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Capítulo 12 - O Limiar dos Sentimentos

4380 Palavras

- Porque está sorrindo? – Agamenon perguntou, incomodado, como se aquele sorriso dela o forçasse a dizer algo que não queria. – Não importa. – Pegou a mão dela e começou a puxar para fora do salão, indo em direção a um espaço que dava vista para os jardins, longe de toda música e agitação.

O frio e a escuridão dominavam o ambiente, e no ar pairava um doce aroma que contrastava com o clima pesado. Ao longe, o portão que dava acesso ao jardim brilhava, mas o próprio jardim permanecia oculto nas sombras das árvores ao seu redor. No horizonte, um círculo dourado se estendia, como uma barreira protetora, guardando o palácio das forças sombrias que se reuniam à distância, esperando o momento certo para atacar.

Agamenon estava tenso, olhando para ele era possível ver as linhas que se formavam em sua testa, seu corpo rígido e alerta, uma mão na bainha e a outra em punho, sem contar os olhos, sangue em um e um mar azul no outro, ele não sabia como agir e nem se deveria esperar enfrentar alguma coisa naquela noite, ao mesmo tempo que estava alerta se sentia calmo pelo cheiro da brisa e o vento que agitava seus cabelos.

- Me trouxe aqui para admirar as estrelas? – Kira provocou, lançando um olhar para o céu tomado por nuvens escuras. – Que romântico. Acho que vou aproveitar a vista... enquanto não começa a chover. - respondeu com um sorriso discreto, observando o céu onde as nuvens densas e pesadas se acumulavam, obscurecendo qualquer ponto de luz.

- Mas é claro – respondeu, abandonando qualquer resquício de formalidade e recostando-se na mureta junto à escada. – Noite perfeita pra isso. Ainda bem que seu humor melhorou, ou eu acabaria aqui falando com o vento, como de costume. – Ele apoiou o queixo na mão, examinando o rosto de Kira com um olhar provocador. – Vamos, estou até esperando que me contradiga.

- Não estou muito afim. – Ela deu de ombros, se sentando no chão, olhando para a entrada de onde vieram, a pouca luz vinha de lá, bem como um resquício de sons e conversas. – Duvido que esse baile sirva de distração.

- Serviu. – Agamenon se sentou ao lado dela, seus olhos começavam a voltar a ter a mesma cor. – Os ataques das bestas pararam. – Kira o olhou não acreditando. – E o oráculo foi visto ao norte, ele pode dizer onde o seu reino está.

- O que isso significa?

- Teremos mais armamento, Kvinner tem guerreiros incríveis e as feiticeiras são tão poderosas quanto Ayla. – Kira suspirou, um pequeno medo se instalava em suas entranhas.

Encontrar seu reino significava encontrar pessoas que possivelmente nutriam sentimentos de afeição por ela e que possivelmente ela sentiu sentimentos afetivos, ao lembrar que teria de voltar para casa ao final dessa aventura só apertava ainda mais seu coração. De acordo com as memórias, Kira podia supor que seu pai já havia esquecido quem era ela. 

Na dimensão de onde Kira viera, as memórias das pessoas desaparecidas não duravam muito. Era um mecanismo de proteção, uma forma de preservar aqueles que permaneciam. Com o tempo, as lembranças da pessoa ausente começavam a se apagar dos que ficaram, como se ela nunca tivesse existido. Esse esquecimento progressivo era inevitável, parte das regras arcaicas daquele mundo. Mas, se algum dia ela retornasse, as lembranças seriam restauradas, voltando com a mesma intensidade de antes — como se cada momento perdido retornasse num instante.

Quanto a Kira, o amor do pai era algo palpável: seus abraços carinhosos, sua infindável dedicação a felicidade da filha, o amor que nutriu pela esposa, a dor de perdê-la e agora perder sua menina, estaria sozinho naquela casa, olhando para as paredes com quadros de Kira, sem saber quem os pintou, passando pelo quarto vazio da menina, se perguntando porque ele ainda estava ali, porque não o transformou em outra coisa, passando os dedos pelos pincéis, sentido o cheiro da tinta seca grudada nos móveis, nos lençóis de cama, pingadas no chão, cada detalhe, cada cor, sem explicações, sem motivos para estar ali, sem lembranças de uma menina que não dormia, que virava a noite com pincéis e tinta, que corria com eles pela casa, deixando as cores pingarem pelos cantos, manchar os tecidos, afogando a escuridão de um viúvo que amou demais a sua esposa e a perdeu, permanecendo com um vislumbre dela, nos olhos da filha.

