Capítulo 6
— Estão de brincadeira com a minha cara — revirei os olhos.
— É assim que trata seu Alfa? — Wong perguntou sério, mas tinha a sombra de um sorriso.
— Me poupe — cruzei os braços.
— Só vim conversar com você — Wong falou, Theo me puxou para um abraço protetor quando o Alfa se aproximou um pouco mais.
— Já pensou em me perguntar se EU quero falar com você? — perguntei — De você invadir meus sonhos não tenho como escapar, mas a minha casa?
— Eu não invadi sua casa, mas, de acordo com as regras, sou bem recebido na casa de qualquer lobo.
— Por incrível que pareça, você é o segundo "Alfa Supremo" que me fala isso hoje e, assim como eu respondi ao primeiro, você realmente acha que me importo com essas regras?
Por um momento esqueci que tinha pessoas a nossa volta, eu não só me esqueci deles, como tinha esquecido que eles nunca tinham me visto interagir com o Alfa. E, pior, Aninha e Mony nunca nem tinham o visto.
— Falou com Tepes hoje? — Wong pareceu intrigado — Sobre o que conversaram?
— Se quiser saber, pergunte a ele, não vou ficar de leve-e-traz de vocês.
— Evelyn! — ele rosnou em aviso, os lobos a nossa volta entraram em pose de defesa. Aninha e Mony se assustaram, se escondendo atrás de seus lobos.
— Wong — Theo rosnou ainda mais alto, entrando na minha frente — Não comece!
— Parem, estão as assustando — interferi — Se quer falar comigo, tudo bem, fale. Mas nada de dar showzinho aqui e Theo fica comigo o tempo todo.
— Justo, mas quero apenas nós três.
— Hmm, nós. . . Temos a biblioteca. . . — Nunca vi Arthur gaguejar.
— Pode ser — Wong concordou, indicando o corredor — mostrem o caminho.
Mereço?
Theo segurou forte na minha mão e fomos até a biblioteca. Na verdade era um quarto pequeno que fica no térreo, acho que era algum escritório ou algo assim. O bando aproveitou esse cômodo para encher de livros, principalmente livros acadêmicos ou clássicos. Confesso que já perdi muito tempo aqui lendo os livros de direito do Theo, mas a maioria era em inglês, perdi mais tempo traduzindo do que lendo propriamente dito.
— O que você quer? — perguntei a Wong quando Theo fechou a porta.
— Por que está na defensiva?
— Por favor, pare de jogos! Não tem como ser coincidência Vlad querer falar comigo em uma noite e você aparecer na minha casa na noite seguinte. Ainda por cima sozinho, onde está Ebony ou a sua guarda? Não estou vendo Chavi em lugar nenhum e sei que você nunca vai a lugar nenhum sem o seu "chefe de guarda".
— Tem razão — ele disse se sentando na poltrona — estou na cidade porque os alfas das quatro espécies de lobisomens se reunirão em breve, em poucas semanas, para ser mais preciso.
— Sem querer ofender, mas o que isso tem a ver comigo?
— Quero que faça parte da reunião.
— Isso só pode ser brincadeira — falei, mas ele não estava rindo — Como assim?
— Na verdade, quero vocês dois — ele apontou para Theo, que ainda estava na porta, de braços cruzados e olhando Wong ameaçadoramente.
— Vamos recapitular, porque eu acho que me perdi — falei confusa — você quer que a gente vá aonde?
— Você entendeu muito bem, quero que vão na reunião dos Lobos Alfas — Wong repetiu pausamente — Dias depois, teremos uma reunião do Conselho dos Marcados, quero vocês lá também.
— Jim, eu não quero parecer na defensiva ou te ofender de jeito nenhum, pelo menos não dessa vez, mas o que, caralhos, eu iria fazer nessas porras de reuniões?
— Sem ofensas? — ele sorriu de canto e eu bufei — Vocês foram os únicos que tiveram contato real com os lobos que te sequestraram. Ainda não fizemos nenhum avanço no estudo daquele cristal que você encontrou e os símbolos naquele baú são muito mais antigos e assustadores do que vocês podem imaginar.
— O que isso quer dizer? — Theo perguntou.
— Que eu não faço a mínima ideia do que está por vir — Wong falou com peso na voz.
— Eu só queria uma noite normal — bufei para mim mesma — voltar da faculdade, jantar, talvez assistir um filme.
— Não sei se é seguro irmos na reunião dos Alfas — Theo disse — se tudo está tão instável como diz, esse seria o melhor lugar para atacarem.
