Capítulo 2- Grier's
- MAREN -
Quando o garoto finalmente sai do quarto, corro até a porta e a tranco rapidamente, deixando a toalha cair no chão.
O ar começa a ficar rarefeito nos meus pulmões e eu estou sendo puxada para o chão, como um maldito ímã.
- Deus... Eu preciso de ar- coloco as mãos na cabeça e tento assimilar os acontecimentos de apenas um dia.
Cameron é completamente diferente da mãe e da irmã.
Marrento, convencido, presunçoso.
Chacoalho a cabeça cinco vezes no mínimo para tirar os pensamentos turbulentos da minha cabeça.
Devo me arrumar para o jantar e com tantas roupas, não faço ideia do que vestir.
Abro a porta espelhada do guarda-roupa e vejo vestidos caros e cheios de renda ou detalhes totalmente desnecessários para mim.
Não gosto de vestidos e saias.
Porém pego um cor salmão curto o bastante para que eu me sinta envergonhada, ele é rodado e meio cheio na saia feita de tule.
Ele tem alças finas e rendadas, um decote que deixa meus seios valorizados.
Decido vesti-lo, pois não sei quem virá para o jantar, já que estão fazendo um escândalo com a minha chegada, então tenho de me arrumar decentemente e ficar formal.
Faço uma escova rápida no cabelo com um secador giratório rosa que achei em uma gaveta qualquer do banheiro, marco meus cílios com rímel e não passo nenhum batom.
Não acho nenhum sapato.
Talvez Sierra tenha se esquecido deles, então pego meu All Star preto e visto com meias curtas.
Me olho no espelho e dou de ombros, me contentando com as minhas vestimentas.
E pensando bem, o tênis não ficou tão ruim assim com o vestido.
Bem, eu não posso mudar quem eu realmente sou. Eu sou moleca, desajeitada e "ligo" o foda-se para metade das coisas que a sociedade acha necessária.
Finalmente passo um perfume e saio do quarto em direção à sala de jantar.
Desço as escadas devagar e escuto vozes masculinas não reconhecidas.
Encontro visitas sentadas à enorme mesa de mogno de jantar, com uma vela em um castiçal de prata para cada prato.
- Querida...- Gina se levanta da mesa sorridente e deposita a mão na minha cintura, me dá um empurrãozinho em direção à ponta da mesa, onde dois garotos, acredito que sejam irmãos estão sentados, ao lado de Cameron que me encara descaradamente.
O garoto dos cabelos mais compridos, talvez do tamanho dos meus, afasta a cadeira pesada e estende a mão para mim.
No primeiro momento espero que ele me cumprimente, mas ele leva a minha mão até os lábios e beija o nó dos meus dedos.
Instantaneamente eu coro.
Devo estar quase roxa, o lugar onde sua boca estava há minutos atrás formiga na minha pele e os lábios vermelhos dele, agora sorriem e ele olha para mim.
Esses olhos azuis.
Azuis.
Tão intensamente azuis.
Seus dentes são tão brancos que ele poderia até mesmo fazer alguma propaganda de creme dental, não duvido muito que ele já tenha feito.
- Sou Nash- a voz grossa e firme, um pouco rouca, faz com que minhas pernas bambeiem de leve e eu agradeço a Deus por não ter colocado um salto- Nash Grier.
Olho de relance para Cameron e sua cara divertida sumiu, substituída por uma de tédio e talvez, leve irritação.
- Maren- abaixo a cabeça em um aceno e ele finalmente solta minha mão, sorrindo sem mostrar os dentes.
O outro garoto se levanta e estende a mão para mim, mas apenas me cumprimenta; é um pouco parecido com o irmão na cor de pele, cabelos e olhos, mas suas feições são diferentes.
- Hayes Grier- percebo que seu sorriso é bonito, mas não tanto quanto do irmão.
Eles são os Grier.
Provavelmente são grandes amigos da família Dallas.
- Os pais deles estão viajando à negócio- Sierra diz- mas logo você vai conhecê-los.
- HÁ- um grito fino atrás de mim, me faz pular de susto- consegui assustar ela, Nash, eu disse que ia conseguir.
Uma figurinha loira surge do além, baixinha e com uma voz fina e fofa, dá até vontade de colocar no colo.
Ela estende a mão no alto para Nash e eles fazem um toque rápido.
- Olá- ela chega até mim e sorri, olho para baixo para enxergá-la melhor- sou Sky.
Agacho-me e fico de joelhos no chão, por causa do vestido.
- Oi- passo a mão por seus cabelos loiros lisos e sedosos- você é uma gracinha Sky...
- Eu sei!- ela ri e se vira, sentando na cadeira ao lado do irmão e me levanto sentando entre Cameron e Sierra.
Tento me concentrar no prato comum e nos talheres que já usei antes.
Me surpreendo por não ter pratos diferentes e copos esquisitos.
Sierra se levanta e pega caixas de pizza.
Pizza?
