Capítulo 15 - Ecos do Passado
3775 Palavras
Sangue. Mais sangue.
A rainha olhou para as mãos manchadas de carmim, os olhos arregalados pelo horror que se infiltrava em sua alma. O cheiro metálico, a viscosidade nos dedos. Ela mal conseguia respirar.
– Aldrin... – Sua voz saiu trêmula, quase perdida.
Ele virou-se. A armadura brilhante refletia o caos ao redor. Espada em punho, o elmo erguido, o olhar firme que tanto a reconfortara antes parecia agora frio e distante.
– O que houve? – perguntou, franzindo o cenho.
Ela balançou a cabeça, dando um passo vacilante para trás.
– Isso está errado. Tudo isso. – O tremor em sua voz era tão claro quanto o brilho das lágrimas que escorriam. – Ainda há tempo... Podemos parar, conversar, encontrar outro caminho.
Aldrin suspirou, cansado. Guardou a espada na bainha com um gesto ensaiado e, antes que ela pudesse se afastar mais, tomou suas mãos ensanguentadas.
– Se houvesse outro jeito, eu teria tentado, meu amor. – Sua voz soava como uma promessa vazia. Ele sorriu, aquele sorriso que antes aquecia seu coração, e levou as pontas de seus dedos aos lábios, ignorando o sangue que lhe manchava o rosto.
Gritos.
Ela puxou as mãos de volta com força, o gesto automático, quase instintivo.
– Não. – O tom dela endureceu. Um calafrio percorreu sua espinha, e seus olhos se fixaram no homem à sua frente. O homem que ela amava. O homem que agora parecia um estranho. – Por favor... Não me force a fazer isso.
O sorriso de Aldrin não vacilou. Ele deu um passo à frente, os cabelos sendo jogados pelo vento.
– Está tudo bem. Estamos fazendo o que é necessário. – Estendeu a mão para ela, confiante, como se nada pudesse abalá-lo. - Lembre-se nosso objetivo, minha rainha.
Mais gritos. Mais sangue.
Ela não respondeu. O arrependimento já havia se instalado fundo demais. O remorso, tão denso quanto a fumaça que pairava no ar, sufocava cada tentativa de protesto.
Kira acordou suando. A respiração ofegante a fez se sentar, sentia seu coração pulsando forte no peito, como se quisesse escapar pela boca. Olhou para as próprias mãos rezando para que não visse sangue, rezando para que fosse tudo um pesadelo. As mãos estavam limpas, mas o cheiro metálico parecia estar grudado em suas narinas e o gosto amargo não saia de sua boca.
Ela se sentou, buscando pelo copo de água que começou a deixar ao lado da cama. A agua gelada amenizou o gosto ruim, mas o cheiro continuava lá, o enjoou começou a subir por sua garganta, a vontade de vomitar a perseguia a semanas, desde a partida do lorde.
Colocou os pés descalços no chão frio e respirou fundo. "Mais um dia, você consegue", mentalizou. Seu instinto levou seus olhos para o cavalete disposto em seu quarto. A tela em branco esperava por ela.
O cheiro das tintas impregnou seu corpo assim que se aproximou da tela. Resgatou os pinceis em cima da mesa e o observou o branco da tela. Um calafrio subiu por sua espinha, sentiu o gosto amargo voltando aos poucos ao seu paladar. Suas mãos se mexeram rapidamente, precisava pintar antes que sua mente fosse levada para o escuro, ou pior, de volta aquelas memorias que insistiam em se repetir em seus sonhos.
Sempre o mesmo momento, sempre cheio de sangue, sempre com Aldrin.
Ela pintava com urgência, como se o movimento do pincel pudesse apagar as memórias que a atormentavam. Era assim que sempre lidara com as sombras do passado: pintar para esquecer, pintar para se libertar.
Desta vez, as cores ganharam vida em uma ponte que se arqueava sobre um rio furioso. A correnteza parecia transbordar da tela, suas águas brancas espumando contra as rochas negras das margens.