— Acha que não pensamos nisso? — Wong perguntou — Defesa reforçada, mesmo que seja estupidez atacar os seres mais fortes da sua própria espécie.
— Ninguém os atacará — eu falei, chamando a atenção — Os caras que me sequestraram são covardes, eles pegaram as marcadas quando estavam sozinhas e nunca atacaram o Theo no "mano a mano", só em grupo. Eles não devem estar fortes o suficiente, então óbvio que não atacarão os Alfas, até porque o objetivo são os Lobos Marcados, se fosse para atacar alguma reunião, seria a dos Marcados.
Wong me olhou surpreso, o que me deu vontade de revirar os olhos. Mas Theo me olhava orgulhoso, até sorriu de canto, o que me fez ficar ligeiramente envergonhada.
— Você pensa em tudo, não é? — Wong perguntou.
— É da minha espécie que estamos falando — dei de ombros.
— Tem razão, toda razão — Wong concordou comigo — Tenho que ir, a não ser que queira dividir algo comigo.
— Boa tentativa, a única coisa que posso dividir é a minha sobremesa, mas nem isso eu estou disposta — cruzei os braços e ele riu.
— Pelo menos você é engraçada. Conto com vocês na reunião, te mandarei os endereços. Também precisamos conversar sobre o Halloween.
— Passarei o Dia de Todos os Santos com a minha família — respondi.
— Conversamos depois — ele me retrucou.
— Vocês precisam aprender a me ouvir mais — bufei — e eu não falei que vou em algum lugar com você e em nenhuma reunião.
— Depois decidimos isso — Wong falou indo até a porta.
— Não se atreva a entrar nos meus sonhos! Vocês precisam me dar férias — bufei — Wong, eu tenho uma pergunta.
— Faça.
— Por que veio até aqui? Você podia ter me falado tudo isso em um sonho, mas preferiu vir até aqui e assustar a minha família.
— Precisava esfriar a cabeça, tem muita coisa acontecendo. Eu estava em reunião com Eliseu até agora a pouco. Na verdade, minha guarda ainda acha que estou lá — só então percebi como ele parecia cansado.
— O que foi? Foi tão ruim assim? — perguntei preocupada.
— Digamos que os Caídos também estão perdidos, Eliseu era o braço direito de Eliel. Ele literalmente caiu com Eliel por defende-lo, são amigos desde antes da humanidade existir. Então é difícil para ele entender o que está acontecendo. Nós sabemos que ele não morreu, não existe possibilidade dele ter sido atacado ou raptado. Bem, a última vez que tentaram, ele explodiu um quarteirão inteiro, tiveram que camuflar como explosão em um depósito de fogos de artifício.
— Wow — você consegue imaginar o poder dele para ter feito isso?
— É — Wong concordou, ele parecia perdido em lembranças, até tinha um sorriso de canto — Mas agora, com tudo isso, as coisas estão confusas. Só temos um Alfa Original, que quer se manter longe de tudo, aparentemente.
— Se Eliseu é um Caído Original, porque ele não assume o lugar de Eliel?
— Eliseu é um anjo caído, mesmo sendo um original e extremamente forte, é apenas um anjo caído. Mas também acredito que ninguém quer se responsabilizar pelo destino de todos os seres existentes no planeta, porque no final, estar no lugar de Eliel é isso, ser o responsável pela paz e equilíbrio desse mundo. Quem quer tomar esse lugar para si? — ele suspirou pesado, parecia tão cansado, que me deu dó.
— Hey — eu disse segurando em seu ombro — vai ficar tudo bem. Sei que deve estar sendo muito difícil, mas vai passar e vai voltar tudo ao normal.
— Agradeço seu otimismo, mas não sei se consigo encarar as coisas desse jeito.
— Sei que começamos do jeito errado e não somos melhores amigos — eu fiz uma careta e ele riu — mas eu confio em você, você é um ótimo Alfa, tenho certeza que, independente, de quais decisões tomar, serão as melhores possíveis.
Wong deu um sorriso pequeno, agradecido, apertando levemente minha mão com a sua.
— Obrigado, isso significa muito para mim — ele falou baixo — agora é melhor eu ir mesmo.
Theo abriu a porta, nós voltamos a sala, onde todos nós aguardavam ainda tensos.
— Então posso contar com a presença de vocês? — Wong perguntou, antes de sair.
— Eu não contaria muito com isso — respondi.
— Sabe Eve, você é a única Marcada que nega algo ao seu Alfa — Wong comentou divertido.
— Não force a barra — cruzei os braços.
— Wong — Theo falou — precisa que te escoltem de volta?
— Não, não preciso, mas obrigada pela oferta.
