre a decoração minimalista do pai dela. - Não foi nem um pouco agradável para elas.
- Acho que estava tentando ajudar, de alguma forma – Kira balançou a cabeça, pensativa. – Talvez não da maneira mais adequada. Só queria deixar claro que o senhor não tem intenção de se casar com nenhuma delas... Ou estou errada?
- Não sabe disso – respondeu ele, mantendo o tom leve, mas com uma sobrancelha levantada. – Eu poderia querer me casar com alguma de suas primas, você acha que são tão desagradáveis a ponto de não conquistar minha afeição?
- De forma nenhuma, senhor. - Kira direcionou os olhos para os dele, prendendo o mar negro ao mar azul. - Acredito que todas as minhas primas seriam perfeitamente capazes disso, mas seus modos durante toda a noite evidenciaram suas intenções de se manter solteiro ou pelo menos de não se comprometer com qualquer uma que seja. - Então ela se aproximou mais dele, quase colando a boca em sua orelha. - E também, o que um homem que vem do céu, poderia buscar em alguma delas? Não o conheço, mas sei que há muito mais do que deixa transparecer.
- É tão esperta quanto ouvi dizer. - Ele divagou nesse pensamento, Ayla havia avisado sobre ela, havia dito que mesmo naquele mundo ela deveria ser mais inteligente que a maioria e muito mais desafiadora. - Escute-me, percebo que ficou chateada pela minha mentira, mas é como eu disse, não teriam acreditado e dessa forma como poderíamos nos ver? - Ela o encarou, suas palavras a deixavam confusa e não conseguia racionalizar o que estava escondido atrás daquelas espirais azuis.
-E porque eu iria querer vê-lo? - Levantou a sobrancelha, destemida.
-Quer saber o que aconteceu comigo, não quer? - Kira engoliu em seco. - Posso lhe contar, posso lhe dizer o que quiser saber, até posso dar o que for que me pedir, mas preciso que esteja comigo.
-Acha que preciso dessas respostas tanto assim? - Cruzou os braços e se inclinou para ele. - Posso viver sem saber.
-Mas eu não vou viver se não tiver a sua ajuda. - A voz dele saiu como um fio tênue, quase inaudível, mas carregada de uma urgência desesperadora. Seu rosto se contorceu em uma súplica silenciosa, e Kira sentiu a força disso mais do que qualquer palavra.
- Precisa me contar tudo. - Ela disse, a ordem saindo com uma firmeza que quase partia o ar.. - Seja lá o que for que precise de mim, que não aja segredos, me diga tudo. - Reforçou. - Posso levar uma tela para o parque e me encontrar lá, o que me diz?
- Tela? – Ele pareceu confuso por um momento, antes de perceber o que ela queria dizer. O peso de sua resposta caiu sobre ele como uma promessa que mal podia crer.
- Sim, para pintar, não tem arte no céu? - A resposta dela era tão simples, mas ao mesmo tempo, tão cheia de significado que ele sentiu um aperto no peito. Esperança, pura e crua. Ele precisava que aquilo funcionasse. Precisava que ela acreditasse nele.
- Muito bem. -Agamenon respirou fundo, tentando se recompor, e então sorriu, com uma expressão que iluminou seu rosto de uma maneira que a fez sentir uma conexão inesperada. – Combinarei com seu pai esse nosso encontro. – Ele piscou para ela, um gesto singelo, mas significativo. As meninas ao redor, antes encantadas, agora pareciam desanimadas, já sabendo que ele havia feito sua escolha.
Ao fim da noite, depois das despedidas, Agamenon se encontrou por último com o senhor Shepard, contou sobre a intenção de Kira de vê-lo novamente, o pai não pôde acreditar e não sabia até onde poderia deixar aquilo ir. Tinha em mente que nenhum homem de respeito se casaria com sua menina, mesmo ele a considerando tão boa quanto qualquer outra, entretanto Kira tinha seus surtos que podiam aparecer a qualquer momento e sem aviso, apenas um amor muito grande seria capaz de suportar tais acontecimentos.
E mesmo pensando nisso, ele deixou que a filha fosse acompanhada pelo cavalheiro, precisava ter fé antes de julgá-lo erroneamente. Existia dentro dele, a esperança de que finalmente alguém poderia ver o que ele via quando olhava a filha, a pureza de alguém sem amarras.
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