Capítulo 22
Acordo manhosa vendo o rosto de Sirius adormecido, sorrio o encarando por um tempo até decidir levantar e ir para o banheiro me banhar. As cenas se repetiam em minha cabeça me fazendo dar risos e suspiros bobos. Me lembro de encomendar uma poção para não engravidar e mando por meio de Alba. Volto para o quarto e coloco um vestido simples porém confortável o suficiente.
Sirius está dormindo, o pessoal saiu, parece que vou ter que apreciar minha própria companhia... Desço até a sala e começo a ler um livro qualquer enquanto o tempo passava.
Passados alguns dias acabou-se sabendo que Monstro, andara escondido no sótão. Sirius contou que o encontrara lá em cima, coberto de pó, sem dúvida procurando mais relíquias da família Black para esconder em seu armário. Monstro parecia estar mais bem-humorado quando reapareceu, seus resmungos azedos tinham diminuído bastante e passara a obedecer às ordens mais docilmente do que de costume, embora uma ou duas vezes eu o tivesse surpreendido encarando-o com avidez, mas sempre desviando rapidamente o olhar quando via que eu o percebera.
Não mencionei minhas vagas suspeitas a Sirius, cuja alegria começara a evaporar muito rapidamente agora que passara o Natal. À medida que se aproximava o dia da partida a Hogwarts, ele foi se tornando mais inclinado ao que a Sra. Weasley chamava de "macambuzice", quando ficava taciturno e resmungão e muitas vezes se retirava para o quarto de Bicuço durante horas. Sua tristeza infiltrava-se na casa, por baixo das portas, como um gás venenoso, e infectando a todos. Tentei aliviar seus sentimentos com beijos e abraços, porem logo voltava a se desanimar. Não queria deixar Sirius outra vez apenas em companhia de Monstro; de fato, pela primeira vez na vida, não estava contando os dias que faltavam para regressar a Hogwarts. Voltar à escola significava colocar-se mais uma vez sob a tirania de Dolores Umbridge, que sem dúvida, conseguira passar à força mais uma dúzia de decretos na nossa ausência.
- Harry, querido - disse a Sra. Weasley, metendo a cabeça no quarto que ele ocupava com Rony, onde os dois estavam jogando xadrez de bruxo observados por Hermione, Gina e Bichento -, pode vir à cozinha? O Prof. Snape quer dar uma palavrinha com você.
Fiquei surpresa e curiosa com a fala então me virei para ver a expressão do menino que parecia perdido em pensamentos.
- Desculpe, Sra. Weasley, que foi que a senhora disse?
- O Prof. Snape, querido. Na cozinha. Gostaria de lhe falar.
O queixo de Harry caiu de terror. Olhou para Rony, Hermione e Gina, todos igualmente boquiabertos para ele.
- Luana você também pode ir, Sirius permitiu que ouvisse a conversa.
Todos olharam para mim confusos. Segui Harry até a cozinha. Um minuto e pouco depois, ele empurrou a porta da cozinha e encontramos Sirius e Snape sentados à longa mesa do aposento, olhando em direções opostas. O silêncio entre os dois estava carregado de mútua intolerância. Havia uma carta aberta sobre a mesa diante de Sirius.
- Hã - fez Harry para anunciar sua presença.
Snape se virou para olhá-lo, o rosto emoldurado por cortinas de cabelos oleosos. - Sente-se, Potter.
- Sabe - disse Sirius em voz alta, se recostando e se apoiando nas pernas traseiras da cadeira, e falando para o teto -, acho que eu preferia que você não desse ordens aqui. É a minha casa, sabe.
Um rubor ameaçador afluiu ao rosto pálido de Snape. Harry sentou-se na cadeira ao lado de Sirius e defronte do professor. Eu caminhei discretamente ate a mesa me sentando ao lado de Harry. O olhar do professor de poções caiu sobre mim com desprezo.
- Eu devia vê-lo sozinho, Potter - disse Snape, o riso desdenhoso crispando sua boca -, mas Black...
- Sou o padrinho dele - disse Sirius, ainda mais alto. - Portanto cabe a mim decidir quem pode ou não ouvir essa conversa.