Kira quase podia senti-lo ali, sentado em sua poltrona favorita, as pernas cruzadas, o livro apoiado nas mãos firmes, folheando as páginas com a mesma calma de sempre. Era o mesmo exemplar que costumavam ler juntos nos dias de chuva, quando o vento assobiava pelas frestas das janelas e o frio os obrigava a se encolher sob camadas de cobertores no chão. O aroma do papel envelhecido misturava-se ao cheiro familiar dele, um perfume discreto, mas reconfortante. Ela se lembrava do calor de sua presença ao lado, do som baixo de sua voz recitando trechos que já conheciam de cor. Agora, tudo não passava de um eco distante, uma memória retraída no fundo de sua alma, deixando um vazio inexplicável no peito.

A imagem parecia palpável; se esticasse a mão, talvez pudesse tocá-lo. Seus dedos avançaram lentamente, enquanto a loucura tomava sua mente. O que restava de real naquele momento, se tudo parecia tão incerto? Os dedos do lorde em suas mãos? A voz abafada que parecia tão longe ou a imagem do pai dela tirando o livro para olhar em volta encontrando os olhos da menina ali, se levantando sem acreditar, sussurrando o nome dela, tentando alcançá-la, erguendo a mão para puxá-la para si, para trazê-la de volta aos seus braços.

— Kira! — A voz de Agamenon rompeu o véu da visão, firme e carregada de urgência. Ele segurou a mão dela e a abaixou suavemente, colocando-se bem à sua frente. No instante em que seus olhos encontraram os dela, a imagem se desfez como névoa dissipando-se ao vento. Mas o que ele viu em seguida o deixou paralisado: lágrimas douradas escorriam pelo rosto de Kira, pesadas como se estivessem impregnadas de algo antigo e poderoso, uma magia ancestral que só uma verdadeira filha da Alvorada poderia carregar.

— Olhe para mim, por favor. — Ele implorou, a voz embargada pelo desespero. Seu rosto estava ruborizado, as veias de seu pescoço saltadas, os braços trêmulos sob a tensão de estar ali, sustentando-se com um esforço que parecia exigir tudo de si. Era como se lutar contra aquela força invisível drenasse sua própria essência, mas ele não recuaria.

— Ei, concentre-se em mim. — A súplica agora veio quase como um sussurro. Agamenon apoiou um joelho no chão e, com delicadeza, puxou Kira para si, envolvendo-a em um abraço firme. Ele escondeu os olhos dela contra seu peito, apertando suas mãos entre as suas, sentindo o tremor frio em seus dedos. O medo de que ela pudesse ser tragada novamente por aquela visão subia por sua garganta, quase o sufocando. Mas ele se recusava a soltá-la.

A magia de Kira se manifestava com uma facilidade inquietante. Bastava um simples foco de sua atenção para que tudo ao redor se curvasse à sua vontade. Agamenon já sabia disso—sempre soube que a rainha de Kvinner era dotada de um poder imenso, um dom raro que fluía sem esforço aparente. No entanto, nada o havia preparado para o que via agora. Abrir um portal para outra dimensão era um feito que exigia preparo, inscrições mágicas, um ritual de conexão meticuloso, como Ayla havia demonstrado. Mas Kira? Ela não precisou de nada além da própria vontade. Apenas fixou seu olhar no destino, pensou em quem desejava ver, e então ele surgiu: um rasgo na realidade, uma fenda aberta entre mundos. Diante deles, a sala de sua casa se materializou, distante, mas ao mesmo tempo tão perto, a apenas um passo de distância.

O impacto da visão fez o coração de Agamenon martelar no peito. Se ela atravessasse aquele portal, ele perderia tudo—ela, seu propósito, a única chance de salvação para seu povo. Não podia permitir. Movendo-se com a velocidade de um relâmpago, inclinou o corpo para a frente, enfrentando de peito aberto a força colossal que se expandia ao redor dela. Com as mãos, invocou um escudo de energia, tentando empurrar o portal para longe, resistindo ao vendaval mágico que ameaçava tragá-lo junto. A eletricidade percorreu sua pele como lâminas ardentes, cada músculo tensionado contra a corrente invisível que tentava afastá-lo. Kira não queria machucá-lo—ele sabia disso. Sua magia não era ofensiva, apenas esmagadoramente poderosa. Tão intensa que lutar contra ela era como desafiar uma tempestade. Ainda assim, ele não recuou. Com um último avanço, postou-se diante dela, suportando o peso da magia, sentindo-a vibrar no ar entre eles. E, mesmo enquanto seu corpo gritava em protesto, manteve-se ali, decidido a impedir que ela desaparecesse para sempre.

