Capítulo 14
— Eu concordo — Vlad falou animadamente.
— Isso não pode ser sério — Pietro estava muito revoltado.
— Theo — eu o abracei, ele ainda estava em meia transformação, com pouco controle sobre si — está tudo bem, estamos bem. Nossa filha está com seus pais, eu estou com você. Nós cumprimos nossa promessa, lembra? Nós estamos juntos aqui, lutamos, mas voltamos um para o outro.
— Eve — ele sussurrou, me abraçando apertado enquanto eu fazia carinho em seus cabelos.
— Estamos bem — eu sussurrava.
Ficamos assim por alguns segundos, todos a nossa volta em silêncio. Isso durou até que Theo se sentisse no controle novamente.
— Muito obrigado — ele sussurrou para mim, encostando seus lábios — Te amo.
— Também te amo — respondi.
— Ow, também amo vocês — Vlad zombou — podemos voltar a parte importante?
— Como ela acalmou um Lobo em Fúria? — Leon perguntou espantado.
— Do que isso importa? Wong só pode estar louco de nomear essa marcada para o Conselho! — Pietro falou.
— Antes que voltemos a discutir, alguém pode cobrir Theo Acker? — Leon pediu.
Como Theo tinha se transmutado para transformação inteira e voltado ao normal, ele estava totalmente nu.
— Deem o meu manto para ele — Wong ordenou, os lobos criados o olharam espantados, sem saber o que fazer — AGORA!
Um dos lobos correu com um roupão azul com detalhes em prata, o tecido era fluido, parecida seda, mas metalizado. Nas costas havia o símbolo da Lua Crescente.
Theo resmungou quando tentaram vesti-lo, então arrancou o tecido da mão e colocou ele mesmo. Na verdade mais parecia um sobretudo, tinha dois botões do lado direito, quase no ombro, o resto dos botões era em linha vertical no meio de seu corpo, e havia um laço que poderia ser feito para prenden-lo ainda mais. O tal manto ficou perfeito nele, mesmo que Wong e Theo tivessem corpos bem diferentes, o roupão parecia ter sido feito para o meu namorado.
Eu não perdi a troca de olhares entre Leon e Wong. Leon espantado e Wong suspirou resignado.
— Agora eu posso saber do que você estava falando? — perguntei para Wong.
— Isso é uma conversa para termos lá dentro — ele suspirou — Alister — ele chamou e um de seus lobos atendeu — acomode todos os nossos visitantes aqui, tenha certeza que todos estarão confortáveis e que serão alimentados. Então leve os Conselheiros Marcados até a Sala de Reunião Interna — Alister confirmou com a cabeça e saiu para cumprir as ordens de seu Alfa.
— Por aqui — ele chamou minha família, que o seguiram receosos.
— Olá, Lucas — Vlad falou em tom quase perigoso, seus olhos passavam dele para Clara e voltavam para Lucas.
— Lorde Tepes — Lucas fez a saudação, punho cerrado em cima do coração e abaixou sua cabeça em reverência. Mas eu percebi que ele segurou a mão da Clara com a sua mão livre, a puxando levemente para trás de si.
— Então essa é sua namorada? A tal humana que te fez largar o próprio Eliel — Vlad não perguntava, afirmava — mas ela não é humana, é um nefilim.
— Sim, essa é Clara. Ela acabou de fazer 20 anos, ainda está descobrindo seus dons — Lucas falava sério, como se fosse apenas mais um informação sem importância. Só que eu sabia que não era isso.
— Que coincidência, não? Mas que bom que você pode ajudá-la e protegê-la — Vlad inclinou a cabeça para o lado, avaliando Clara — Olá, Clara.
— O. . . Oi — Clara gaguejou. Vlad cerrou o maxilar, ele olhava fixamente para ela, que estava obviamente constrangida.
— Vlad, vamos logo isso — eu interrompi, me fazendo de entediada — Estou cansada, irritada e tudo o que quero é ir para casa!
— Certo — ele respondeu e seguimos pelo corredor por onde todos já tinham ido. Clara me olhou agradecida, sorri em resposta.
— Sentem-se — Wong ofereceu.
A sala onde estávamos era de tamanho comum. Tinha uma mesa em um canto, um sofá em outro e uma mesa circular no meio. Pietro passou contrariado e se sentou em um das cadeiras da mesa central.
— Evelyn — Leon me chamou, ele parecia confuso — seus olhos são de que cor?
— São castanhos — agora quem ficou confusa fui eu, ele era daltônico?
— Agora eles realmente estão castanhos — quase revirei os olhos, obvio que estariam dessa cor, mas ele tinha sido legal comigo desde o começo — Mas estavam cinzas até a poucos momentos atrás, mais precisamente, desde que você conseguiu acalmar seu lobo, que, aliás, também tinha os olhos cinzas. Alguém pode me explicar como isso é possível?
A sala ficou em silêncio por alguns segundos, além dos três Alfas Lobos, o Alfa Vampiro e Mikael, apenas estava Theo e eu. Os outros que nos acompanhavam tinham seguido Alister.