- Estou aqui por ordem de Dumbledore - continuou Snape, cuja voz, em contraposição, ficava cada vez mais baixa e sibilante - mas, sem dúvida, fique Black, eu sei que você gosta de se sentir... participante.
- Que é que você quer dizer com isso? - retorquiu Sirius, deixando a cadeira recair nos quatro pés com um forte baque.
- Simplesmente que tenho certeza de que você deve se sentir... ah... frustrado pelo fato de não poder fazer nada de útil - Snape enfatizou delicadamente a frase - "pela Ordem".
Foi a vez de Sirius corar. Meu punho se fechou em raiva. Como ousa falar assim dele dentro de sua casa, na frente de Harry...
A boca de Snape se crispou em triunfo ao se dirigir a Harry.
- O diretor me mandou dizer, Potter, que quer que você estude Oclumência neste trimestre.
- Estude o quê? - perguntou Harry sem entender.
O desdém de Snape se tornou mais pronunciado.
- Oclumência, Potter. A defesa mágica da mente contra penetração externa. Um ramo obscuro da magia, mas extremamente útil.
Meu coração começou a bater realmente forte. Defesa contra penetração externa? Mas ele não estava sendo possuído, todos tinham concordado com isso...
- Por que tenho de estudar essa Oclu...? - deixou escapar.
- Porque o diretor acha que é uma boa ideia - disse Snape suavemente. - Você receberá aulas particulares uma vez por semana, mas não contará a ninguém o que está fazendo, muito menos a Dolores Umbridge. Entendeu?
- Sim, senhor - disse Harry. - E quem é que vai me ensinar?
Snape ergueu uma sobrancelha.
- Eu - respondeu.
- Por que Dumbledore não pode ensinar ao Harry? - perguntei agressivamente. - Por que você?
- Porque suponho que seja uma prerrogativa do diretor delegar as tarefas menos agradáveis - disse Snape suavemente. - Posso lhe garantir que não pedi esse encargo. - Levantou-se. - Espero você às seis horas da tarde na segunda-feira, Potter. Minha sala. Se alguém lhe perguntar, diga que está tomando aulas particulares de Poções. Ninguém que tenha visto você em minhas aulas poderia negar que precisa de reforço.
Ele se virou para ir embora, a capa preta de viagem se enfunando como uma cauda.
- Espere um momento - pediu Sirius, sentando-se mais reto na cadeira.
Snape se virou para encarar os dois, desdenhoso.
- Estou com muita pressa, Black. Ao contrário de você, tenho um tempo limitado de lazer.
- Irei direto ao assunto, então - falou Sirius ficando em pé. Era bem mais alto do que Snape, que fechou um punho no bolso da capa, segurando, sem dúvida, o punho da varinha. - Se eu souber que você está usando essas aulas de Oclumência para infernizar a vida de Harry, terá de acertar contas comigo.
- Que comovente! - debochou Snape. - Mas você com certeza já notou que Potter se parece muito com o pai dele, não é?
- Já - respondeu Sirius com orgulho.
- Bom, então sabe que ele é tão arrogante que as críticas simplesmente resvalam nele - disse Snape com voz de seda.
Sirius empurrou a cadeira bruscamente para o lado e contornou a mesa em direção ao outro, ao mesmo tempo que puxava a varinha. Snape puxou a dele.
- Sirius! - chamou Harry, mas o padrinho não pareceu ouvi-lo.
- Eu lhe avisei, Ranhoso - disse Sirius, seu rosto a menos de meio metro do de Snape -, não me interessa se Dumbledore acha que você se regenerou, eu sei que não...
- Ah, então por que não diz isso a ele? - sussurrou Snape. - Ou tem medo de que ele não leve a sério o conselho de um homem que está há seis meses se escondendo na casa da mãe?
- Me diga, como anda Lúcio Malfoy ultimamente? Imagino que encantado com o fato do seu cachorrinho de estimação estar trabalhando em Hogwarts, não?