- Maren...- ela diz- não se acostuma... É só boas-vindas, porque aqui tudo se comemora com pizza.
Sorrio animada e concordo timidamente.
Sirvo-me de pizza e agradeço os elogios de Gina pela escolha do meu vestido.
Sierra e Nash conversam animadamente sobre alguma futura viagem que farão.
Pelo que entendi só irão os meninos, Sierra e se eu quiser posso ir também.
Cameron e Nash conversam e riem animadamente, parecem grandes amigos.
Cam parece até um garoto diferente perto dele.
(...)
Eu tento inutilmente prestar atenção no jogo de perguntas e respostas que Sierra está fazendo comigo e com os garotos.
Gina já dormiu há algumas horas e estamos sentados em uma roda, no chão, no tapete da sala.
Nash está sentado ao meu lado e Cameron na minha frente.
Sierra do meu lado esquerdo sussurra para que só eu possa ouvir:
- Gostou do Nash? Ele é um partidão.
Partidão?
Já estão me arrumando pretendentes?
Isso é o cúmulo do ridículo.
- Não... Nada a ver- digo alto demais.
- Então essa é a resposta?- Cameron pergunta- Não. Tudo bem, então a Ásia não é o continente mais populoso?
- O que?- pergunto perdida- claro que é! Eu não respondi isso...
- Acabou de responder- me olha com desdém- perdeu a chance, princesa.
- Argh!- murmuro derrotada.
- Joguinho chato- Skylynn se manifesta pulando nas costas de Nash.
- Então... Conte-nos sobre você Maren- Sierra diz.
- Eu? Não...
- Ah qual é? Fala aí Mary- Nash diz e eu sorrio com o novo apelido.
- É fala. Mary- Cameron pronuncia as palavras amargamente e abraça os joelhos.
- Tá tá... Eu nasci em um circo.
Eles começam a rir como se fosse uma piada, mas eu chacoalho a cabeça confirmando.
- É sério! Minha mãe era equilibrista- digo sorrindo e me lembrando de uma época maravilhosa da minha vida- engravidou do dono do circo. Aí eu nasci. Também trabalhei no circo até os 10 anos... Quando minha mãe morreu em um show. Não tinham lugar e nem dinheiro para mim, então eu fui pro orfanato.
Silêncio. As pessoas têm dó da minha história, mas ela é incrível.
Eu lembro as inúmeras vezes que roubei carteiras e que me pendurei na corda.
Minha elasticidade enorme, existe graças ao circo em que nasci e fui criada.
Eu amava aquilo.
Amava aquela magia toda que era trabalhar em um circo, viver em um.
- Uau! Que foda cara- Nash diz e eu sorrio para ele, por ter me entendido.
- Esquisitinha desde pequena- Cam comenta e Sierra dá um rosnado nervoso para ele.
Nossas conversas continuam sem interrupções e descubro que vou estudar na mesma escola de Nash, que por sinal é a de Cam também.
Talvez eu fique em algumas aulas com Nash.
Cameron é um ano mais velho que eu, então está no último ano do ensino médio e eu no penúltimo.
Não ficaremos juntos em nenhuma aula e eu agradeço os céus por isso.
- Enfim...- Hayes se manifesta- acho melhor irmos embora, não?
- É eu tô com sono!- Sky exclama emburrada.
Levantamos e vamos até a porta com eles.
Hayes e Sky vão na frente e Nash se despede de mim com um beijo na bochecha.
- Foi bom te conhecer garota elástica- ele brinca e eu tenho que rir da piada ruim.
- Igualmente.
Eles saem finalmente, viro-me e Sierra me encara sorridente, enquanto Cam tem uma cara de "tanto faz".
Sierra se despede de nós dois e sobe em direção ao seu quarto.
Pego um copo de água e me apoio na pia de mármore.
- Sabe... Não vai se esfregando no Grier tão rápido, porque ele só tem cara de santo- Cam comenta naturalmente.
Rolo os olhos e franzo o cenho.
- Obrigada por avisar- sorrio cinicamente- mesmo que eu não tenha perguntado...
- Sabe princesa- ele passa a mão nos meus cabelos e eu inalo seu perfume- você devia repensar mais no jeito que fala comigo.
- Eu não vou poupar palavras com você, mulambento.
Ele ri pelo nariz e passa a mão no queixo.
- De onde você tirou essa palavra? Deve ter aprendido nesses teus circos da vida - Cameron passa a língua nos lábios.
Ele fala comigo como se me conhecesse há séculos.
- Não fale comigo assim...- coloco o copo na pia e reviro os olhos com desdém- você é só um adolescente que ficou preso na época da puberdade.
- Princesa... Você não gostaria de me deixar puto!- dá um último sorriso galanteador antes de se virar.
- Puto você já é- respondo.
- Só não espere para ver- comenta antes de subir as escadas e me deixar aqui, quase que tendo que segurar na pia com mais força para não cair.
E é aí que descubro que Cameron é totalmente bipolar e difícil de entender.
