Capítulo 15
A maioria da nossa família estava em outro salão, onde tinham longas mesas de madeiras, parecia um tipo de refeitório. Alguns estavam sentados nos bancos, outros deitados e mais alguns até no chão. Todos pareciam cansados, já estava amanhecendo e aquela noite tinha tido emoções suficientes para um ano ou mais.
— Eve — Bernardo foi o primeiro a me ver. Ele estava no colo de Hugo que, por sua vez, estava sentado no chão. Ele tentou se levantar rapidamente, mas o Hugo o segurou. Bernardo revirou os olhos e se levantou devagar, junto com o namorado. Essa cena foi fofa e engraçada, me fez rir um pouco — Como você está?
— Pronta para dormir por dias.
— Podemos ir embora? — Arthur perguntou se sentando, ele estava deitado no banco, com a cabeça no colo de Mony, que fazia carinho no seu cabelo.
— Por mim, sim — Theo bufou — Onde estão os outros?
— Na enfermaria, meu irmão e a loba que veio com vocês estão sendo medicados, o resto estão os acompanhando — Caio se espreguiçou.
— Vou libera-los e podemos ir, mas acho que Marcelo deve passar essa noite na minha casa, por precaução — Corey falou.
— Emily e eu iremos juntos — Jonathan disse.
— Pai, posso ir também? — Caio pediu — Não vou conseguir descansar direito estando longe do meu irmão.
— Tudo bem filhote — Jonathan colocou a mão no ombro do filho e o apertou levemente, uma promessa muda de que tudo ficaria bem — Vou chamar sua mãe e suas tia, então poderemos ir.
— Eve — James me chamou — acho que precisamos conversar um pouco, mas não hoje. Vá para casa e descanse.
— Eu só quero pegar a minha filha e ir embora — eu suspirei.
— Tudo bem, filhote — ele beijou minha testa, então me abraçou forte — estou muito orgulhoso de você. Você é uma guerreira destemida e poderosa, eu não poderia ser mais feliz por te ter na minha família, como minha filhote! — eu não sabia o que falar, eu nunca tinha recebido esse tipo de carinho. Eu podia sentir a intensidade de seus sentimentos por mim, todos verdadeiros e legítimos, ele realmente me via como uma filha. Ainda sem saber como reagir, devolvi o abraço — Eu sei que você passou muito tempo sozinha, sem ter quem valorizasse a pessoa maravilhosa que és, mas não pense, nem por um minuto, que ainda é assim. Moveriamos o mundo por você! Você não é só a Marcada do meu filhote, você é uma de nós, uma Acker! Nós SEMPRE amamos e protegemos nossa família!
O abraçou durou mais um pouco, mas o suficiente para eu finalmente entender algo: eu sou importante!
Quando eu me orgulho de ser uma Acker, era por causa de Theo. Mesmo que legalmente ainda não tivéssemos o mesmo sobrenome, eu me sentia conectada a ele por isso. Mas eu não sou uma Acker por causa do meu namorado, eu sou uma Acker porque é o meu destino, é o meu lugar, é quem eu sou!
James limpou as lágrimas que surgiram no canto dos meus olhos, beijou minha testa e disse:
— Sempre estaremos com você.
— Obrigada — eu murmurei.
Nisso os outros chegaram até nós, Corey e Jonathan apoiavam Marcelo, que parecia um pouco grogue. Emily estava abraçada com Ana, Luana ainda tinha Lua nos braços. Erick carregava Nathalia, Clara e Lucas vinham ao lado deles, também abraçados. Hadassa vinha conversando com Allegra e Ebony, Mikael andava atrás delas.
— Eve, que pena que não temos tempo para conversar — Allegra me disse, parecia mesmo triste com isso.
— Podemos visitá-los — Vlad sugeriu, eu não sabia se ele estava tramando algo ou só querendo realizar os desejos da esposa.
— Isso seria ótimo! Podemos? — a rainha dos vampiros, companheira do ser mais forte e poderoso da Terra estava ME perguntando se podia ME visitar? Ela pode fazer o que quiser, não importa o que ela peça, Vlad realizaria e isso poderia, até, incluir minha cabeça em uma bandeja de prata.
— Claro, quando quiserem — respondi.
— Podíamos fazer uma ceia para o Dia de Todos os Santos — Ebony sugeriu alegre.
— Theo e eu decidimos fazer algo, hm, particular. Mais família, sabem?