- Por falar em cachorros - disse Snape mansamente -, você sabia que Lúcio Malfoy o reconheceu da última vez que arriscou uma escapulida? Ideia brilhante, Black, deixar que o vissem em uma segura plataforma de trem.... arranjou uma desculpa irrefutável para nunca mais deixar o buraco em que se esconde, não?
Sirius ergueu a varinha.
- NÃO! - berrou Harry acompanhado de mim. - Sirius, não!
Corri por entre os dois enquanto segurava nervosamente o peito do Black em pedido que parasse.
- Você está me chamando de covarde? - berrou Sirius, tentando me tirar da frente, mas não me mexi.
- Ora, suponho que sim.
- Luana... saia... da... frente! - vociferou Sirius, empurrando-me para o lado com a mão livre.
A porta da cozinha se abriu e toda a família Weasley mais Hermione entraram, todos parecendo muito felizes, trazendo um orgulhoso Sr. Weasley vestindo um pijama e por cima uma capa de chuva.
- Curado! - anunciou animadamente para todos na cozinha. - Completamente curado!
Ele e os outros Weasley ficaram paralisados à porta, contemplando a cena na cozinha, também suspensa, em que Sirius e Snape olhavam para a porta com as varinhas apontadas uma para a cara do outro e Harry, imóvel entre os dois como eu, tentando separá-los.
- Pelas barbas de Merlim! - exclamou o Sr. Weasley, o sorriso desaparecendo do rosto. - Que é que está acontecendo aqui?
Sirius e Snape baixaram as varinhas. Harry olhou de um para outro. Ambos tinham no rosto uma expressão de extremo desprezo, contudo a entrada repentina de tantas testemunhas pareceu tê-los chamado à razão. Snape embolsou a varinha e atravessou a cozinha, passando pelos Weasley sem fazer comentário. À porta, olhou para trás.
- Seis horas da tarde, segunda-feira, Potter.
E foi-se embora. Sirius seguiu-o com um olhar mal-humorado, a varinha segura ao lado do corpo.
- Que é que estava acontecendo? - tornou a indagar o Sr. Weasley.
- Nada, Arthur - respondeu Sirius, ofegante como se tivesse acabado de correr uma longa distância. - Só uma conversa amigável entre dois velhos amigos de escola. - Aparentemente com imenso esforço, ele sorriu. - Então... está curado? Ótima notícia, realmente ótima.
- Não é? - disse a Sra. Weasley, conduzindo o marido até uma cadeira. - Enfim o Curandeiro Smethwyck fez sua mágica, encontrou um antídoto para o que quer que fosse que a cobra tinha nas presas, e Arthur aprendeu a lição de não se meter com medicina de trouxas, não foi, querido? - acrescentou ela um tanto ameaçadoramente.
- Foi, Molly, querida - disse o Sr. Weasley, com humildade.
A refeição daquela noite deveria ter sido muito alegre, com a volta do Sr. Weasley. Vi que Sirius procurava fazer com que assim fosse, mas o homem não se esforçava para dar gargalhadas com as piadas de Fred e Jorge nem oferecia aos outros mais comida; seu rosto se fechara numa expressão melancólica e reflexiva. O puxei para longe da multidão para um corredor vazio.
- Odeio te ver assim....
Falo o abraçando tentando passar algum conforto. Devagar ele vai retribuindo o abraço.
- Sirius estive pensando... não quer que fique aqui com você? Sabe, hogwarts pode esperar e...
Ele imediatamente me interrompeu se afastando do abraço e negando com a cabeça.
- Claro que não Luana, você tem que ficar em hogwarts, estará mais segura lá, fora que precisa terminar seus estudos.
Percebi a preocupação em sua voz porem seus olhos emanavam tristeza.
-Sirius isso é o de menos comparado a tudo que está acontecendo. Não quero te deixar aqui sozinho...
Ele fica em silencio porem logo dá um pequeno sorriso de lado.
- Luana está decidido você voltará a Hogwarts... sua irmã e seus amigos precisam de você... Harry precisa de você. - Me encarou atentamente enquanto acariciava meu rosto. - Preciso que você fique lá com ele, posso contar com sua ajuda Lu?
Seu olhar quase me dominava, relutante concordei com a cabeça vendo sua expressão suavizar.