De um lado, uma floresta verdejante se erguia, vibrante e detalhada. Cada folha parecia sussurrar promessas de aconchego, uma tranquilidade que permanecia inalcançável.
Do outro lado, o contraste era brutal: ruínas escuras, onde o bege das pedras quebradas se misturava ao preto do carvão e ao verde opaco da decadência. Pequenos focos de chamas lambiam os escombros, escondendo-se entre os galhos caídos e as rachaduras das pedras.
Cada pincelada parecia gritar. Entre a luz e a destruição, ela depositava seu próprio conflito, tentando encontrar um equilíbrio que, talvez, nunca chegasse.
Os olhos verdes e profundos surgiram em sua mente assim que ela terminou as últimas pinceladas no quadro.
Pensar nele era inevitável. Ele parecia ocupar cada canto de sua mente, especialmente nas noites solitárias. Os longos cabelos loiros caíam sobre os ombros como se sempre estivessem perfeitamente alinhados com seu charme natural. O sorriso, sempre presente, irradiava uma confiança quase desarmante, e os olhos brilhavam com uma sedução que parecia deliberada. Tudo nele exalava certeza – a forma como caminhava, como movia o corpo, como se soubesse exatamente qual era seu lugar no mundo. E mais do que isso, qual era sua importância para ela.
Às vezes, Kira sentia que pensar em Aldrin era quase uma traição ao que sentia pelo lorde. Mas logo se esquivava dessa autocrítica com uma leveza que só ela sabia aplicar. Afinal, ela não estava atrás do príncipe e nem cogitava estar. Pelo contrário, permanecia fiel à espera pelo lorde, confiando que o tempo longe não apagaria o que existia entre eles.
Foi até o banheiro a passos curtos, massageando os próprios ombros enquanto andava. Molhou o rosto, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e retirou sua roupa de dormir. De volta ao quarto, abriu os armários em busca de um vestido, mas sua atenção logo foi desviada.
O quadro que pintara parecia clamar por seu olhar, como se a dualidade representada nele refletisse, com uma perfeição exagerada, os sentimentos que nutria pelo lorde e pelo príncipe. O contraste de cores, a indefinição dos traços... Tudo naquele quadro parecia ecoar a incerteza que pesava em seu peito.
Seu olhar permaneceu fixo na tela por um instante a mais do que deveria. A confusão dentro de si ganhava forma diante dos próprios olhos, transformando aquele quadro em algo mais que uma pintura – era um reflexo. Um reflexo que não sabia como interpretar.
Respirou fundo, obrigando-se a desviar os olhos. "Não agora". Não podia se perder nesses devaneios quando o mundo ao seu redor exigia sua atenção. Sacudiu a cabeça, espantando os pensamentos como quem espanta um fantasma incômodo. Havia coisas mais urgentes para lidar, problemas que não esperariam por suas dúvidas.
Os cafés da manhã haviam mudado desde a partida do lorde. O comandante ordenara que Zaki, Ayla e a rainha se reunissem com ele todas as manhãs em uma sala privada. Era nesses encontros que ele se atualizava sobre os progressos da rainha, enquanto Ayla informava a todos sobre as investidas contra o palácio de Aldrin, que, até então, não estavam tendo sucesso.
A barreira ao redor do palácio era incrivelmente poderosa, e do outro lado, milhares das mesmas criaturas aguardavam as ordens de seu mestre. Ainda não compreendiam os motivos que levaram Aldrin a interromper os ataques, mas todos suspeitavam que ele estava apenas esperando o momento certo para agir. As desconfianças de Zaki recaíam sobre a rainha. Ele a interrogava frequentemente, perguntando se Aldrin havia tentado se comunicar ou se havia realizado qualquer tipo de investida. A resposta era sempre a mesma: não.
- Bom dia. - Kira disse desanimada e se juntou a eles.
O comandante notou de imediato — o olhar de Kira parecia distante, os ombros mais tensos do que o normal.
- Não parece bem. - comentou, atraindo a atenção de Zaki, que estreitou os olhos, analisando-a com mais atenção.
