Capítulo 1
Pegue Trian. . . veja como ela é linda. . . essa rosa se chama Rosa de Sangue, meu príncipe, ele é o símbolo de toda a nossa família. . . um dia você terá uma casa cheia delas e você se lembrará de mim e do seu pai. . .
A moça loira a minha frente é a mesma que eu via nos meus sonhos desde, bem, desde sempre. Ela tinha longos cabelos loiros e incríveis olhos verdes, olhos idênticos aos meus.
Eu tinha consciência que aquilo era um sonho, porque eu sabia que ela não era real. Parecia mais uma espécie de holograma, eu não poderia toca-la, ela apenas ficava ali, de joelhos, segurando uma rosa vermelha tão escura, que quase parecia preta. Até as palavras que ela dizia, eu já sabia de cor.
Um dia, meu amor, você vai encontrar com sua alma gêmea. . .ela veio ao mundo para ser sua companheira e você o dela. . .tenho certeza que vocês serão muito felizes.
Então a moça se inclina e beija minha testa, mas eu não sinto o beijo, porque ela não é real.
Nada será fácil, muito pelo contrário, você precisará lutar muito. . .Então lute, meu príncipe, lute! Lute com todas as suas forças, lute com todo o seu coração. . . Não deixem que digam que você não é digno, você é o mais digno de todos, você é o verdadeiro rei. . . meu querido príncipe. . .
Eu estava sentado naquela imensa escuridão, olhando para seus olhos, estávamos tão perto que eu via as lágrimas se acumulando em seus olhos, uma delas sempre rola e caia sobre mim, mas eu não posso sentir, porque nada disso é de verdade.
Ela limpa o rastro das lágrimas e dá o mesmo sorriso triste de sempre e eu sei que aquele sonho está acabando, mas isso não impede de ser a parte que eu mais odeio, porque eu sinto a sua dor por aquele ser o fim.
Meu querido, me perdoe por ter que partir, eu juro com todo o fervor do meu coração que eu nunca quis que fosse assim, mas eu não pude modificar nosso destino. Nós lutamos muito, seu pai e eu, espero que que você tenha orgulho de nós, porque temo muito de você, meu doce príncipe. Nunca se esqueça do nosso amor e que tudo que fizemos foi para que o amor vencesse, porque no final, isso é tudo que realmente importa. . . não importa o que aconteça, eu sempre te amarei, sempre estaremos olhando por você. Nunca se esqueça disso e nunca deixe de lutar, meu grande amor. . .meu príncipe mestiço. . .nosso verdadeiro rei. . .meu querido filho. . .
E, como sempre, eu acordei.
Tateei no meu criado em busca dos meus óculos, eu sou quase cego sem. Me espreguicei e sai da cama. Como rotina fui tomar banho primeiro, passei pela cama do meu irmão e ele parecia desmaiado. Na noite anterior eu não tinha saído com ele e com os outros, fiquei estudando para a minha prova de hoje.
— Como você consegue acordar antes do despertador — Matheus, meu irmão, me perguntou quando eu saí do banho. Ele parecia estar com uma ressaca brava.
— É um dom — eu dei de ombros e fui para o banho.
Eu moro em uma república em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, boa parte da cidade é de estudantes universitários, por isso aqui tem muitas repúblicas e muitas festas acontecendo, eu quase nunca vou em nenhuma delas. Não é que não goste de agitação, eu gosto de curtir a vida com meus amigos e, principalmente agora que estou solteiro de novo, não vou mentir dizendo que sou santo, mas prefiro deixar essa agitação para os finais de semana e me concentrar nos meus estudos enquanto posso. Estudo Engenharia Química, já tenho dor de cabeça o bastante para ficar de ressaca por aí.
Voltei para o meu quarto, me vesti, peguei meu material e, do meio dos meus cadernos, caiu o meu caderno de desenho. Desenhar sempre foi o meu hobby, eu gostava de desenhar coisas aleatórias, mas tinha um desenho que sempre se repetia: A garota de olhos azuis!
Para você entender, existem duas garotas loiras que povoam meus sonhos, a de olhos azuis e a de olhos verdes.
A de olhos verdes é aquela do mesmo sonho toda vez, nunca muda nada, tudo segue a mesma sequência de falas e ações, como se eu assistisse um filme de novo e de novo, todas as vezes.
A de olhos azuis era diferente, completamente o contrário. Eu sonhava com ela desde que eu me lembre, praticamente crescemos juntos e quando digo "crescemos", estou falando no sentido literal. Quando eu era criança, ela também era, em cada nova fase da minha vida ela me acompanhava. Era uma regra, quase uma tradição, sonhar com essa garota no meu aniversário, porque também era o dela. Mas enquanto eu tinha festa de família, bolo e presentes, ela sempre estava só.