Meu namorado passou seu braço por meus ombros, me mantendo junto a ele, além de me proteger, estava me mostrando que estava ali comigo.
— Fechem a porta, precisamos ter uma conversa séria — Wong suspirou, ele parecia cansado. Mas, pelo o que eu me lembrava, quem tinha lutado pela própria vida e pela vida das pessoas que ama, não tinha sido ele! Foi preciso apenas um olhar e Mikael trancou a porta, ficando do lado de fora — O que vamos falar não pode sair dessa sala!
— Qual é o mistério? — Leon perguntou — Wong, você não pode esperar que apoiemos sua causa e, ainda assim, esconder coisas importantes de nós.
— Foi o que eu falei desde o começo — Pietro bufou — apoiar essa caçada louca é. . .
— CALE-SE PIETRO — Leon gritou — Cale-se antes que eu o faça! Estou cansado dessa briga por ego, você não entende que algo muito maior está em jogo? Chega desse comportamento infantil! — pelo jeito olhavam para ele, deveria ser raro Leon estourar — Agora, Wong, explique!
— Bem, Eve. . . — Wong não sabia como falar.
— Eu estava em fúria! — falei.
— Como assim? — Leon perguntou calmamente.
— Eve e eu podemos compartilhar todas as nossas habilidades. Basicamente, tudo o que eu posso fazer, ela também pode, inclusive entrar em Fúria — Theo explicou.
— Isso é impossível — Pietro exclamou aturdido.
— Sério? — Vlad perguntou debochado — Como vai seu maxilar? Ainda dói?
Pietro, em um movimento inconsciente, colocou a mão sobre o local que eu o tinha socado. Os dois Alfas me olhavam sem entender, mas seria justo eu a julga-los? Nem eu me entendia.
— Como? — Leon foi o primeiro a perguntar — Deve ter uma explicação, qual é?
— Nós não. . . — Wong começou, mas Leon socou a mesa.
— Jim Wong, não se atreva a mentir para mim! Se esquece que também sou Alfa? — ele estava bravo — Você não sabe? Quer enganar quem? Eve? Theo? Pietro? Eu? Sempre que acontece algo que não entendemos, um procura o outro, é por isso que existe essa merda de conselho! Se você não veio até nós, é porque sabe a resposta!
Assim como Wong tinha aquela aura negra em volta dele quando ficava muito irritado ou estava em forma de lobo, Leon tinha uma esbranquiçada, levemente prateada. Mas não quer dizer que essa aura não assustava.
Os dois Alfas se encaravam, como se medicem um o poder do outro. Apesar que os Lobos Marcados eram os representantes dos Lobos no Conselho Imperial e Wong fosse chamado de Alfa Supremo, os Lunares eram quase tão fortes quanto os Marcados e Leon era o líder deles.
— Ele não vai responder — eu falei, me intrometendo na conversa, tentando evitar uma possível desgraça — eles também não me falam — Wong me olhou espantado, como se fosse uma surpresa eu saber daquilo — Ah, qual é? Você e Vlad nunca foram sutis quanto a mim. Eu não conheço nenhum Marcado que vocês dois vão visitar durante os sonhos ou que tratem de igual para igual. Sei que não tem Marcados que fazem o que faço, que entram em Fúria, que enfrentam Lobos em transformação inteira e, além, que os matam. Mesmo eu fazendo tudo isso, vocês nunca ficam surpresos. Pior, parece que sempre esperam ainda mais de mim. Não entendo porque não falam de uma vez!
— Também não entendo porque você é tão covarde — Vlad devolveu.
— Vamos recomeçar com isso? — perguntei.
— Alfa, isso vai levar a algum lugar? — Theo perguntou — Estamos cansados, eu mal pude ver a minha filha, só queremos ir para casa.
— Sinto muito Theo — Wong suspirou — mas eu preciso da compreensão dos meus companheiros Alfas sobre isso. Não queremos que todas essas informações saiam daqui, ainda não temos certeza do que está acontecendo.
— Vamos por partes — Leon disse massageando a têmpora e se sentando ao lado de Pietro — vamos nos sentar e conversar.
Cada um de nós tomou um lugar a mesa, menos Vlad que ficou de pé, encostado na parede. Theo se sentou e me puxou para o colo, me abraçando.
— Antes que os conselheiros cheguem, preciso que saibam que estamos tentando entender tudo isso. Não deve ser coincidência que Eve apareceu no mundo sobrenatural, logo depois Eliel some e então se começa uma guerra — Wong falou sério, de um jeito que eu nunca vi — talvez Eve seja algum tipo marca que mostra a mudança que está por vir. Eu não falei com vocês antes, porque acreditava que era restrito aos Lobos Marcados, mas agora percebemos que não.
— Do que está falando? — Pietro perguntou.
— Darcy, a Alfa dos Bruxos, teve uma longa conversa comigo e Tepes ontem a noite. Ela disse que há rumores entre a comunidade mágica da ascensão de dois feiticeiros, ela ainda não possui muitas informações sobre eles. Sabe que um é bruxo que vem ganhando poder e seguidores, Roman alguma coisa — Wong fez um gesto com a mão, como se aquilo não fosse importante — a outra é uma garota. Darcy não sabe quase nada sobre essa garota, apenas que é muito poderosa, todos que a enfrentaram são derrotados, muitos nem voltam.
