Capítulo 14 | Noitada
[...]
A lua de mel parecia um sonho.
Foram dias em que o contrato entre eles se tornara apenas uma linha tênue, uma formalidade esquecida no fundo da mente. Não havia obrigações, apenas a companhia um do outro, os sorrisos sinceros, as mãos dadas enquanto exploravam as praias paradisíacas, os beijos roubados entre goles de vinho em jantares românticos.
As fotos que Louis tirava ficavam guardadas em seu celular, algumas sendo postadas como prova de um casamento perfeito aos olhos do público, outras mantidas apenas para eles—imagens de olhares trocados, de corpos entrelaçados na areia ao pôr do sol, de Harry rindo enquanto Louis tentava desesperadamente equilibrar-se em um jet ski e falhava miseravelmente.
Era fácil esquecer do que os aguardava fora daquela bolha perfeita.
À noite, após longos passeios e banhos de mar, deitavam-se juntos, assistindo episódios intermináveis de Grey's Anatomy.
Um detalhe curioso que descobriram um sobre o outro, Louis falava sozinho durante a série, reclamando dos erros médicos, xingando personagens, enquanto Harry apenas se encolhia ao seu lado, absorvido na trama e ocasionalmente murmurando "Meu Deus, isso é muito triste" antes de enterrar o rosto no pescoço dele.
E depois da série, havia o sexo.
Sempre havia o sexo.
A viagem foi um deslize da realidade, uma ilusão reconfortante. Mas o avião de volta para Los Angeles os puxou para longe da fantasia e os trouxe de volta ao que realmente eram.
Harry estava de fones de ouvido, distraído olhando pela janela do jato particular, quando Louis, do seu lado, murmurou quase como quem não queria nada.
— O seu quarto está do jeito que você deixou.
Foi um simples comentário. Uma frase solta no meio de tantas outras. Mas o efeito foi imediato.
O coração de Harry deu um salto desconfortável dentro do peito. Seu quarto.
Ele havia se esquecido que tinha um. Que sua realidade não era essa, dividindo lençóis com Louis todas as noites. Que, apesar de tudo, eles ainda eram dois estranhos ligados por um acordo.
Seu olhar permaneceu fixo na janela, vendo as nuvens passarem como borrões no céu, mas sua mente estava a quilômetros dali.
A bolha havia estourado.
Louis percebeu na hora que algo mudou em Harry. Era sutil, mas estava ali. O brilho nos olhos, que havia sido tão evidente durante a viagem, diminuiu um pouco. O sorriso que ele deu foi educado, mas forçado. Ele sabia que não era a resposta que Harry queria ouvir.
Ainda assim, não recuou. Era importante que Harry tivesse seu espaço. Que entendesse que, apesar do casamento, sua independência não estava comprometida.
— Você pode dormir comigo quando quiser, está bem?– repetiu, tentando suavizar a situação.— Mas eu e sua mãe conversamos...
O nome de Anne sempre fazia Harry baixar um pouco a guarda.
— Ela quer que você tenha seu próprio quarto e eu também quero que tenha sua privacidade. Não quero que sinta que estou mandando em você ou nada do tipo. Você também pode ir pra casa da sua mãe sempre que quiser... Vai ter um motorista disponível pra você e tudo mais que precisar.
Harry assentiu devagar, como se processasse cada palavra. Mas algo nele parecia um pouco... diferente.
Como se uma realidade inconveniente tivesse acabado de se instalar em sua mente. Por um segundo, depois de tudo o que viveram, ele esperava outra coisa.
Talvez um convite direto para continuar dormindo no mesmo quarto. Talvez uma desculpa qualquer para que as noites que compartilharam não acabassem ali.
Mas Louis foi prático.
E Harry, por orgulho ou talvez apenas por instinto de autopreservação, decidiu que não deixaria isso transparecer.
— Tudo bem, claro.
O sorriso forçado foi discreto, mas Louis percebeu.
Sem dizer mais nada, Harry puxou o celular do bolso e digitou rápido para Liam.
Mensagens
(Liam e Harry)
Cheguei, gay! Vamos sair?
A resposta de Liam veio segundos depois.
Chegou? Estou morrendo de saudades!
Claro que vamos sair, quero saber todos
os detalhes da sua lua de mel 🤩🍆💦🫃
Harry riu fraco quando leu, balançando a cabeça. Seu melhor amigo nunca decepcionava.