— Então, se não precisa de mais nada — Theo abriu a porta, deixando a mensagem clara. Eu segurei a risada, os outros ficaram meio chocados.
— Me expulsando? — Wong se fez de surpreso, mas riu — Vocês formam um casal interessante, o meu favorito! — ele disse saindo de casa, indo até o portão — Eu acredito que. . .
— Que o quê? — perguntei quando ele não falou nada, só ficou me olhando. Estávamos na área externa da casa, esperando ele passar pelo portão e ir embora.
— Sabe Eve — Wong tentava segurar o riso, mas estava difícil, ficava olhando de mim para Theo — acho que seu desejo será realizado, terá férias de mim e dos outros. Por pelo menos uma semana ninguém irá te perguntar.
— Assim, tão fácil? — perguntei desconfiada.
— De minha parte sim, até logo. Até breve Theo.
Então Wong saiu de nossa casa, acenou uma última vez e saiu caminhando tranquilamente pela rua, como se não fosse a porra de Alfa Supremo!
— O que foi tudo isso? — perguntei para o meu namorado.
— Eu também não tenho a menor ideia.
— Pare! Você está me dando agonia! — Bernardo reclamou pela vigésima vez.
— Eu não consigo! — respondi.
Estávamos na loja de fotografia, procurando mais informações sobre o tal Roni Souza. O que estava sendo uma tarefa bem difícil, porque o cadastro foi feito a anos e o antigo funcionário da loja não tinha passado todas as informações para o sistema digital.
O problema da situação era que eu estava com muito calor, me sentia incomodada com tudo, ficava toda hora me coçando. Já tinha tomado quase um litro de água, mas não estava resolvendo nada.
— Estou quase desistindo! — Bernardo bufou, verificando mais um dos armários velhos — Precisamos mesmo encontrar essa garota?
— Sim! — eu estava no chão, olhando outro arquivo — É muito importante isso!
— Agora eu sei porque o outro cara foi demitido — ele resmungava — preguiçoso do cacete!
Nosso sistema era assim, pegavamos os recibos dos meses de tal ano, comparavamos com o arquivo do cadastro do cliente. Nada até agora tinha sido útil, a única coisa boa é que estávamos conseguindo atualizar todo o sistema da loja, já que íamos digitando todas as informações. Bem, essa parte boa só era boa para o dono da loja, não para mim.
— Achei uma Arlete Souza — eu falei — ela está como cônjuge do titular do cadastro.
— Qual o número da ficha?
— Um, nove, sete, cinco — falei sentindo meu nariz coçar pela poeira.
— É essa! — ele veio até mim — Abençoado Bowie, obrigado!
Eu ri, Bernardo tem mania de agradecer a estrelas da música, como se fossem santos.
— Vamos ver — ele digitava no computador — as fotos que essa Arlete revelou foram há. . . Dois anos? Aquele depósito está uma zona mesmo!
— Conseguimos achar as fotos que ela revelou? — perguntei, tomando mais água.
— Não, pelo menos não todas — ele procurava ainda — consegui uma, essa teve tratamento especial, por isso ficou salva aqui.
Era a foto de quatro pessoas. Uma garota com mais de vinte anos, que usava um vestido de festa elegante, e mais três rapazes. Um deles tinha quase a mesma idade da garota, os outros dois por volta de quinze/dezesseis anos, todos de terno. A garota estava abraçada ao garoto que parecia mais novo, apesar de todos sorrirem, esse não sorria.
— São todos parecidos, irmãos provavelmente — Bernardo falou.
— Eu já vi essa garota antes — apontei para a única mulher na foto — foi aqui mesmo! Naquele álbum de portifólio que vocês têm!
Comecei a folhear como louca, até achar a foto de duas garotas, amigas provavelmente, na praia. A foto era muito bonita, mas o importante era que embaixo de cada foto, tinha o nome do cliente.
— Essa aqui é a Renata — Bernardo apontou para a garota da foto — ela é cliente daqui há um tempo, como trabalha com festas, já fiz muitos trabalhos com ela. Eu sei o Facebook dela — ele digitou no computador, entrando na rede social — aliás, vou enviar solicitação de amizade para você e a senhorita me aceite!
— Eu mal entro em redes sociais.
— Quem não entra em redes sociais hoje em dia? — me perguntou como se eu fosse louca.
— Longa história — revirei os olhos — Ali!
Bernardo estava procurando pelas fotos da tal Renata, até achar a mesma foto que estava no portifólio da loja. Por sorte, Renata tinha marcado a amiga.