- Não é nada demais. - A menina disse, bebendo seu café sem conseguir olhar nos olhos de ninguém. - Venho tendo um sonho, o mesmo sonho desde que Agamenon se foi.
- Sonho? - Ayla coçou o queixo olhando para Zaki. - Como ele é?
- Eu estou em um campo de batalha. Sei que é a grande guerra, o lorde me mostrou, Aldrin está lá comigo. - Zaki engoliu saliva enquanto Ayla apertava sua mão por debaixo da mesa. - Seria possível me lembrar?
Kira olhou diretamente para o comandante, que recostou-se na cadeira, os dedos entrelaçados, os olhos fechados.
- Zaki, Ayla, gostaria de falar com a rainha em particular.
Ambos se levantaram, a contragosto, e saíram pela porta.
Após a saída deles, o comandante permaneceu imóvel, os olhos fixos em um ponto distante, como se estivesse reorganizando pensamentos que há muito o assombravam. Kira o observava em silêncio, sentindo a tensão no ar, esperando que ele tomasse a iniciativa, que revelasse o motivo por trás daquele pedido inesperado. Mas ele apenas permaneceu ali, preso a algo que ela não conseguia enxergar.
A espera se tornou insuportável.
— Comandante. — Sua voz cortou o silêncio, carregada de cansaço e expectativa.
Ele piscou algumas vezes, como se voltasse ao presente, e então sorriu — um sorriso breve, quase melancólico.
— Perdoe-me. — Sua voz era gentil, mas carregava um peso difícil de nomear. — A essa altura, já deve imaginar que não são apenas sonhos.
Kira sustentou o olhar dele por um instante antes de assentir. Ela já sabia. No fundo, sempre soube.
— Há muitas coisas que desconheço — ele continuou, seu tom carregado de frustração contida. — Apesar de estar presente nos eventos do passado, nunca soube de tudo que realmente aconteceu. É um quebra-cabeça que tento montar há anos, e você... — Ele fez uma breve pausa, estudando-a com uma intensidade quase reverente. — Você é uma peça essencial em cada parte dessa história.
O comandante a observou por um momento, depois se inclinou levemente para frente, seus olhos carregando um brilho distante, como se mergulhasse em lembranças enterradas no tempo.
— Tenho informações que gostaria de compartilhar. — Sua voz saiu baixa, quase hesitante, mas firme.
Kira o imitou, inclinando-se também, sentindo a gravidade do que estava prestes a ser dito.
— Tive três filhos. Maia e Aldrin nasceram juntos, gêmeos idênticos. Poucos anos depois, minha esposa deu à luz a Zaki.
Ele fez uma pausa, e sua expressão se transformou — nostalgia e felicidade dançavam em seu rosto, mas eram rapidamente sufocadas pela melancolia. Era o olhar de um homem que já segurou a felicidade nas mãos apenas para vê-la escorrer entre os dedos.
— Minha rainha morreu após o parto de Zaki.
Kira sentiu o peso daquelas palavras no ar, espesso como neblina. Ela conhecia aquela dor. Reconhecia o luto silencioso na face dele, a ferida que o tempo nunca cicatrizou por completo.
— Sinto muito... — sussurrou, e não foi apenas um gesto de educação, mas uma empatia genuína.
O comandante assentiu, aceitando o pesar dela sem precisar de mais palavras.
— Maia e Aldrin eram inseparáveis. — Sua voz ganhou um tom distante, como se falasse de um sonho que se perdeu ao acordar. — Ambos ascenderiam ao trono em meu lugar, seriam rei e rainha das Terras da Alvorada. Mas Maia... — Ele pausou, os olhos se estreitando ligeiramente, como se a memória trouxesse um gosto amargo. — Maia se apaixonou por um homem que não a merecia.
O silêncio que se seguiu era denso, carregado de lembranças que o tempo não conseguira apagar. Um arrepio percorreu a espinha de Kira, como se pudesse sentir o peso da história antes mesmo das palavras serem ditas.