Quando sentiu a magia se dissipar e o corpo dela retomar sua forma humana natural, Agamenon a afastou ligeiramente, apenas o suficiente para poder enxergar seu rosto. Os resquícios das lágrimas douradas ainda brilhavam em sua pele, refletindo a luz de maneira hipnotizante. Os cabelos caíam em desalinho ao redor do rosto, algumas mechas soltas colando à sua testa, os lábios entreabertos, avermelhados, como se ainda estivessem trêmulos pelo que acabara de acontecer. Ela parecia frágil, mas ao mesmo tempo intensa, carregada de uma vulnerabilidade que não a tornava menor—apenas mais real, mais tangível.

A tensão no ar apertou seu peito e desceu como um peso denso pelo resto do corpo. O desejo por ela, sufocado tantas vezes, ressurgiu sem aviso, cravando-se fundo em sua carne. Ele a queria. Sempre a quis. E por mais que tentasse se convencer do contrário, sabia que não havia força capaz de fazê-lo parar de desejá-la. Seu autocontrole se esvaía, desmoronando diante da simples visão dela ali, entregue ao próprio cansaço. Por dois segundos, a ideia cruzou sua mente como um sussurro traiçoeiro: se a tivesse para si, se possuísse seu corpo, talvez a febre que o consumia finalmente cessasse. Talvez pudesse satisfazer essa ânsia e voltar a ser quem era antes. Mas ele sabia—tão rápido quanto o pensamento viera—que isso era uma ilusão. Nada sobre ela jamais poderia ser passageiro. Nada entre eles poderia ser esquecido.

- Eu, desculpe. – Kira disse esfregando as mãos no rosto, tirando o dourado quase todo. – Isso foi magia ou uma alucinação?

- A mais pura magia. – Ele entortou a cabeça, voltando ao seu lugar de antes, sentado ao lado dela. - Aparentemente, ela corre muito forte, precisa ter cuidado, seus sentimentos a desperta, como fez na carruagem, e agora ao pensar no seu pai.

- Certo. – Confirmou com a cabeça, olhou as pontas dos dedos manchadas de dourado e os passou no vestido. – Mas é muito intenso, perco a noção de mim.

- Percebi, gritei por você, parecia que não estava me ouvindo. Isso foi exaustivo. – Ele fechou os olhos, respirando fundo, tentando acalmar o coração que pulava no peito.

Com a sutileza de uma abelha pousando em uma flor, um pensamento intrigante rodopiou em sua mente, perturbando sua paz e abrindo espaço para possibilidades que antes pareciam impossíveis. Até aquele instante, Kira acreditava que não tinha escolhas. Sua jornada terminaria, e ela teria que retornar ao seu lugar de origem. Um destino selado, imutável. Mas... e se não precisasse ser assim? E se houvesse outra opção, uma que nunca havia cogitado até aquele momento?

— Agamenon. — Ela hesitou por um instante. — Seria possível trazer meu pai para cá?

Ele abriu os olhos novamente, compreendendo imediatamente aonde ela queria chegar.

— É claro. — Disse, como se fosse óbvio. — Está escolhendo ficar aqui? — Um sorriso inevitável surgiu em seus lábios. — Porque, se estiver, majestade, será a escolha mais sensata da sua vida. — Ele balançou a cabeça, abrindo ainda mais o sorriso e gesticulando com as mãos. — Aquela dimensão é horrível, nojenta de verdade. Nada é possível, tudo é conturbado.

— Pare de falar mal de lá, ainda é minha casa. — Ela cruzou os braços.

— Eu detesto aquele lugar. — Ele deu de ombros. — Assim que a guerra acabar e vencermos, faço questão de ir contigo para buscá-lo. Tenho certeza de que serão felizes em Kvinner.

— Viveria lá conosco? — Havia um brilho em seu olhar, um desejo implícito que surgia sem ser convidado.