- Promete não fazer nenhuma besteira?
-E eu já fiz alguma besteira? - Pergunta com um sorriso brincalhão. Reviro os olhos logo o puxando pelo pescoço para selar nossos lábios.
Ouço um barulho de algo caindo e rapidamente com Sirius nos viramos para a porta surpresos com quem estará ali... Harry. Ele me encarou desacreditado e depois encarou a seu padrinho com raiva.
- Harry, eu... - Comecei nervosa porem não sabia o que falar.
- Luana como pode? Ele é meu padrinho!
Gritou irritado, vi a decepção em seu olhar então, apenas abaixei a cabeça triste enquanto sentia as lagrimas começarem a descer.
-Harry, a Luana e eu...
O Black foi interrompido antes que continuasse.
- Eu lhe falei que considerava Luana como uma irmã e você vai pelas minhas costas e se agarra com ela?! - Pronunciou irritado.
O homem apenas se calou, esperou o Potter se acalmar por um instante.
- Harry nós não fizemos nada de errado, Luana está disponível assim como eu e não cabe a você...
No mesmo instante ouço um estalar e percebo que Harry havia surrado o padrinho. Soltei um grito de surpresa e logo corri ao auxílio de Sirius.
- A quanto tempo? A quanto tempo escondem essa pouca vergonha? - Perguntou irritado nos olhando com desdém.
- Alguns meses... - Me pronunciei antes que o garoto se irritasse mais.
O garoto irritado apenas nos olhou com ódio e desapontamento antes de correr em direção as escadas para seu quarto. Sirius e eu nos encaramos timidamente, ao menos eu.
-Talvez seja melhor espera ele se acalmar e depois conversarei com ele. - Falou enquanto me confortava com seus braços. Nunca vi o Potter tão irritado e desapontado.
- Eu... eu acho que sim. - Ficamos em um silencio angustiante por alguns segundos - Vou me deitar... boa noite.
Falei saindo dali o mais rápido que pude indo para meu quarto em pensamentos.
Eu pedi segredo justamente para que Harry não nos flagrasse assim e agora... ele está decepcionado comigo. Claro a garota que ele considerava como irmã aos beijos com seu padrinho... que vergonha.
Dormi em meio aos pensamentos.
Depois de um café da manhã apressado, nós vestimos os casacos e cachecóis para se proteger da gélida manhã de janeiro. Senti um aperto desagradável no peito; não queria dizer adeus a Sirius. Tive uma sensação ruim com relação a essa despedida; não sabia quando voltaria a ver. Mas antes que conseguisse pensar no que dizer Sirius, o mesmo chamou Harry para junto dele enquanto conversavam.
- Vamos, então - disse Sirius, dando uma palmada no ombro do afilhado e sorrindo triste, e antes que Harry pudesse dizer mais alguma coisa, já haviam subido e parado à porta da frente, cheia de trancas, cercados pelos Weasley.
- Adeus, Luana, cuide-se - disse a Sra. Weasley abraçando-me.
Era minha última chance de dizer a Sirius para ter cuidado; me virei, encarei o homem e abri a boca para falar, mas, antes que o fizesse, Sirius estava me dando um breve abraço e dizendo com a voz rouca:
- Tudo ficará bem, eu prometo...
Deu um beijo discreto em minha bochecha e se afastou do abraço.
Fomos para a estação e depois voltamos a Hogwarts, no caminho não ousei falar com o trio, provavelmente Harry já havia contado sobre o incidente então resolvi sentar ao lado de Luna, Gina e Neville no expresso.
O primeiro dia de aula não teve nada de especial em particular, somente mais matérias e tarefas na qual eu quase cochilava ao ter que realiza-las.
Quando chegou o Profeta Diário, o abri, dei uma espiada na primeira página e fiquei nervosa.
- Quê? - perguntou Rony ao ver meu semblante.
Em resposta, abri o jornal na mesa diante dos garotos e apontei para dez fotografias em preto e branco que ocupavam toda a primeira página, nove caras de bruxos e, a décima, de uma bruxa. Alguns deles zombavam em silêncio; outros tamborilavam os dedos nas molduras dos retratos, com insolência. Cada foto trazia uma legenda com um nome e o crime pelo qual a pessoa fora mandada para Azkaban.