— Oh, certo — Allegra concordou pensativa. Não é que eu não queira a companhia delas, eu só queria poder celebrar com a minha família — Tudo bem.
— Obrigada — eu suspirei.
— Ebony, precisamos organizar isso, eu volto para a Romênia, mas volto a tempo do Dia de Todos os Santos, podemos nos encontrar na casa do Vlad aqui no Brasil e vamos todos juntos para a casa dos Ackers — Allegra falou feliz.
— Claro! — Ebony concordou — E se fizermos a festa de Halloween na noite de 30 de outubro, depois podemos ir juntos na manhã do dia 31 para a casa da Eve?
— Eu acho perfeito! — Allegra sorriu.
— Espera, o que?
— Eve, eu sei que você está cansada agora, vá descansar. Depois te ligo e podemos combinar tudo certo, mas não se preocupe, manteremos nossa ceia em uma reunião particular — a vampira estava realmente feliz, olhei para os lados a procura de ajuda. Theo estava do meu lado, mas estava tão perdido quanto eu nisso. Atrás de Allegra, Vlad me olhava duramente, ele nunca aceitaria que alguém fizesse algo que a deixasse triste.
Respirei fundo.
— Combinado então — respondi o abraço dela. Sério, eu só queria um banho e a minha cama!
— Parece que nossa reunião familiar aumentou — Theo sussurrou no meu ouvido.
— Como que a gente sempre se mete nessas coisas? — perguntei no mesmo tom de voz.
— A gente? Isso é culpa sua, antes de você eu era um lobo comum — depois eu bato nele e estou errada! Ele riu de mim quando revirei meus olhos.
— Eve — juro, se mais alguém chamasse meu nome naquela noite, eu teria um ataque! Clara se aproximou temerosa — nós ainda não. .
— Não se preocupe, nós já vamos para casa. Eu acho que vocês não trouxeram roupas, mas nós emprestamos. Vamos para casa, vocês tomam um bom banho e descansam — eu falei indicando levemente, Vlad com a cabeça, ele nos observava.
— Claro — Lucas concordou, ele sabia que não podíamos ter nenhum tipo de conversa ali — estou com meu carro, vamos segui-los.
— Filhote — Luana veio até nós, mas ela estava falando comigo — me deixe levar Lua para casa, vocês vão para a de vocês, precisam dormir e descansar bastante.
— Eu confio em você, mas já passei muito tempo longe da minha filha — respondi, acariciando os cabelos da minha filha adormecida.
— Sei bem o que fizeram e estou muito orgulhosa de vocês — ela sorriu — mas vocês devem estar exaustos, descansem. Assim que acordarem, me avisem e eu a levo para vocês.
— Ok — eu disse a contragosto. Eu sabia que ela estava certa, eu já sentia meu corpo cansado, seria bom poder dormir sem ter hora para acordar.
— Vamos? — Theo me perguntou.
— Por favor, antes que mais alguém resolva falar comigo.
Assim que a porta do meu quarto se fechou, eu já estava arrancando minha roupa. Eu me sentia presa, suja, estava tão cansada, mas precisava me limpar. Deixei um rastro de peças de roupa pelo caminho até o banheiro, me jogando embaixo do chuveiro e o ligando, sem nem esperar a água esquentar para entrar debaixo dele.
Os primeiros jatos vieram gelados, mas braços quentes me envolveram, me mantendo presa em um abraço apertado. Me virei para Theo e o agarrei como pude, escondendo meu rosto em seu peito. Não sei dizer em que momento comecei a chorar, mas eu tremia e soluçava tanto, que Theo se sentou no chão, me deixando em seu colo, ainda me mantendo em seus braços acolhedores.
Ele não tentou me fazer parar de chorar, não disse nada para me acalmar, apenas me abraçou e me deixou por tudo para fora. Demorei a entender que ele também chorava, obviamente bem menos que eu, mas estava ali comigo.
Demorou um bom tempo para me acalmar, para que eu parasse de tremer e soluçar. Em todo o tempo, Theo me manteve junto dele, me abraçando e fazendo carinho no meu cabelo.
— Melhor agora?
— Sim — eu suspirei, me aconcheguei em seu peito, enquanto sentia a água quente bater nas minhas costas — É que as vezes tudo fica demais. . .
— Não precisa se explicar — ele beijou a minha testa — você não precisa ser forte o tempo todo, mas, mesmo assim, estou muito orgulhoso de você hoje. Você é uma loba poderosa — ele beijava meu rosto.
— Eu não sou loba e nem poderosa — resmunguei.
