Capítulo 44| Chefe
A chuva caía pesada naquela noite, cobrindo o asfalto com um brilho prateado. Harry dirigia em alta velocidade pelas ruas vazias, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
O som do motor ecoava como um trovão enquanto ele tentava conter a avalanche de emoções que o engolia.
Ele não sabia exatamente como descrever o que sentia.
Fúria? Sim, mas isso era superficial. O que realmente o movia era o medo corrosivo que ele raramente permitia dominar sua mente. Louis estava em perigo, e isso o aterrorizava mais do que qualquer arma apontada para sua cabeça.
Quando chegou ao ponto de encontro, o casarão estava envolto em um silêncio quase sepulcral. Harry atravessou os portões com passos firmes e um olhar assassino.
O carro parou bruscamente, e ele saiu sem esperar que alguém abrisse a porta para ele. Seus homens, já alertados pela urgência de Zayn, aguardavam em uma formação tensa no jardim.
Khalid, seu braço direito e pai de Magnólia, estava entre eles, com uma expressão rígida.
— Onde está o desgraçado?– Harry perguntou, a voz baixa, mas carregada com a fúria de um vulcão prestes a entrar em erupção.
— Ele tentou fugir. — Liam disse sem rodeios, entregando a Harry uma pequena arma que haviam tirado do traidor.— Acharam-no no externo do casarão, inventando uma desculpa de que viu algo suspeito. Mas não demorou para os homens perceberem que ele estava mentindo.
Harry respirou fundo, o maxilar apertado enquanto processava a informação.
— Ele está vivo?— perguntou, a voz baixa e cortante.
— Por enquanto. Está no interrogatório. — Khalid respondeu, e o tom em sua voz dizia que ele sabia exatamente o que Harry planejava.
Eles entraram juntos no casarão, apenas Harry e Khalid.
Harry atravessou os corredores com passos que ecoavam como marteladas, os olhos faiscando com uma intensidade que fez até mesmo os homens mais leais a ele desviarem o olhar.
Na sala de interrogatório, o traidor estava amarrado a uma cadeira, os pulsos vermelhos pela força das amarras. Seu rosto estava pálido, o medo estampado em cada traço. Ele começou a se debater ao ver Harry e Khalid entrarem.
— Por favor! Eu só fiz o que me mandaram!– ele gritou, o desespero rasgando sua voz.
Harry não disse nada no início.
Apenas pegou uma cadeira, posicionou-a de frente para o homem e sentou-se com uma calma perturbadora. Ele olhou fixamente para o espião, como se pudesse perfurar sua alma.
— Quem?– Harry perguntou, a voz tão suave que era quase um sussurro.
O homem tremeu, os olhos se movendo de Harry para Khalid, buscando qualquer vestígio de misericórdia. Mas não havia.
— Eu... Eu não posso dizer...– ele gaguejou, a voz falhando.
Harry ergueu uma sobrancelha, inclinando-se um pouco mais perto.
— Você ousou trair a minha família.– Harry sussurrou, os olhos cravados no homem como se fossem lâminas.
O espião tentou falar, mas Harry foi mais rápido e se inclinou, apenas para dar um soco violento no rosto dele. O som seco do impacto ecoou na sala.
— Eu não vou repetir de novo.– Harry disse, a voz um tom mais baixo, mais assustadora.— Quem. Te. Mandou?
O homem começou a chorar, a cabeça balançando freneticamente.
— Jason... Jason Moore!– ele gritou, as palavras saindo como um soluço. Ele olhou para Khalid, como se implorasse por ajuda, mas encontrou apenas o olhar frio e impassível do aliado de Harry.
Ao ouvir o nome, Harry ficou imóvel por um momento. Um silêncio mortal preencheu a sala antes que ele soltasse uma risada sombria.
— Jason Moore...– Harry repetiu, o nome saindo como veneno em seus lábios. Ele se virou para Khalid.
— Leve essa informação aos homens. Quero cada detalhe sobre onde ele está e quem mais está com ele.
Khalid assentiu e saiu rapidamente, deixando Harry sozinho com o traidor.
O espião começou a se debater na cadeira, sentindo o perigo iminente.
— Por favor, senhor Styles... Eu só fiz o que ele mandou... Eu não tinha escolha...– ele implorou.