 O convite de Kira o atingiu de forma inesperada, como se tivesse puxado algo que ele mantinha enterrado sob camadas de certezas bem ensaiadas. Viver em Kvinner? Ele não havia pensado nisso, não dessa forma. A empolgação que antes transbordava em suas palavras foi tomada por um peso estranho no peito, algo que não era bem medo, mas carregava a mesma hesitação. Se fosse qualquer outra pessoa perguntando, teria recusado sem nem precisar refletir, mas Kira... Com ela, a resposta não era simples. Sua vida sempre esteve enraizada nas Terras da Alvorada, em batalhas, deveres, responsabilidades que moldaram quem ele era. Mas e se, no final, Kira fosse a única coisa que realmente importava? Ele fechou os olhos, buscando alguma convicção que pudesse agarrar, mas tudo o que encontrou foi o eco silencioso da dúvida.

O lorde não respondeu de volta, ao invés disso se levantou, ajeitou sua roupa e inclinou o corpo para frente, observando as sombras do jardim se movendo, deixando que o vento voltasse a brincar com as madeixas negras, se lembrando do motivo de ter puxado a garota para aquele lugar, ele tinha algo a dizer só não sabia ainda como fazê-lo, poderia apenas não falar nada, deixar as coisas acontecerem como geralmente fazia, porém dentro de si ele acreditava que a rainha merecia muito mais, merecia toda sua consideração e respeito.

Ele fechou os olhos e deixou sua mente voltar para muitos minutos antes...

- Ele já foi. – O comandante anunciou com sua voz grossa e cansada quando Agamenon apareceu. – Tenho certeza que ele deve ter ido até a rainha, por isso está aqui.

Agamenon confirmou com a cabeça, tentando relaxar o corpo, se aproximando do trono e demonstrando respeito, com uma leve reverencia. 

- Ele não se atreveria a vir realmente. – A voz do lorde estava densa, parecido com um rugido de um animal voraz. – Eu o teria notado. – O comandante confirmou com a cabeça e se levantou, descendo os degraus do trono, ficando à frente do lorde, seu manto se estendendo atrás de si, cobrindo a escadinha e seus segredos.

- De fato. - O comandante suspirou, sentindo o cansaço atingir suas costas. - Aldrin está tão forte quanto antes, sua magia é poderosa, por mais que eu tente impedi-lo, sua presença constante é um fardo que carrego.

- É o mesmo que dizer que ele continuará aparecendo e ninguém fará nada para impedi-lo! - A voz de Agamenon soou mais alto do que deveria, algo que não agradou ao soberano. - Perdoe-me, mas mesmo que o corpo dele não venha realmente aqui, a simples energia passando pelo portões é um desafio, uma ameaça.

- Está muito agitado. – A voz do comandante carregava uma passividade agressiva, enquanto seus dedos tocavam o queixo do lorde com aparente calma, mas numa firmeza desafiadora. – Ter ido para dimensão dela mexeu com sua estabilidade. – Ele sussurrou essa frase para que os guardas ao redor não ouvisse. – Estive pensando, seu tio vem feito um trabalho excelente liderando as tropas, não precisamos mais que fique aqui e supervisione. 

 Agamenon levantou a cabeça, para encarar os olhos do comandante, aquele olhar sem luz estava lá novamente, parecia oco por dentro, alguém sem esperanças ou anseios, alguém que já morreu e só mantinha o corpo funcionando. 

– Então, pensei em mandá-lo atrás do oráculo. Sabemos que ele foi visto ao norte. Quero que reúna um grupo e o traga para cá. – O soberano respirou fundo, medindo as palavras. – Talvez isso o ajude a regular seus sentimentos.

– Meu avô, isso é o menor dos problemas! – Agamenon ergueu a voz, a frustração transbordando. – Precisamos lidar com a presença constante de Aldrin...

– Já basta! – A voz do soberano cortou o ar como uma lâmina, reverberando pelas paredes do salão. – Seu tio me ajudará com isso. Temos Ayla e, agora, a rainha de Kvinner.

A última afirmação atingiu Agamenon como um golpe no peito.

– Ela ficaria aqui? – Ele perguntou, a incredulidade misturando-se à tensão em sua voz.

O comandante sorriu, o olhar afiado como se já antecipasse sua reação.

– Ora, Agamenon... – sua voz era carregada de um tom provocativo. – Ela vai ficar aqui e se preparar para realizar o que planejamos. - Virou-se com calma, caminhando de volta ao trono, como se lhe desse tempo para absorver a decisão.– A menos que isso seja um problema para você.