— Geovana Souza — Bernardo leu o nome da garota que procuramos, clicando nele e entrando no perfil dela — muita coisa de música, sobre feminismo, direitos LGBT, gostei dela — analisavamos as postagens dela — olha, ela foi uma das organizadoras de uma passeata em prol dos direitos das pessoas transexuais!
— Caramba! — essa garota era engajada mesmo.
— Ela estuda psicologia na universidade de Londrina.
— O que? Isso é muito longe daqui.
— Sim, mas olha as informações, ela nasceu e estudou aqui mesmo, então a família dela provalvemente ainda é daqui.
— Certo, a garota que procuramos deve ser sua parente — concordei, aquela situação estava me estressando. Muito mesmo!
— Eu não entendi, ela deixou quase tudo público, menos alguns álbuns de fotos — Bernardo disse pensativo — Vou enviar solicitação de amizade, se ela perguntar eu uso qualquer desculpa.
— Obrigada! — eu o abracei — Sério, você não tem ideia do quanto está me ajudando!
— Não precisa agradecer, está sendo divertido, me sinto em um filme de investigação — ele deu de ombros, me fazendo rir — agora me solta, você está toda suada!
— Só por causa disso não solto! — o agarrei ainda mais, que tentava fugir de mim. Óbvio que tudo era uma brincadeira, mas uma voz grossa soou atrás de nós.
— Interrompo algo? — Theo estava de braços cruzados, nos encarando sério.
— Ela que me agarrou — Bernardo me entregou prontamente.
— Traidor! — sussurrei para Bernardo, que tinha a cara mais inocente possível — Theo — fui abraça-lo, você pode não acreditar, mas eu estava com saudades dele — já é hora de irmos para a faculdade?
— Ainda não, mas achei que vocês fossem querer comer algo antes de ir — ele disse me abraçando de volta.
— Claro, eu realmente estou com muita fome — sorri — vamos Bê?
— Bê — Theo desdenhou no meu pescoço, me fazendo rir, mas foi muito baixo para que qualquer outra pessoa ouvisse. Ciumento, sempre ciumento.
— Er. . . Eu não quero atrapalhar vocês, acho que vou enrolar aqui mais um pouco e. . .
— Ele sempre é assim? — Theo o interrompeu, com seu jeito gracioso de sempre.
— Sim — concordei — acho que ele não gosta de ser visto com a gente.
— Não! É só que eu não tenho dinheiro para gastar — Bernardo disse envergonhado.
— Eu disse que alguém aqui ia ter que pagar?
— Theo, não seja grosseiro. Bê, ignore ele, não se preocupe em pagar, meu namorado Idiota vai pagar e vamos comer muito! — eu sorri.
— Eve, acho melhor não, eu. . .
— Vamos fazer assim — Theo falou — você vai conosco calmamente, vamos até algum lugar comer, depois eu os deixo na faculdade. Ou eu te arrasto até lá, com todos desse shopping observando. A escolha é sua.
Bernardo demorou uns segundos para responder, parecia avaliar se Theo faria mesmo aquilo. Mas quando Theo soltou de mim e deu um passo a frente, ele deu a volta no balcão, desligando o computador.
— Então, aonde vamos?
A noite foi conturbada, sabe quando você dorme, mas não descansa? Meu sono foi agitado, eu acordei várias vezes, o calor me consumindo. Não aguentei e saí da cama, fui até o banheiro e me olhei no espelho. Meu reflexo estava normal, suada, mas normal. Só que eu sabia que tinha algo errado, eu sentia isso. Molhei meu rosto e minha nuca, tentando aliviar o calor. Caramba, era outubro! De onde veio todo esse calor?
Sempre deixamos uma garrafa com água no quarto, mas Theo e eu estávamos com tanta sede, que tomamos tudo.
— Onde você vai? — Theo me perguntou sonolento.
— Buscar água — respondi.
— Pega para mim também? Não estou me sentindo bem.
— O que você tem? — coloque a mão na testa dele, estava queimando — Theo, você está com febre muita alta! — corri no banheiro, molhando a toalha e colocando-a na sua testa — Eu vou buscar água e já volto para cuidar de você.
— Tudo bem — ele concordou — eu te amo — ele falou quase sussurrando.
— Eu também te amo — disse encostando meus lábios nos seus.
A casa estava silenciosa, era madrugada, todos dormiam, todas as portas dos quartos fechadas, não havia nenhum barulho na casa, apenas o Tic-Tac do relógio que fica na copa.