— Hoje você só reforçou que é mais forte do que qualquer loba! E não é poderosa? — ele riu — Quem mais soca um Alfa?
— Além de você? — eu o provoquei e ele riu alto.
— Eu te amo! Te amo muito! — ele beijava meu rosto inteiro, me fazendo rir. Até que parou, segurou o meu rosto com as mãos, me fazendo encara-lo — Eu realmente te amo! Amo vocês duas!
— Também amamos você!
— Quando saímos daquele lugar, eu demorei para te achar, isso doeu muito. Fiquei louco! E eu sentia que algo estava acontecendo, te sentia ansiosa e com raiva, com muita raiva. . . Eve, eu estava pronto para destruir qualquer coisa ou criatura que estivesse no meu caminho até você.
— Theo — também coloquei minhas mãos em volta de seu rosto — eu te entendo. Tudo foi intenso demais, eu também sentia a sua fúria dentro de mim, acho que um alimentava a raiva do outro. Mas nós cumprimos nossa promessa, nós voltamos um para o outro! É isso o que importa, estamos juntos, a salvo, vencemos mais uma vez!
— Eu sempre vou voltar para você — ele me beijou.
Era um daqueles beijos com força, intensos, como se precisassemos confirmar que o outro estava mesmo ali. Assim como eu precisava sentir Theo, ele precisava me sentir. Precisávamos tornar tudo real, um precisava do outro como precisava do ar.
Depois do banho tomado, fomos para cama, eu achei que meu corpo estaria doendo, mas eu só estava cansada. Theo se deitou comigo, me abraçando e afundando seu rosto no meu cabelo. Minha consciência estava ocilando, eu estava prestes a dormir. Estava agradecida por todos voltarmos bem para casa, quando um último pensamento passou pela minha cabeça: Theo e eu fomos os únicos que não tivemos atendimento médico. . .
Eu corria pela floresta, meus pés mal tocavam o chão. Passei entre as árvores, pelas folhas, nada me parava. Diminui o meu ritmo, estendi minha mão para afastar as folhas que encobriam meu caminho. Ali na floresta estava escuro, mas assim que abri minha passagem, a luz da lua e das estrelas me alcançaram. Andei pela clareira, chegando até o pequeno lago. O céu acima de mim era inacreditável, tantas luzes brilhantes, estrelas incandescentes.
Andei até a água, me ajoelhei na beira do lago, deixei a lança que eu carregava ao meu lado e olhei meu reflexo.
Meus cabelos pretos, cacheados e volumosos, desgrenhados pela corrida. Minha pele levemente escura, meus olhos amarelos, minha cicatriz que atravessava meu olho direito em um linha vertical, eu quase tinha ficado cega quando a ganhei. Sorri com minha imagem, passei minha mão pelo meu reflexo, fazendo com que ondas a desfocasse.
Nesse instante, por segundos, uma imagem diferente piscou na minha frente. Uma garota, cabelos compridos castanhos, assim como seus olhos, pele mais clara que a minha a aparentava ser mais nova. No segundo seguinte, minha imagem voltou a estar sobre o lago.
Quem era aquela garota?
Me espriguicei na cama, eu não sabia quanto tempo dormi, mas eu dormi bem. Me sentia totalmente descansada, então franzi o cenho, me lembrando do sonho. A imagem que foi refletida por segundos era a minha, então quem era a outra garota? E por quê eu estava vendo pelos olhos dela?
— Bom dia — a voz rouca veio de trás de mim, Theo me abraçava, ainda sonolento. Ele mal tinha aberto os olhos e seus cabelos estavam bagunçados — Dormiu bem?
— Contra todas as possibilidades, sim — eu sorri, me virei para e devolvi o seu abraço — Mas bem que a gente podia passar o dia na cama, não é?
Ele riu alto, me abraçando apertado.
— Seria muito bom, mas temos convidados e você prometeu conversar com a Clara. Ela deve estar ansiosa por isso.
— Verdade — bufei — temos que ligar para sua mãe, para ela trazer a Lua — falei enquanto nos vestiamos.
— Vou mandar mensagem.
Descemos as escadas, de mãos dadas, ouvindo o barulho que vinha da copa. Arthur, Mony, Hugo, Bernardo, Henrique conversavam alegremente, fazendo companhia para Lucas, Clara, Erick e Nathalia.
— Fiz almoço — Arthur exclamou rindo de algo que Erick falava. Erick e Nathalia pareciam bem introsados. Clara até participava da conversa, mas de um jeito mais tímido. Lucas era mais observador, apenas fazia alguns comentários.