O comandante percebia claramente algo se agitando dentro de seu sucessor, uma energia vibrante que parecia rodopiar com intensidade no interior da rainha. Ele não sabia exatamente como isso havia começado, e também não se atreveria a perguntar ao Lorde. O temperamento de sua filha estava impresso em cada detalhe e gesto do jovem, tão evidente que o fazia lembrar dela a cada movimento. Continuaria fingindo que nada estava acontecendo, até que se visse diante de uma decisão inevitável.

Porém, havia algo que inquietava profundamente o comandante. Aquela energia que pairava entre os dois tinha raízes antigas, tão profundas que ele não conseguia evitar se perguntar sobre suas origens e seu propósito. Uma força misteriosa que desafiava sua compreensão, deixando-o sem respostas, mas com a sensação de que algo grandioso, e talvez perigoso, pudesse acontecer.

- Porque seria?

- Me diga você.

O lorde tinha uma série de argumentos para não se separar da rainha, entre eles o medo eminente que Aldrin voltasse a vê-la, mexesse com os sentimentos dela, a fizesse voltar a amá-lo, Agamenon não poderia aceitar algo desse tipo, ele não queria aceitar, mas engoliu suas respostas, afundou elas no peito, digeriu os sentimentos e se curvou, como um soldado que recebe ordens faz.

- Como o senhor deseja, assim o farei. - Foi sua resposta final, carregada de todos os sentimentos que tentava engolir, mas que não desciam por sua garganta.

- Agamenon... - O comandante chamou, assim que o lorde deu as costas para sair. - Aldrin parou os ataques. – Informou, deixando passar a satisfação que isso lhe causava. – Aparentemente, o baile o distraiu, não se trata mais de uma guerra, agora ele está jogando conosco.

Agamenon não respondeu com palavras, sua resposta veio com o punho fechado e os olhos vermelhos e continuou andando. Conforme saia dali sua mente continuava processando os acontecimentos, não estava satisfeito em ter que abandonar a rainha, mas dizer isso em voz alta seria o mesmo que admitir que a queria por perto.

Não deveria ser assim.

Pensou em alguma forma de se esquivar dessa tarefa, sem que parecesse ser por ela, sentia dentro de si que precisava ficar, que se fosse embora, Kira ficaria indefesa e seria muito fácil para Aldrin roubá-la.

Roubá-la... Imaginar isso era o mesmo que admitir que ela pertencia a ele de alguma forma, mas não pertencia, então seria o mesmo que admitir que queria que pertencesse. Sua mente divagava em um pensamento e outro, ele não conseguia entender aonde deveria ir e o que deveria fazer.

Então parou, respirou fundo e aceitou, como deveria fazer, como teria feito se ela não estivesse ali. Iria atrás do oráculo e o traria de volta, deixaria Kira nas mãos de Ayla e pediria as forças que protegem aquelas terras para manter a menina a salvo enquanto estivesse fora, para que quando retornasse, ainda existisse a mesma menina que tentou tirar seus olhos no fundo daquele buraco.

A rainha se levantou e ficou ao lado do lorde esperando que ele saísse de sua bolha de pensamentos, ela olhava para as nuvens que vinha chegando no céu, algumas gotas pareciam começar a cair, estava escuro demais para ter certeza, era apenas possível sentir a pressão dos céus, prontos para desabar sobre a terra.

- Eu a trouxe para dizer uma coisa. – Sussurrou, sentindo que era difícil demais falar. – Vou ir embora amanhã, cumprir uma missão para o comandante. – Kira o olhava agora, atenta naquelas palavras sem ter uma resposta. – Você vai ficar.

- Não posso ir?

- Não.

Silêncio.

As gotas começaram a despencar, primeiro de forma suave, como quem se prepara para fazer uma caminhada.

- Vai voltar?

- Claro que sim. – Ele se virou para ela, os olhos azuis cintilando com uma promessa silenciosa, como se quisesse transmitir algo profundo sem palavras. – E, sinceramente, acho que nem vai dar tempo de sentir saudades. – A tentativa de brincar estava lá, mas sua voz carregava uma leve melancolia, como se ele soubesse que a despedida era mais do que um simples afastamento.

- A visita de Aldrin e agora essa conversa me fizeram pensar em algumas coisas. - Sua voz hesitou, como se as palavras fossem difíceis de dizer. - Eu não sei o que é real e o que é magia no que estamos sentindo... Mas antes, eu tinha certeza de que iria embora assim que tudo estivesse resolvido. E agora... não sei mais se posso continuar fingindo o que sinto, quando sei que a possibilidade da minha permanência aqui é real.