— Ela os mata? — Leon perguntou.
— Essa é a parte complicada, como se o resto fosse simples — Wong bufou — Darcy não acredita que a tal bruxa os mata, ela acredita que quem faz isso é uma Kitsune.
— Kitsune? — Leon e Pietro perguntaram juntos, totalmente espantados.
Bem, as minhas únicas "experiência" com Kitsune foram assistindo Teen Wolf e Naruto, eu nem sabia que elas eram reais. Mas eu também não achava que lobisomens eram e agora estou sentada no colo de um, que, por acaso, é meu namorado.
— Kitsunes praticamente não existem mais — Pietro falou confuso — os poucos que ainda existem, moram em comunidades fechadas, o que uma estaria fazendo sozinha? Ainda mais no Brasil?
— Não temos resposta, mesmo que seja apenas especulação de Darcy, sabemos que dificilmente ela erraria, principalmente algo assim — Wong disse.
— Não é irônico que a bruxa que vem tirando o sono da Alfa, seja só uma garota? — Vlad falou olhando para mim.
— Assim como Eve — Leon completou, todos me olhavam.
Fiquei tensa, Theo me apertou ainda mais contra ele. Foram segundos de silêncio, onde todos me encaravam e eu não sabia o que dizer.
Até que alguém bateu na porta.
— Um minuto — Wong falou em voz alta, então se voltou a nós — nada do que foi dito aqui, pode sair daqui. O silêncio de todos vocês é essencial — Leon e Pietro concordaram com a cabeça.
— Juramento com sangue — Vlad rosnou — Jurem não falar sobre isso com mais ninguém.
Pietro bufou, mas ele e Leon usaram suas garras para fazer um corte na palma da mão, deixando seu sangue pingar.
— Juramos não falar sobre isso com mais ninguém — eles falaram.
— Entrem — Vlad falou e a porta foi aberta por Mikael, atrás dele alguns lobos entraram na sala, incluindo os três Ackers, James, Jonathan e Corey.
— Conselho — Wong disse — Preciso notifica-los de algo. A partir de hoje haverá mais uma cadeira em nosso conselho — os sete lobos confirmaram com a cabeça — Evelyn Acker assume como conselheira em nome dos Marcados.
— QUE? — engasguei.
— Alguma objeção? — Wong continuou como se eu não tivesse falado nada, apena me olhou feio e voltar a falar. Todos os lobos negaram — Pois bem, estamos certos. Conselheiro Zaki, peço que depois se reúna com Evelyn e a ensine todos os protocolos — o homem negro fechou o punho sobre o coração e fez a reverência — não vejo porquê continuarmos com tudo isso hoje. Sugiro irmos para nossos quartos e descansarmos, podemos retomar outros assuntos em outra data.
— Não seria bom discutir esse pequeno detalhe sobre ninguém ter perguntado a minha opinião? — eu perguntei.
— Não vejo motivo para isso — Wong deu de ombros.
— Wong! — eu me levantei — Vocês não podem decidir. . .
— Cale a boca! — Pietro gritou, também se levantando — Você devia ficar feliz com isso, pelo menos você é intocável agora, ninguém poderá fazer nada contra você, por mais que. . .
— Por mais que o quê? — Theo se levantou tão rápido e tão bravo, que derrubou a cadeira que estava.
— Ela não age como deveria, acha que pode nos enfrentar — Pietro bateu a mão na mesa, revirei os olhos. Achei que ele tinha superado sua raiva por mim — Não tem respeito nenhum pela hierarquia ou nossas tradições. Se tivesse alguém com pulso firme, você já estaria na linha.
— E você me colocaria na linha? — eu perguntei irônica.
— Acredite, eu só precisaria de algumas horas para você ser a marcada dócil e submissa que deveria ser — ele rosnou, me ameaçando.
— Com permissão, posso falar? — James interrompeu tanto eu, quanto Theo.
— Por favor — Wong parecia aliviado pela mudança de assunto.
— Com respeito, Alfa Pietro, você tem razão. Eve Acker está muito longe de ser uma Marcada dócil e submissa, como o esperado — Pietro sorriu triunfante — Mas o que você parece se esquecer, é que você não é um Lobo Marcado para querer ditar como nós devemos ser ou nos comportar. As atitudes de Eve não são assunto seu. Outra coisa que parece ter escapado da sua mente é que ela não é só uma Acker legítima, ela é minha filhote. E eu, como o Conselheiro de Segurança posso afirmar, se voltar a ameaçar minha filhote de novo, sua vida se transformará em um inferno tão grande, que nem o próprio Arcanjo Eliel interferiria. Mas, com todo respeito, obviamente.
Foram longos segundos de silêncio até que Wong, meio hesitante, falou:
— Er. . . Acho que, bem, a reunião está encerrada!?
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