Por mais estranho que seja, já que claramente ela era um fruto da minha imaginação, eu sentia muito carinho por ela. Não, não era carinho, basicamente eu estava apaixonado por ela desde que me entendo por gente e é por isso que meu único relacionamento normal e duradouro foi com a Julia, uma garota que mora na cidade de praia onde meu pais tem uma casa, então eu passava cada férias e feriados prolongado lá. Começamos a ficar juntos quando eu tinha treze anos e "terminamos" quando tínhamos dezessete, porque acabamos nos distanciando. Não era realmente um namoro, mas era mais fácil com ela, sem cobranças, apenas nos divertíamos e éramos mais amigos do que outra coisa. Tanto que perdi minha virgindade com ela, pelo mesmo motivo que ela perdeu a dela comigo, um confiava no outro acima de tudo.
Ela não me julgava pelos meus sonhos bizarros e gostava dos meus desenhos, até falava que a garota de olhos zuis era muito bonita. Quando criança eu fui obrigado a ir em muitos terapeutas para "curar minhas neuroses", então simplesmente parei de falar sobre isso. Julia era uma das únicas que sabia, ela e meu irmão, que jurava que a garota de olhos azuis e eu tínhamos alguma "ligação de almas e que estávamos destinados a cumprir alguma jornada juntos".
Sinceramente, sempre curti mais ficção cientifica do que fantasia sobrenatural. E "Almas gemas destinados a uma jornada" soava algo muito mais como "Diários de um Vampiro" do que com um engenheiro químico extremamente míope e com pavor de sangue.
Meu irmão tem cada uma. . . falando nele, peguei uma garrafa de água, tomei o bastante e virei o resto no rosto do meu querido irmão. O pulo dele foi tão engraço, que me fez encostar na parede para não cair de tanto rir, eu nunca me canso de fazer isso!
— TATO! — Matheus reclamou se levantando — Precisava disso? De novo?
— Não reclama, só dei uma adiantada no seu banho. Corre para o banheiro, se não você vai se atrasar — Matheus saiu resmungando, mas foi tomar banho — Estou lá embaixo preparando o café da manhã, vai rápido ou eu vou sem você!
— Tá — ele gritou do banheiro e eu sei que ele estava me xingando, o que me fez rir ainda mais.
Matheus é só um ano mais novo do que eu, mas sempre agimos como se eu fosse muito mais velho do que ele. Na verdade eu sou mais velho do que ele 11 meses e duas semanas, ou seja, durante 14 dias ele e eu temos a mesma idade.
— E aí Trian? — Gustavo me cumprimentou quando entrei na cozinha, ele estava quase dormindo em cima do seu café, acho que ele não tinha dormido ainda. Como esses caras conseguem se manter na faculdade eu não entendo.
— Festa boa ontem? — perguntei jogando fora o café que estava na garrafa e fazendo outro, definitivamente, nenhum do meus colegas tinha habilidades na cozinha.
— Foi muito massa — ele bocejou — a Bruna ficou perguntando de ti, a Valéria e a Monize também, mas a Bruna é que mais ficou em cima. Por que você não volta logo com ela?
— Por motivos de: Eu não quero — respondi e ele riu, Bruna é a minha ex-namorada, nós ficamos juntos só seis meses e boa parte do tempo ela ficava fazendo drama e qualquer coisa ela ameaçava terminar, aí me irritei e terminei.
— Não roga praga para o meu irmão — Matheus chegou na cozinha, ainda terminando de se vestir — Deixa aquela praga longe dele! — outro motivo do término foi que ela e meu irmão não se davam nem um pouco bem.
— Come logo e vamos embora! — falei jogando um pão nele.
— Passa a bola, passa a bola! — Matheus gritou e eu toquei para ele, que finalizou lindamente em um belo gol — Família Alves arrasando — ele me deu um high five rindo. Meu irmão é mais chegado em esportes do que eu, nenhum de nós é muito do tipo atléticos, mas somos normais.
Matheus tem o cabelo loiro escuro e olhos castanhos, eu tenho cabelos castanho claros e olhos verdes, fisicamente não somos parecidos em nada, ele é mais alto e eu mais encorpado, mas nosso jeito de falar e agir é tão parecido, que ninguém nega que somos irmãos.
— Você está bem, tato? — ele me perguntou quando coloquei as mãos nas minhas costas.
— Sim, meu corpo tem doído um pouco desde a semana passada, acho que distendi algum músculo.
— Minhas costas também doeram com aquela mudança toda, mamãe tem muita coisa, quem diria que alguém de 1,58 de altura podia juntar tanta tralha?
— Fala isso para ela que ela te dá uma surra — eu ri. Na semana passada tínhamos ajudado nossos pais com a mudança.
Nós tínhamos crescido numa cidade do interior de São Paulo, daquelas pequenas mesmo, mas nosso pai tinha sido transferido para a capital, então moramos lá por um tempo, mas eles nunca se livraram da casa antiga, porque o sonho deles era voltar a morar lá e agora que finalmente tinham se aposentado, fizeram isso.