— Meu primeiro erro foi permitir esse romance. — A voz do comandante saiu baixa, rouca, como se confessasse um pecado que jamais se perdoara. — Aldrin era contra. Ele enxergava o que eu não quis ver. Sabia das intenções daquele homem.
Ele respirou fundo, como se a memória apertasse seu coração com mãos invisíveis.
— Maia era minha primogênita. Seu direito ao trono era inquestionável, e ele... ele a fez acreditar que Aldrin não merecia estar ao seu lado, que aquele lugar lhe pertencia por completo. — Uma sombra passou por seus olhos. — Eles se casaram em segredo. Ela engravidou.
O comandante fechou os olhos por um instante, perdido entre passado e presente.
— Aldrin ficou amargurado. — Ele prosseguiu, a voz mais grave, mais arrastada. — Culpava a mim por não ter protegido a irmã. Mas não ficou de braços cruzados. Descobriu as traições, os planos que aquele homem tramava para ascender ao trono... e contou tudo a Maia.
Kira não precisou perguntar qual fora a reação dela. O sofrimento transparecia na expressão do comandante, nas rugas de sua testa franzida, no aperto dos dedos contra os braços da cadeira.
— A tristeza dela foi indescritível. — Ele murmurou, quase como se falasse consigo mesmo. — Aldrin não hesitou. Condenou o homem à guilhotina. Sua execução foi pública, e eu... eu não fiz nada para impedir.
As lágrimas romperam a barreira de seus olhos, deslizando silenciosas por sua pele marcada pelo tempo.
— Maia nunca se recuperou. Afundou-se em uma dor que nem mesmo Aldrin conseguiu resgatar. E ele... ele adoeceu junto com ela.
O silêncio se tornou insuportável. Kira podia ver a cena se desenhando em sua mente: os gêmeos, tão unidos, tão entrelaçados pelo destino, sucumbindo à tragédia.
— Ela morreu ao dar à luz Agamenon. — A confissão veio quebrada, como vidro estilhaçado. — Aldrin odiou a criança. Culpou o bebê por ter tirado sua irmã.
Kira permaneceu em silêncio, as palavras do comandante ressoando em sua mente como um trovão distante, mas implacável. As imagens de Maia e Aldrin, gêmeos unidos pelo destino e pela dor, preenchiam sua mente, e ela sentiu uma pontada de compaixão por aqueles que haviam perdido tanto. Pensava na complexidade da vida de Aldrin, na melancolia que o consumia, na tragédia que moldara sua existência. A dor de perder a irmã parecia tê-lo aprisionado em uma amargura eterna. Kira se questionou, então, o que tudo aquilo significava para ela. Como poderia, de algum modo, se encaixar nesse enredo de perdas e escolhas erradas? Em que momento essa história a alcançaria?
O comandante respirou fundo, tentando recuperar a firmeza da voz antes de continuar.
— Criei Agamenon como um filho. — Ele finalmente disse. — Mas Aldrin... Aldrin nunca aceitou sua existência. Por anos, isso o afastou de todos nós.
Kira piscou, absorvendo o peso de cada revelação.
— Foi Zaki quem me ajudou a cuidar dele. — O comandante desviou o olhar, como se encarasse a lembrança de um passado distante. — Tio e sobrinho sempre tiveram um vínculo muito forte.
A pausa que se seguiu foi longa, carregada de emoções não ditas.
E Kira percebeu.
Não era apenas uma história.
Era um lamento.
— Aldrin voltou para nossas vidas quando Agamenon já era adulto. — A voz do comandante carregava um peso difícil de descrever. — Sua semelhança com Maia era inacreditável. Estar com ele era como tê-la de volta. Não havia nada nele que lembrasse o pai.
Ele respirou fundo, como se ainda precisasse se convencer de suas próprias palavras.
— Isso mudou algo em Aldrin. Pela primeira vez, ele viu Agamenon de outra forma. Eles se tornaram amigos. Acho que, por alguns anos, meu filho conseguiu superar a morte da irmã. Porque estar com Agamenon... supria a ausência de Maia. Ainda hoje, às vezes, me pego impressionado com o quanto eles são idênticos.