[...]
Assim que chegaram à casa de Louis— que agora, oficialmente, também seria sua, o motorista ajudou com as bagagens. O celular de Louis tocou e ele se afastou para atender, enquanto Harry pegou sua mala e foi direto para o quarto que já sabia ser seu.
A empolgação da viagem havia se dissipado no momento em que pisaram ali. Não era como se ele esperasse que as coisas fossem diferentes. Ele sabia onde estava se metendo desde o começo.
Mas uma parte dele, uma parte estúpida e emocionalmente vulnerável queria mais.
No banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água quente escorrer por seu corpo. Pegou o celular e chamou Liam por ligação de voz.
— Sem emojis de gravidez, Liam.– murmurou, rindo.
— Ah, qual é, Styles. É praticamente um milagre você não ter voltado barrigudo!
Harry revirou os olhos, mas o sorriso permaneceu.
— Bem, podemos ir naquela balada que você me levou uma vez. Quero beber um pouco.
Liam fez um barulho pensativo do outro lado da linha.
— Claro que podemos ir... Mas pensei que você fosse querer algo mais caseiro pra descansar depois dessa viagem agitada. Me surpreende que você não tenha voltado de cadeira de rodas!
Harry soltou uma risada, mas Liam continuou sem deixar de lado um se quer segundo seu tom provocativo.
— Eu sei que você estava comendo pau no café da manhã, no almoço, no café da tarde, no jantar e na madrugada. Como aguentou? Céus... Deve ter sido o paraíso.
O sorriso de Harry vacilou por um segundo.
A água continuava caindo sobre seu corpo, mas de repente não parecia mais tão relaxante.
— É.– murmurou simplesmente, sem humor na voz.
Houve um breve silêncio, mas Liam percebeu o tom diferente e não insistiu.
— Vou me arrumar rápido, tá? Te encontro lá e a gente conversa...
— Fechado.
Harry desligou, encostando a testa na parede fria do box. Ele queria esquecer aquele desconforto no peito.
Talvez algumas doses de tequila ajudassem.
Quando enfim saiu do banho, a noite em Los Angeles estava quente, e a cidade parecia vibrar com a energia das luzes e da música.
O mais novo escolheu a dedo sua roupa para a noite, optando por algo provocante que destacava suas melhores características. Queria se sentir desejado, poderoso. Ao se olhar no espelho, sorriu satisfeito—estava bonito, sexy e pronto para se divertir.
A ideia de beber todas e esquecer um pouco sua situação atual parecia cada vez mais tentadora. Precisava de uma noite leve, sem preocupações, sem lembrar das incertezas que rondavam sua mente. Com um último retoque no cabelo, pegou o celular e mandou uma mensagem para Liam, já sentindo a adrenalina do que viria pela frente.
Quando Louis cruzou o corredor da casa, deu de cara com Harry já arrumado para sair. O perfume dele foi a primeira coisa que chamou sua atenção, logo seguido pelo sorriso travesso nos lábios rosados.
— Você vai sair?– perguntou, cruzando os braços enquanto o analisava dos pés à cabeça.
Harry ajeitou o moletom com as mãos e sorriu de canto.
— Vou sim, com o Liam. Vamos a uma balada gay.
Louis arqueou a sobrancelha, dando um passo à frente.
— Balada gay?– repetiu, rindo de leve. O interesse era genuíno, mas também havia um toque de provocação.
Harry confirmou com um aceno e estava prestes a dizer algo quando sentiu os braços firmes de Louis envolverem sua cintura.
— Vai curtir a noitada?– perguntou, a voz carregada de um tom sugestivo enquanto descia as mãos para a bunda do mais novo.
Harry prendeu a respiração por um segundo, mas logo se recuperou.
— Vou dançar e beber um pouco...– disse, sentindo um arrepio percorrer sua espinha com o toque.
Os dedos de Louis apertaram a carne sobre o tecido da calça.
— E por que não me chamou?
Harry revirou os olhos, fingindo impaciência.
— Você quer ir?
— Se estiver tudo bem pra você.
Antes que Harry pudesse responder, Louis o ergueu do chão em um movimento rápido e firme, fazendo-o soltar um pequeno grito surpreso. Ele se segurou nos ombros do marido, rindo pelo susto, enquanto sentia as pernas sendo envolvidas ao redor de sua cintura.