Antônio Dolohov, informava a legenda sob o bruxo com o rosto pálido e torto que sorria troçando, condena do pelo brutal homicídio de Gideão e Fábio Prewett. Augusto Rookwood, lia-se sob a foto do homem com o rosto marcado por bexigas e os cabelos oleosos, que se apoiava na borda da foto com ar de tédio, condenado por passar Àquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado segredos do Ministério da Magia. Mas meu olhar foi atraído para a foto da bruxa. Seu rosto se destacara no momento em que ele vira a página. Tinha longos cabelos escuros que pareciam malcuidados e desgrenhados, embora ele os tivesse visto sedosos, espessos e brilhantes. Ela o encarou sob as pesadas pálpebras, um sorriso arrogante e desdenhoso brincando em seus lábios. Belatriz Lestrange, condenada pela tortura e incapacitação permanente de Franco e Alice Longbottom.
Hermione cutucou Harry e apontou para a manchete no alto das fotos, que ele, concentrado em Belatriz, ainda não lera.
FUGA EM MASSA EM AZKABAN MINISTÉRIO TEME QUE BLACK SEJA O "PONTO DE REUNIÃO" PARA ANTIGOS COMENSAIS DA MORTE
- Black?! - exclamou Harry em voz alta. - Não...?
- Psiu! - sussurrei desesperada. - Não fale tão alto... só leia!
O Ministério da Magia anunciou à noite passada que houve uma fuga em massa em Azkaban. Em entrevista aos repórteres em seu gabinete, Cornélio Fudge, ministro da Magia, confirmou que dez prisioneiros de segurança máxima escaparam no início da noite de ontem, e que ele já informou ao primeiro-ministro dos trouxas a natureza perigosa dos fugitivos. "Nós nos encontramos, infelizmente, na mesma posição de dois anos e meio atrás quando o assassino Sirius Black fugiu", comentou Fudge. "E achamos que as duas fugas estão relacionadas. Uma fuga nessa escala aponta para ajuda externa, e devemos nos lembrar que Black, a primeira pessoa a escapar de Azkaban, estaria em posição ideal para ajudar outros a seguirem seus passos. Cremos que muito provavelmente esses indivíduos, entre os quais se inclui a prima de Black, Belatriz Lestrange, se agruparam em torno de Black como seu líder. Estamos, no entanto, envidando todos os esforços para capturar os criminosos, e pedimos à comunidade bruxa que se mantenha alerta e cautelosa. Em nenhuma circunstância devem se aproximar desses indivíduos."
- Não acredito - vociferou Harry. - Fudge está culpando Sirius pela fuga?
- Que outra opção ele tem? - disse Hermione, amargurada. - Não vai poder dizer: "Desculpe, pessoal, Dumbledore me avisou que isto poderia acontecer, os guardas de Azkaban se uniram a Voldemort", pare de choramingar, Rony, "e agora seus piores seguidores também fugiram." Quero dizer, ele passou uns seis meses anunciando para todo o mundo que você e Dumbledore eram mentirosos, não?
Por mais difícil admitir que Hermione estava certa, Fudge jamais admitiria um erro desses.
Simas se levantou e falou a Harry.
-Eu queria pedir desculpas, agora até minha mãe diz que a versão do profeta não faz sentido... o que estou querendo dizer é que, acredito em você.
Harry apenas deu um pequeno sorriso e aceitou as desculpas do amigo que voltara a sentar ao lado de Neville.
Ergui os olhos para a mesa dos professores. Ali, a situação era diferente: Dumbledore e a Prof.ª McGonagall conversavam absortos, ambos parecendo extremamente sérios. A Prof.ª Sprout apoiara o Profeta Diário em um vidro de ketchup e lia a primeira página com tal concentração que nem reparava nos pingos de gema de ovo que caíam em seu colo da colher que segurava no ar. Entrementes, na extremidade da mesa, a Prof.ª Umbridge comia com entusiasmo sua tigela de mingau de aveia. Uma vez na vida seus empapuçados olhos de sapo não estavam varrendo o Salão Principal à procura de alunos malcomportados. Engolia o mingau com ar aborrecido, e de vez em quando lançava um olhar malévolo para o lado da mesa em que Dumbledore e McGonagall conversavam tão concentrados.