Estávamos caminhando pela rua, voltando para casa depois do jogo, eu estava com meu irmão e mais alguns amigos, parece que ia rolar alguma festa na nossa república no dia seguinte e eles estavam combinando isso animadamente. A luz do poste começou a piscar, ninguém ligou, mas aquilo me deu um arrepio.
Eu me sentia observado, como se alguém estivesse assistindo cada movimento meu. O suor escorria pelo meu corpo, mas agora era um suor gelado, como se um pressentimento ruim me atravessasse.
— Tato? — Matheus me chamou — Tudo bem?
— Sim . . claro, tudo bem.
Voltamos para casa e fomos recebidos com a bela cena do Jorge, um dos moradores da república, com o dedo aberto e sangrando.
Oh Merda!
O cheiro de sangue invadiu meu nariz e meu estomago embrulhou, eu queria ajudar, mas não dava. Comecei a respirar pela boca, mas só aquela cena já estava difícil se aguentar por si só. Eu sei que não expliquei, mas eu tenho pânico de sangue, eu não posso ver nenhuma gota. Quando eu era pequeno, até desmaiava.
Eu fiz o que pude, que não foi praticamente nada e depois corri para o banheiro, antes que eu vomitasse ali mesmo e seria necessário que levassem os dois para o hospital, e não só um.
Sai do banho com uma toalha enrolada no corpo e outra esfregando no meu cabelo, eu estava cantarolando alguma música quando percebi que a luz do quarto não estava normal. Eu a tinha deixado acesa, eu tinha certeza, mas agora ela estava praticamente apagada, muito fraca.
— Que porra. . .— aí eu vi que tinha alguém na minha cama e com toda a minha miopia, eu não vi quem era, mas só podia ser meu irmão — Já voltou? E aí, o que aconteceu com o. . .— quando coloquei meu óculos e olhei para minha cama, vi que não era meu irmão — Você? — perguntei chocado.
A garota de olhos azuis estava sentada na minha cama, observando tudo em volta, seus olhos rolaram por todo o cômodo até que eles pousaram em mim.
— Você está aqui — sua voz saia estranha, como se estivesse vindo da sua boca, mas ecoando na minha cabeça — mas onde é aqui?
— Aqui é o meu quarto — eu estava sem reação, eu sempre a via, mas nunca acordado. Ela era ainda mais bonita do que nos meus sonhos, vê-la na minha frente me dava a certeza e duas coisas: Eu realmente era apaixonado por ela e eu estava completamente louco porque estava delirando com ela! — Qual o seu nome?
— Aurora — ela respondeu divertida, sua voz ecoando um pouco distorcida na minha mente — meu nome é Aurora, Trian.
— Você sabe meu nome? — perguntei surpreso.
— Eu sei tudo sobre quem você realmente é — ela sorriu.
O sorriso dela era lindo, mas um pouco assustador, já que duas pequenas presas afiadas se destacavam.
— Seus dentes. . . — eu murmurei.
— Eu estava me alimentando quando você apareceu — ela explicou. Aurora chegou mais perto de mim, ficando bem na minha frente. Ela era um pouco mais baixa do que eu, seus cabelos eram loiros compridos, ela usava roupas pretas, como se estivesse pronta para uma batalha. Seus olhos azuis eram brilhantes e transmitiam muitos sentimentos, mais do que eu conseguia interpretar — Eu queria poder estar aqui com você, estar de verdade, poder te tocar — ela estendeu a mão até o meu rosto, mas não encostou em mim, nós sabíamos que ela não conseguiria — eu preciso de você.
— Eu também queria que você estivesse aqui — eu sussurrei de volta — eu também preciso de você.
Aurora sorria de um modo triste, parecia que ela carregava um fardo gigante em suas costas e um enorme dentro da sua alma, eu queria poder pega-la em meus braços e protege-la do mundo.
— Estou perto de te encontrar, então eu vou te explicar tudo e você entenderá seu destino — ela me falou e aquilo parece que foi um soco no meu estomago.
Eu juro com todo o fervor do meu coração que eu nunca quis que fosse assim, mas eu não pude modificar nosso destino.
A garota de olhos verdes também tinha me avisado sobre o meu destino, mas do que elas estavam falando? O que tinha no meu destino que era tão assustador?
— Alguém está vindo — ela se alarmou olhando para a porta do meu quarto, que estava fechada — Eu sempre estou com você, mas logo estarei do seu lado.
— O que você quer dizer?
— Em breve, meu príncipe, em breve — ela disse e se inclinou encostando seus lábios nos meus. Não foi realmente um beijo, até porque ela não estava lá de fato, mas meus lábios esquentaram e eu conseguia sentir o perfume de rosas dela.
— Tato? — Matheus perguntou quando entrou no quarto, a luz piscou e voltou ao normal — O que foi isso?
— Mano — me virei para o meu irmão, eu ainda estava ali, parado no meio do quarto, sem entender nada do que realmente tinha acontecido — acho que enlouqueci de vez.
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