Kira engoliu em seco, tentando imaginar a cena. Era uma história que se dobrava sobre si mesma, cheia de ecos do passado moldando o presente.
— Não consigo imaginar algo assim. — Ela murmurou. — Mas Agamenon parece sentir um ódio profundo por Aldrin.
O comandante assentiu devagar, como se carregasse nos ombros o peso dessa verdade.
— E com razão.
Ele recostou-se na cadeira, os olhos perdidos em um ponto distante.
— Não sei de todos os detalhes. Só sei que Agamenon se apaixonou... e Aldrin destruiu esse amor. Não sei os motivos. Não sei o que aconteceu entre eles. Mas sei que ele a matou.
O silêncio pesou entre os dois. Kira sentiu a respiração prender na garganta.
— Ele estilhaçou o coração do lorde em milhares de pedaços. E, com isso, qualquer vestígio de Maia desapareceu.
O comandante fechou os olhos por um momento, e quando voltou a falar, sua voz era apenas um sussurro:
— Foi como vê-la morrer uma segunda vez.
Kira ficou imóvel, absorvendo aquelas palavras. Agora ela entendia. O olhar vazio de Agamenon. O frio em seus olhos. O peso de sua existência.
Aldrin não havia matado apenas uma pessoa.
Ele havia matado um pedaço do passado.
Pensar nisso trouxe à tona a memória que vira em seu mundo, através dos olhos de Agamenon. Um momento perdido no tempo, esquecido nas lembranças dele, em um lugar ao qual não tinha mais acesso, mas que, de alguma forma, ela havia sido capaz de alcançar. Tinha de haver uma razão, uma conexão com o presente. O comandante talvez não soubesse, e ela mesma não fazia ideia do que poderia ser. Mas Aldrin sabia exatamente o que aquilo significava—e duvidava que ele lhe contasse qualquer coisa que pudesse coloca-lo em desvantagem.
- Toda essa história está dando um nó na minha cabeça. - Confessou, a voz trêmula, como se fosse difícil até mesmo respirar com a bagunça emocional que se formava em seu peito. - Agamenon não me mostrou nada disso, não me contou sobre esse horror que Aldrin fez.
Ela olhou para o chão, o peso daquelas palavras a sufocando, mas o comandante continuou, e algo nas suas palavras fez a dor crescer ainda mais.
- Agamenon prefere não falar sobre Lídia. - O comandante esclareceu, sua voz suave, quase respeitosa. - A muito custo se recuperou da perda... Eu realmente não achava que ele fosse capaz de se apaixonar de novo, até ver os olhos dele brilhando... Por você.
Havia incertezas na mente do comandante, mas elas não estavam relacionadas ao evidente sentimento que o lorde nutria por Kira, rainha de Kvinner. Seus pensamentos flutuavam sobre como o Destino podia ser cruel e vingativo. Kira, por outro lado, se sentiu surpresa com as palavras do comandante. Lembrou-se do que o lorde lhe dissera na noite antes de partir: Lídia era a mulher a quem o coração dele pertencia... De alguma forma, aquela informação não a perturbou, mas trouxe-lhe um conforto intrigante.
Se encontrava presente algo inquietante na maneira como o comandante parecia carregar suas palavras. Kira podia sentir que ele falava mais do que apenas fatos; ele estava compartilhando o peso de uma verdade amarga, uma verdade que ainda o assombrava. Enquanto ele falava, Kira se viu presa entre a perplexidade e a culpa, como se o passado, que ela tentava tanto entender, a cercasse de forma invisível.
- Algo dentro do meu filho estava errado. - O comandante fechou os olhos em agonia. - Ele anunciou o casamento com você tempos após a morte de Lídia. Foi quando o destronei, não podia permitir que um assassino assumisse o trono das terras da Alvorada. Zaki subiria ao trono, assim pensei, mas ele se recusou a ser meu herdeiro. Me disse que o único que poderia tomar esse lugar seria o sobrinho, e assim foi feito.