— Bom estou morrendo de fome! — eu disse me sentando a mesa e pegando um pedaço bem grande da enorme lasanha a minha frente.
— Vocês são fofos juntos — Clara comentou baixo, apontando para Theo e eu. Só então reparei que ao mesmo tempo que servi um pedaço de lasanha para mim, servi um para ele. Ao passo que ele cortou um pedaço (gigantesco) de carne em seu prato e colocou outro (bem menor) no meu. Em uma sincronia que até parecia ensaiada, mas era natural.
O que me fez pensar que sempre agiamos assim, principalmente com a Lua.
— Tem que ver eles lutando juntos — Henrique falou de boca aberta.
— Eu vi a Eve uma vez e já foi impressionante — Clara respondeu.
— Gosto do seu estilo de luta — Lucas falou para Theo. Bem, se o homem (vampiro) de confiança de Eliel "gostava do estilo" de Theo, queria dizer algo, não é?
— Alfa Wong quer Theo em sua guarda — Hugo disse distraidamente.
— Não faça isso — Lucas fez careta — não se prenda a nenhum Alfa, você tem muito potencial. Se for para ser de uma guarda, seja de Eliel, podemos aproveitar seu talento.
— Convite interessante — Theo respondeu tomando um gole de sua bebida — Mas acho que vou assumir o posto de Companheiro no Conselho, me tornei um Intocável — ele riu.
— Como assim? — perguntei, os outros lobos também pareciam confusos. Lucas também ria.
— Quando um Conselheiro tem um companheiro, como meu pai tem a minha mãe, esse companheiro se torna um Intocável. Ninguém pode mexer com essa pessoa, porque ele está protegido acima de tudo — Theo me explicou.
— Por isso que sua mãe e suas tias estavam no mesmo local da reunião do Conselho — eu falei.
— Também tem umas responsabilidades — Hugo falou — além de acompanhar o Conselheiro, normalmente trabalham na área do qual seu companheiro é Conselheiro — Arthur completou.
— Tipo sua mãe que trabalha com seu pai na área médica, porque seu pai é o Conselheiro da Saúde — Mony disse e Arthur confirmou com a cabeça.
— Eles também tem a direito a um Lobo de Guarda — Hugo falou, ele estava cortando a carne do Bernardo que revirava os olhos, mas sorria.
— Sua mãe tem um Lobo de Guarda? — perguntei para Theo.
— Ela é a Marcada do Conselheiro de Segurança — Theo levantou a sobrancelha — se ela precisasse de um Segurança, sendo casada com o chefe máximo deles, meu pai ia ser uma vergonha para a posição dele.
— Ah, é, faz sentido.
— Mas não é só isso — Lucas falou, ele tinha esse jeito que parece que sempre está avaliando a gente, lembra o Vlad — Conselheiros das quatro espécies originais, também estão presentes nas reuniões do Conselho Imperial — opa, como é? — mesmo que não participem efetivamente, precisam estar presentes. O Alfa pode precisar consultar seus Conselheiros ou Eliel pode querer perguntar algo diretamente ao Conselheiro. Também tem o fato de que qualquer Conselheiro pode pedir uma audiência com Eliel. Isso os torna uma ligação direta com o poder sobrenatural, já que eles fazem parte desse processo.
— Isso torna os Companheiros dos Conselheiros alvos? — perguntei.
— Essa história de Conselheiros e Companheiros é, basicamente, como quando líderes de nações se encontram no mundo humano — Erick explicou — os Conselheiros são os líderes que se reúnem e discutem as pautas em questão, certo? Mas ao mesmo tempo seus cônjuges normalmente se encontram. Podem fazer algo como divulgar algum projeto e coisas assim, mas sempre bem protegidos.
— Exatamente! — Theo sorria, ele parecia realmente feliz com algo, ao mesmo tempo em que parecia estar aprontando.
— Theo, mas o que isso tem a ver com você ser da guarda do Wong? — Henrique perguntou.
— É que agora eu sou, realmente, sou Companheiro de uma Conselheira, já que Eve foi escolhida como a nova Conselheira de Wong.
Todos, TODOS, estavam chocados, me olhando assustados. Ninguém comia ou falava nada, apenas me olhavam tentando entender.
Bem, não todos, já que Theo ria travesso.
— Sério? — perguntei para o meu namorado — você não consegue se segurar?
Ele apenas deu de ombros e ainda ria.
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