Harry inclinou a cabeça, como se estivesse considerando as palavras, mas então puxou uma faca longa do bolso de sua jaqueta.
— Você sempre tem uma escolha.– disse ele, girando a faca nos dedos.— E você escolheu errado.
O homem gritou quando Harry o cortou no ombro, mas o grito foi abafado pelo pano que Harry empurrou em sua boca logo em seguida. Seu lenço favorito.
— Eu juro que não tive escolha! O senhor Jason e a senhora Styles me obrigaram!
A mandíbula de Harry se tensionou mais ainda. Senhora Styles? O que?
O maior ficou sem palavras, tentando raciocinar o que havia ouvido. Senhora Styles... Sua mãe?
Mas a senhora sua mãe?
Dona Anne... Mas será possível que a senhora não tenha vergonha na cara?
— Senhora Styles? — ele repetiu, a voz grave e carregada de descrença.
O espião, com o rosto já marcado pelos golpes anteriores, engoliu em seco e assentiu rapidamente, como se isso pudesse salvá-lo.
Harry deu um passo para trás, os dedos apertando o cabelo enquanto tentava processar o que tinha acabado de ouvir.
— Senhora Styles...
Ainda impactado com aquela revelação, Harry suspirou e voltou a encarar aquele maldito imundo. Louis ainda corria perigo, Harry não podia se distrair daquilo.
— Isso é pelo que você fez.– Harry murmurou, inclinando-se próximo ao ouvido do homem enquanto a lâmina penetrava novamente, desta vez no abdômen. — E isso é pelo que você tentou fazer.
O que se seguiu foi um silêncio preenchido apenas pelos sons abafados dos gritos e o som da lâmina rasgando a carne. Quando Harry terminou, ele estava coberto de sangue, mas sua expressão não mudou. Ele limpou as mãos com calma em um lenço que Khalid deixou na mesa ao voltar.
— Ele falou mais alguma coisa?– Khalid perguntou.
— O suficiente.– Harry respondeu, jogando o lenço em cima do corpo do traidor.— Encontre Jason Moore. Não me importa o custo.
Harry saiu da sala, deixando o corpo para trás, e voltou para o salão principal. O som de seus passos ecoando nos corredores enquanto a fúria ainda pulsava em suas veias.
Ele sabia que encontrar Louis e garantir sua segurança agora seria uma corrida contra o tempo. E ele estava disposto a fazer qualquer coisa para vencê-la.
Mas... Antes precisava ter uma conversinha nada amigável com a própria mãe.
Warwick, Inglaterra
4 horas após o sequestro
Louis acordou com um sobressalto, a respiração entrecortada enquanto seus olhos se ajustavam à escuridão forte do ambiente.
O quarto onde estava era frio e abafado, o cheiro de mofo preenchendo suas narinas. As paredes ao redor eram nuas, sem qualquer traço de cor ou conforto, e o silêncio era tão absoluto que o som de sua própria respiração parecia ensurdecedor.
Ele tentou se mover, mas seus pulsos estavam amarrados às barras da cama metálica onde havia sido colocado. O material das cordas arranhava sua pele, e a posição desconfortável apenas aumentava o desespero que crescia em seu peito.
— Finalmente a esposinha do bandidão, acordou.– uma voz feminina cortou o silêncio como uma lâmina.
Louis virou a cabeça rapidamente em direção ao som, e lá estava ela, emergindo das sombras.
Cora. A maldita Cora.
O rosto dela estava iluminado apenas por uma fraca luz de lâmpada, e o sorriso que exibia era tão frio quanto o ambiente.
— Sentiu minha falta?– a ruiva perguntou, com uma doçura venenosa na voz.
Louis congelou, o coração disparando.
Era como se todas as memórias das ameaças, das cartas, e das manipulações dela viessem à tona de uma só vez.
— Sua merdinha.– o menor conseguiu sussurrar, a voz rouca de tanto esforço.
Cora soltou uma risada breve, inclinando-se contra a parede com um ar quase casual.
— Que ótimo senso de humor, Louis.– ela respondeu. — E devo dizer, você parece muito bem para alguém que está prestes a perder tudo.
— O que você quer?– Louis perguntou, tentando manter a voz firme, mas o tremor em suas palavras o traiu.
Cora inclinou a cabeça, fingindo ponderar.