A tensão na voz do comandante apertava o coração da rainha.
- Foi quando a grande guerra iniciou. - Ele a encarou, a mesma duvida do passado caminhava por sua cabeça. - Por um tempo pensei que a culpa fosse sua da mudança do meu filho. Peço desculpas por isso. Kvinner sempre foi independente das Terras da Alvorada. Tudo dentro dos seus territórios nos era desconhecido, e todas as tentativas de contato falharam. Mas tudo desmoronou quando você o aprisionou e foi embora, deixando lacunas inexplicáveis até agora.
Kira baixou o olhar, sua mente agora mergulhada nas próprias incertezas. Não tinha respostas, não para ele, nem para si mesma. A confusão ainda reinava dentro de si, como um eco distante de arrependimento que ela não sabia explicar.
- Ainda não tenho as respostas para nada disso. - O olhar dela vagou para o café gelado em seu copo. - Queria poder lhe dar respostas, mas tudo que sei é que me arrependi e ainda não sei porque.
O comandante assentiu, sua expressão sombria.
- Tenho esperanças que descobrirá em breve. - Ele sorriu, mas o sorriso logo desapareceu, dando lugar a um olhar grave. - Falhei com minha família, mas não posso falhar com meu povo. - Ele fez uma pausa, como se pesasse cada palavra. - Por isso precisamos de você.
Kira ficou em silêncio, absorvendo o peso das palavras. O que ele estava pedindo dela não era simples, e uma parte dela hesitava. Ela sentia que havia mais camadas de história do que poderia compreender, mas o que sabia era que sua própria jornada estava se entrelaçando com os destinos daqueles que a cercavam.
- O que quer que eu faça? - Sua voz saiu baixa, mas firme. Ela sentia o peso da responsabilidade, ainda que não tivesse todas as respostas, sabia que não poderia se afastar.
O comandante a olhou com um brilho de determinação nos olhos.
- Seu caminho agora está irrevogavelmente entrelaçado com o destino das Terras da Alvorada. O que aconteceu no passado pode não ser totalmente compreendido, mas o que se desenrola diante de nós será forjado por nossas escolhas. E suas escolhas, Kira, serão fundamentais.
Kira olhou para ele, um calor estranho crescendo dentro de si. Aquela conversa a havia colocado diante de algo muito maior do que ela imaginava. Não era só sobre a verdade ou os sentimentos que ela ainda não compreendia, mas sobre as decisões que precisaria tomar.
- Eu farei o que achar certo. – Ela disse, agora com mais clareza em sua voz, uma firmeza que transparecia uma força ainda em construção.
O comandante fez um gesto afirmativo com a cabeça, mas seu olhar não saiu de Kira, como se estivesse avaliando cada nuance em sua expressão. O silêncio se estendeu entre eles, como um fio tenso prestes a se romper, e Kira sentiu o peso das palavras não ditas. Ela sabia que seus próximos passos seriam mais que decisões; seriam testes do destino.
Ele deu um pequeno sorriso, quase imperceptível, e antes de se levantar para sair, suas palavras saíram lentas, carregadas de uma tranquilidade incomum.
- Lembre-se, Kira... o caminho certo muitas vezes é o mais difícil de seguir. – O olhar do comandante, fixo e cheio de uma sabedoria pesada, parecia esconder mais do que dizia. – Mas é nele que você encontrará o que realmente importa. Que sua jornada nunca seja perturbada pelos erros daqueles que não podem ver o quadro completo.
Com a saída do comandante da sala, Kira se viu diante de decisões que precisaria tomar no futuro, mas que não tinha a menor ideia de quais seriam. A única certeza que tinha era que, no passado, fora capaz de tomar uma decisão difícil. Então, se tivesse capacidade para isso, o que a separava de resolver toda aquela situação era apenas o tempo. E contra o tempo, não havia nada a se fazer, a não ser esperar que ele passasse.
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