— Louis!– reclamou, mas a risada entregava que ele não estava realmente incomodado.
Louis apenas sorriu, caminhando em direção ao quarto com ele nos braços.
— Mas antes... Você sabe. Não resisto a esse perfume.
Harry suspirou, já sabendo onde aquilo ia dar.
[...]
A boate estava completamente lotada, com o som pulsando tão alto que parecia reverberar nas paredes e no corpo de quem estava ali. A pista de dança estava fervendo, pessoas se movendo ao ritmo da música, e Harry, ao lado de Louis procurava Liam.
Louis, ao perceber o quanto a noite estava tomando um rumo animado, decidiu se afastar um pouco, com o pretexto de buscar algumas bebidas.
— Payne!– exclamou ao vê-lo, correndo e pulando em seu colo sem qualquer cerimônia.
Liam riu alto, girando com ele no ar antes de colocá-lo no chão novamente.
— Cara, eu senti tanto a sua falta!– Harry disse, batendo de leve no ombro do amigo.
— Eu também, Harry!– Liam respondeu, ajeitando a camisa.— Finalmente voltou desse sequestro romântico.
Harry sorriu, mas logo sua expressão mudou ao lembrar-se de um detalhe.
— Oi... Espero que não se importe, Louis acabou vindo também. Ele foi pegar umas bebidas e...– hesitou por um instante.— Fiquei sem jeito de não convidar.
Liam revirou os olhos, mas seu tom ainda era bem-humorado.
— Não tem problema, mas você deveria ter trazido o amigo gostoso dele pra me fazer companhia...
Harry riu, balançando a cabeça.
— Queria conversar a sós com você. Amanhã vou pra sua casa, tá?
Liam apenas assentiu antes que Louis surgisse do nada, passando o braço ao redor da cintura de Harry de forma possessiva.
— Você é meu marido e eu gosto de deixar isso claro.– murmurou próximo ao ouvido dele, arrancando um arrepio involuntário do mais novo.
Harry apenas riu e, com um último olhar para Liam, foi puxado para a pista de dança.
A música, as luzes e o álcool já haviam feito efeito. Depois de cerca de 1 dúzia de drinks e dias horas e meia de música.
Harry dançava despreocupado, rindo alto, enquanto Liam gritava ao seu lado incentivando a festa.
Foi então que, em meio à empolgação, Liam apontou para ele e berrou.
— TIRA A CAMISETA!
A ideia pareceu excelente na hora. Harry começou a puxar a barra da camisa para cima, sentindo o calor do ambiente e o efeito das bebidas tornando tudo mais divertido.
Mas antes que pudesse removê-la completamente, mãos firmes seguraram seus braços.
— Você está bêbado.– Louis constatou, segurando o rosto de Harry entre as mãos.
Os olhos esverdeados piscaram algumas vezes, a confusão evidente na expressão.
— Estou alegre.– corrigiu, apontando um dedo para ele.
Louis riu baixo.
— Você está quase pelado.
— Detalhes.
Louis balançou a cabeça, suspirando antes de deslizar uma mão para a nuca do mais novo e encostar suas testas.
— Vamos pra casa, bebê.
Harry suspirou contra a pele do marido, se deixando ser guiado para fora do clube sem protestar.
[...]
A cidade passava como borrões de luz do lado de fora do carro. Harry estava jogado no banco do carona, os olhos pesados, a cabeça encostada na janela.
Louis dirigia em silêncio, um sorrisinho discreto no canto dos lábios ao ver o estado do esposo.
— Chegamos.– murmurou ao estacionar em frente à casa.
Harry resmungou algo ininteligível, sem abrir os olhos.
Louis apenas revirou os olhos com diversão antes de sair do carro e contornar o veículo.
Sem hesitar, abriu a porta e inclinou-se para erguer Harry nos braços.
— Eu consigo andar...– veio a reclamação sonolenta.
— Você disse isso da última vez e caiu sentado no carpete. Louis lembrou, rindo baixo.
Harry apenas soltou um resmungo antes de aninhar o rosto contra o pescoço do marido.
Louis suspirou, fechando os olhos por um segundo antes de seguir para dentro da casa.
Aquele garoto ainda ia ser sua ruína.
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