— O que eu quero? Oh, tantas coisas... Mas, acima de tudo, eu quero que Harry sinta o mesmo desespero que eu senti.– ela se aproximou, os saltos de suas botas ecoando pelo chão de concreto.— Quero que ele perca a coisa mais preciosa da vida dele.
Louis engoliu em seco, tentando não demonstrar o pânico que crescia em seu interior.
— Harry... Harry vai me encontrar.– ele disse, a convicção em sua voz falhando no final.
Cora arqueou uma sobrancelha, o sorriso alargando-se.
— Ah, Louis. Que confiança admirável você tem no seu marido. Mas me diga...– ela se inclinou mais perto, os olhos brilhando de pura malícia.— Depois de todas aquelas cartas, você ainda acredita que ele está completamente ao seu lado?
Louis desviou o olhar, mas Cora pegou o queixo dele com força, forçando-o a encará-la.
— Não desvie o olhar de mim, querida. É rude.– ela soltou o rosto dele com um empurrão, erguendo-se novamente e suspirando.— Bem, talvez isso nem importe mais. Afinal, agora você está aqui. E Harry? Bem, ele provavelmente está se perdendo no próprio caos tentando te encontrar.
Ela deu alguns passos para trás, observando-o como um predador observa sua presa.
— Agora, Louis, relaxe. Temos uma longa noite pela frente. — Cora virou-se para sair, mas parou na porta, apoiando-se no batente com um sorriso que mais parecia um aviso. — Ah, e só para deixar claro, não sou uma mulher paciente. Não me dê motivos para piorar as coisas.
Ela segurou seu olhar por mais alguns segundos antes de sair, fechando a porta com um estalo que ecoou pela sala vazia. O som da tranca girando fez Louis estremecer. Ele tentou se ajustar na cama, mas as cordas ao redor de seus pulsos e tornozelos o mantinham preso, provocando uma sensação sufocante de impotência.
Os olhos de Louis varreram o ambiente, procurando algo que pudesse ajudá-lo. O quarto era pequeno, mal iluminado, com uma lâmpada fraca pendurada no teto. As paredes cinzentas estavam descascadas, e havia apenas uma cadeira virada no canto e uma mesa com marcas de queimadura. O ar pesado e úmido fazia com que cada respiração fosse um esforço.
Por um momento, ele fechou os olhos e tentou respirar fundo, lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. Ele não podia ceder. Não agora.
Mas as palavras de Cora ecoavam em sua mente, como farpas cravadas em sua consciência. "E se Harry realmente não for capaz de salvá-lo?"
O pensamento o perfurou como uma faca.
Louis sabia que Harry o amava, sabia que ele faria qualquer coisa para protegê-lo. Mas... E se ela estivesse certa? E se Cora tivesse razão ao insinuar que Harry estava distraído, vulnerável, talvez até enganado?
Ele mordeu o lábio com força, tentando afastar aquelas dúvidas. Não era hora para isso. Harry sempre tinha sido forte, determinado. Ele nunca falhara antes.
Ela não estava apenas brincando. Ela era metódica, planejada, como uma predadora que sabia exatamente como atacar.
Louis abriu os olhos, sentindo o calor das lágrimas queimando suas bochechas. Ele as limpou rapidamente com o ombro, recusando-se a permitir que ela vencesse.
Mas o peso de tudo era esmagador.
Ele pensou em Harry, imaginando onde ele estava naquele momento. Será que ele sabia o que havia acontecido? Será que ele já estava a caminho?
Ou será que, como Cora dissera, ele estava sendo manipulado de alguma forma, distraído de seu objetivo?
A dúvida corroía Louis por dentro, um veneno lento que fazia seu coração martelar ainda mais forte. Ele tentou se concentrar em respirar, em manter a mente clara, mas era impossível. A solidão, o medo, e aquela maldita dúvida o cercavam como paredes invisíveis.
Por fim, ele deixou a cabeça cair para trás, os olhos fixos na lâmpada que oscilava levemente.
— Harry...– ele murmurou baixinho, quase inaudível, como se fosse uma prece.
Louis precisava acreditar. Precisava confiar. Mas, sozinho naquela sala sombria com seu bebê beirando quase os oito meses, ele sentiu algo que há muito tempo não sentia.
Incerteza.
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