No alto da escada eu precisei parar, me encostei na parede fria, eu realmente não estava me sentindo bem, mas Theo precisava de mim. Talvez eu chamasse Arthur, ele era nosso médico oficial, devia saber o que estava acontecendo. O frio do piso da escada foi muito bem vindo.
Cheguei na cozinha, abri a geladeira e passei uns segundos na frente dela, santo ar frio. Peguei algumas pedras de gelo no freezer e enchi um copo, enchi minha garrafa com água gelada. Mas tive que repetir o processo, porque eu bebi tudo de uma vez.
Foi no momento que fechei a torneira, que a primeira pontada de dor veio. Na verdade, estava mais para marretada do que pontada.
— Aaaahhhhh! Merda! — eu não caí porque consegui me apoiar na pia. Minha respiração estava alterada, com uma mão eu me segurava, a outra eu segurava minha barriga — Aí!
Eu caí no chão de joelhos, aquilo doía, ardia. Como se todo o meu abdômen queimasse, eu não conseguia respirar, lágrimas encheram meus olhos. Apoie minha testa no chão, implorando para que aquilo parasse, doía demais. Eu tentava levantar, mas não conseguia, me sentia fraca e como se meu sangue fervesse, eu podia ouvir o zumbido da minha corrente sanguínea acelerada.
— Eve! — a luz da cozinha foi acesa, tentei levantar minha cabeça, mas estava muito difícil.
— Hugo — eu o chamei, minha voz saiu chorosa — me ajuda.
— O que você tem? — ele me levantou no colo — Você está queimando.
— Está doendo muito! — apertei meu abdômen, parecia que estava me rasgando.
— Vou te levar até o Arthur, ele vai saber o que fazer — ele disse preocupado, me carregando escada acima.
— Não, Theo está pior — eu falei — peça para o Arthur cuidar dele. Aí! Por favor, ele precisa mais.
— Você está morrendo de dor e ainda quer priorizar o Theo? — ele sorriu.
— Sim e não conte para ninguém — porque doía tanto?
— O que foi? — Arthur abriu a porta do quarto bravo, com o rosto inchado de sono — Eve!
— Não sei o que está acontecendo, a encontrei assim, caída, no chão da cozinha — Hugo falou preocupado.
— A coloque na minha cama — Arthur mandou.
— Eve, o que aconteceu? — agora era Mony, mas eu não conseguia enxergar direito.
— Aaahhh! — quando Hugo me colocou na cama, minha pele ardeu.
— Eve, eu vou te examinar. . .
— O Theo! — eu o empurrei as cegas — Arthur, vai cuidar do Theo! Ele não está bem!
— O que deu em vocês hoje? — Arthur resmungou.
— Manos, o que está acontecendo? — era voz de Henrique?
— Acho que vamos ter que leva-los para a casa dos nossos pais, se Theo está tão mal quanto a Eve, não tem muito o que fazer aqui. Lá posso examina-los melhor e tratar, seja lá o que for isso!
Eu ouvia a voz deles ao longe, mas eu estava perdida em mim.
Relaxe
Era a minha voz dentro da minha cabeça.
Apenas relaxe, vai dar tudo certo
Relaxe? Como relaxar se parece que estou queimando viva?
Eu. . . Oh não!
Não!
NÃO! NÃO! NÃO! NÃO!
— Não! — eu levantei em um pulo, isso não podia ser!
— Eve, o que foi?
— Melhor você se deitar.
— Eve. . .
— Eve. . .
Sabe Eve, acho que seu desejo será realizado, terá férias de mim e dos outros. Por pelo menos uma semana ninguém irá te perguntar.
Wong filho da puta!
Ele sabia!
Nem para me avisar? "Olha Eve, você vai sentir que está sendo queimada viva, mas é normal, está bem?"
— Eve — Arthur tentou me puxar, mas onde sua mão tocou no meu braço, pareceu que me queimou a ferro.
— Não me toca, ninguém encosta em mim — eu recuei tropeçando.
Eu senti o lobo dentro de mim revoltado, mas também choramingava. Com toda a dor, não prestei atenção na do lobo, ou seja, Theo. Cada vez que um lobo encostava em mim, ardia, mas doía ainda mais nele.
— Merda! Arthur, cuida do Theo! Sério, todos vocês vão ficar com ele. O segurem de preferência.
— Mas e você? — gritaram para mim quando corri do quarto.
— Eve? O que é tudo isso? — Marcelo e Aninha abriram a porta do quarto deles, provavelmente assustados com todo o barulho.
— Helena! Helena! HELENA! — eu esmurrava a porta do quarto dela.
— O que foi? — ela abriu a porta descabelada.
— Eu entrei em Heat!
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