Garoto difícil.
Bota difícil nisso.
Cameron vai ser só mais uma pedra no meu sapato e eu vou simplesmente tirá-la, assim como faço com todas as outras no meu caminho.
Ele não vai me atrapalhar psicologicamente, fisicamente e muito menos emocionalmente.
Prometo à mim mesma que minhas palavras serão cumpridas por mim.
(...)
Levanto-me quase arrastando meu corpo no chão, uma lesma lutando para se manter em pé, meus olhos pinicam quando eu olho para o Sol, que vem da janela aberta.
Quando meus olhos analisam o cômodo, percebo que não estou mais no quarto mofado e cheio de meninas.
Vou para o banheiro ainda meio dormindo e faço minhas higienes pessoais.
Fuço nesse guarda-roupa enorme, alguma coisa tem que servir para usar em um dia básico.
Acho uma calça jeans clara, uma blusa regata branca e as visto.
Desço descalça mesmo e encontro Cam sentado na banqueta próxima à ilha de mármore da cozinha.
Cabelos mais bagunçados que o comum, os olhos sonolentos e usa apenas um short preto, sem camisa.
Sem camisa.
Respiro fundo e procuro uma xícara.
- Gosta de café ?- pergunta quando eu coloco a xícara embaixo da cafeteira, apertando os botões.
- Não. Vou levar para Jéssica que está lá em cima esperando acabar- digo rindo, mas ele fica sério.
- Ah qual é mal humor, estava só tentando puxar assunto- sua frase faz-me rir- de qualquer modo, minha mãe saiu e Sierra também, eu quase tive que te acordar, porque hoje tem aula.
Aí droga! Eu esqueci o mais importante.
Não consigo me imaginar no meio de um monte de adolescentes com hormônios à flor da pele, se agarrando no corredor, ou meninas preocupadas com a tintura do cabelo.
Não vou ter paciência nem para fazer amizades, porque não sou nem um pouco convidativa e amigável.
Minhas amizades são construídas por pessoas parecidas comigo, que não se importam com a verdade falada na cara ou com briguinhas idiotas.
- Eu nunca fui ao colégio- mordo um bolacha e tomo um gole de café.
- Não tem nada demais. Só não posso te dizer que não vão te comer, porque alguém provavelmente vai- faço uma cara assustada com suas palavras e ele gargalha de mim.
- Você é tarado.
- Não. Sou só uma pessoa que sabe apreciar as coisas boas da vida- ele ergue o dedo indicador enquanto fala e eu reparo a pulseira em seu braço- mas tarado serve.
Não consigo conter um riso e sou levada pela leveza de suas piadas.
- Você não presta.
- Vai lá botar uma roupa decente.
Sorrio animada e pego um tênis, pois acho que não há necessidade de colocar outra coisa para aula.
Não acho nenhuma jaqueta e chego a conclusão de que é melhor ficar sem.
- Vamos de carro?
Ele ri e nega com a cabeça.
- Estou temporariamente proibido de usar meu carro.
- Vou nem perguntar porque- digo e pego a chave de casa, esperando Cam sair para fechar a porta.
O frio está suportável e posso aguentar sem uma jaqueta facilmente.
Saímos e ele cumprimenta o porteiro e o segurança, faço o mesmo, acostumando-me com sua presença conforme continuamos a andar.
- Você tem namorada?- pergunto. Boca grande.
Boca enorme que não consegue ficar calada uma maldita vez.
- Mais ou menos- dá de ombros.
- O que seria mais ou menos?
Eu e Ryan tivemos um relacionamento escondido e eu fui apaixonada por ele, durante quase um ano, então eu não entendo dessa coisa de relacionamento e nem desses "mais ou menos" da vida.
- Ah sei lá... Não temos nada sério, eu apenas aconselho que você não esteja em casa quando ela estiver.
- Ahn?- pergunto, tentando raciocinar- Ah meu Deus... Tudo bem...
Coro e ele ri de um jeito compreensivo.
Depois de uns bons quinze minutos chegamos ao enorme colégio e dois garotos passam por nós de skate, quase me derrubando e eu, em um susto me apoio em Cam.
- Você não vai morrer Maren- ele diz e por reflexo eu agarro sua mão- relaxa....
A mão áspera, mas aconchegante dele cobre meus dedos finos e brancos, que ficam ainda mais brancos perto dele por apenas um momento.
Ele olha para a sua mão junta da minha e a solta rapidamente colocando ao lado do corpo.
- Faça amizades. Vou encontrar os garotos.
Ele sai e me deixa aqui.
Diante de todos esses adolescentes que me rondam e eu não sei o que fazer, só consigo ficar parada.
Até que um sinal soa e todos correm apressados, como se hoje fosse o último dia de todos e eles tivessem em uma super black friday.
Apenas os sigo e olho para o meu papel de horários que Gina deixou na escrivaninha de manhã cedinho.
Maren Kristen Dallas.
Física- sala 46.
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