Ela respirou fundo, reunindo coragem antes de continuar:

- Antes que você parta, preciso que saiba... eu estou apaixonada por você. E mesmo que não seja real, mesmo que seja um sentimento influenciado, a presença do Aldrin não mudou nada em mim. O que me levou a acreditar que talvez... talvez eu deva me permitir sentir isso. Por você... e por ele.

O lorde engoliu em seco, a surpresa atravessando sua expressão. As palavras de Kira o atingiram de forma tão direta que ele mal conseguia processá-las. Piscou algumas vezes, o pensamento correndo apressado. Nunca imaginara que ela se expusesse com tanta clareza, sem hesitar, sem medo das consequências. Kira era a personificação da sinceridade, tão imperturbável que não parecia se importar com o que ele ou qualquer outro pensasse. Suas ações, suas escolhas, cada movimento, refletiam sem disfarces quem ela realmente era, o que almejava e, mais importante, como iria conquistar seus objetivos, não importa o que isso custasse.

À medida que a observava, algo dentro dele se apertou. A rainha de Kvinner, de fato, não era uma lenda distante. Ela estava bem ali, diante dele, em carne e osso. As histórias que ouvira na infância sobre realeza, coragem e poder pareciam se fundir no olhar penetrante de Kira, no modo como ela se mantinha firme, como se o mundo ao redor não fosse capaz de abalá-la. Ele viu, naquele instante, não só a mulher à sua frente, mas a força de uma líder que nascia ali, moldada pelas tempestades que tinha enfrentado e pelas que ainda viriam.

Balançou a cabeça em afirmativa, encostando a testa dele na dela, olhando tão profundamente nos olhos da rainha quanto fosse possível. Ele não a beijou, por mais que quisesse, inspirou o perfume que exalava do corpo dela que começou a se fundir com o cheiro da chuva, caindo tão lentamente quanto fosse possível.

- Não deveria ser eu, não deveria ser real, mas enquanto sentimos é como se fosse, quero me perder nesse sentimento, se tento fugir me sufoco e se permaneço me perco.– Sussurrou com o peito ardendo. – Meu coração pertence a outra pessoa Kira, mesmo que agora ele bata por você, quando toda a magia acabar, o que vai acontecer conosco?

- Eu não sei o que vai acontecer Agamenon, só sei o que está acontecendo, e no momento é só o que importa para mim. – Ela sussurrou de volta, se aproximando mais dele, colocando as mãos em seus ombros e se inclinando para cima, para sua boca. – É a primeira vez que não mente pra mim. – Ela sorriu, riscando os lábios nos dele. – Respire, talvez não esteja perdido, talvez esteja se encontrando de novo. - A sensação da proximidade dela o fazia tremer. – Não precisa me dar seu coração, não desejo assumir um lugar que não me pertence, mas se bate por mim, por favor, aceite que o meu bata por você.

- Kira... - O nome dela soou como um suspiro profundo, carregando tanto sentimento do fundo de seu peito, que o fez perder a fala em seguida.

- Tudo que ouvi até agora, é que eu amo o Aldrin... - Ela sussurrou de volta, entorpecida pela presença dele. - Mas é por você que meu coração está batendo agora e... e mesmo que no futuro as coisas mudem, quero olhar para trás e ter a certeza de que tentei mudar meu destino.

As palavras dela se enraizaram no coração de Agamenon como uma chama lenta, mas implacável. Ele a ergueu no colo e com ternura a beijou, a única resposta que poderia dar, era a própria entrega de seus sentimentos naquele toque de seus lábios.

 Era como se ela o estivesse convidando a se abrir para algo mais profundo, mais vulnerável, algo que ele não sabia que ainda podia sentir. Quando ela falou sobre seu coração, sobre não tomar o lugar de ninguém, uma onda de aceitação o envolveu. Ela não queria a posse, não buscava domínio – queria apenas que ele aceitasse o que havia entre eles, sem promessas, sem expectativas, mas com uma verdade pura e crua. 

A sensação de suas mãos em seus ombros, a suavidade de seus lábios, tudo o convidava a se render ao momento, a deixar de lado os medos que o haviam moldado e simplesmente... ser. Ele fechou os olhos, sentindo sua respiração se alinhar à dela, como se o momento estivesse prestes a romper a própria realidade. Com um gesto quase desesperado, abriu um portal para o seu quarto no palácio e atravessou-o com ela nos braços, enquanto a chuva, contida por um instante, aguardava para desabar com toda sua força, como se o céu compartilhasse a intensidade de seus sentimentos.

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