Na manhã seguinte à fuga de Azkaban.
POR ORDEM DA ALTA INQUISIDORA DE HOGWARTS
Doravante, os professores estão proibidos de passar informações aos estudantes que não estejam estritamente relacionadas com as disciplinas que são pagos para ensinar.
A ordem acima está de acordo com o Decreto Educacional Número Vinte e Seis
Assinado: Dolores Joana Umbridge, Alta Inquisidora
Este último decreto fora tema de um grande número de piadas entre os alunos. Lino Jordan e eu havíamos lembrado a Umbridge que, pelos termos da nova lei, ela não podia ralhar com Fred e Jorge por brincarem com Snap Explosivo no fundo da sala.
- Snap Explosivo não tem relação alguma com Defesa Contra as Artes das Trevas, professora! Não é uma informação pertinente à sua disciplina!
Da vez seguinte que encontrei Lino, as costas de uma das mãos do amigo sangravam muito. Recomendei essência de murtisco, já que estava com as mesmas marcas da punição.
Parecia que Umbridge estava constantemente privando-o de tudo que fazia sua vida em Hogwarts valer a pena: as visitas à casa de Hagrid, as cartas de Sirius, sua Firebolt e o quadribol. Me vinguei da única maneira que sabia - redobrando seus esforços na AD.
Harry ficou satisfeito de constatar que todos, até mesmo Zacarias, tinham se sentido incentivados a trabalhar com mais vigor que nunca ao saberem que mais dez Comensais da Morte estavam agora soltos. Mas em ninguém essa melhoria foi mais pronunciada do que em Neville. A notícia da fuga dos atacantes dos seus pais produzira nele uma alteração estranha e até ligeiramente assustadora. Nunca comentara a fuga de Belatriz e dos colegas torturadores. De fato, Neville quase não falava mais durante as reuniões da AD, trabalhava sem descanso em cada nova azaração e contra-azaração que Harry ensinava, seu rosto gorducho contorcido de concentração, aparentemente insensível aos ferimentos ou acidentes, se esforçando mais do que qualquer outro na sala. Estava melhorando tão depressa que chegava a assustar, e quando Harry lhes ensinou o Feitiço Escudo - um meio de desviar pequenos feitiços e fazê-los ricochetear contra o atacante - somente Hermione dominou o feitiço mais depressa do que Neville.
No dia 14 de fevereiro Hermione estranhamente me chamou para encontrá-la em Hogmeade. Quando cheguei ela pediu para que esperássemos Harry, foi quando notei que a Luna Lovegood e ninguém menos que Rita Skeeter, ex-jornalista do Profeta Diário e uma das pessoas de quem Hermione menos gostava no mundo também estava presente. Hermione puxou a cadeira para abrir espaço para ele sentar.
- Pensei que estivesse com a Cho, só esperava você daqui a uma hora!
- Cho?! - exclamou Rita na mesma hora, se virando na cadeira para encarar Harry com avidez. - Uma garota?
Ela agarrou a bolsa de couro de crocodilo e procurou alguma coisa dentro.
- Não é da sua conta se Harry estava com cem garotas - disse Hermione a Rita calmamente. - Então pode guardar isso agora mesmo.
Rita já ia tirando uma pena verde ácido da bolsa. Fazendo cara de quem fora obrigada a engolir Palha-fede, ela tornou a fechar a bolsa com um estalo.
- Que é que vocês estão tramando? - perguntou Harry, sentando-se e olhando de Rita para Luna e desta para Hermione.
- A Srta. Perfeição ia me dizer quando você chegou - disse Rita tomando um grande gole de sua bebida. - Imagino que eu tenha permissão de falar com ele, não? - disparou contra Hermione.
- Imagino que sim - respondeu a outra com frieza.
O desemprego não fazia bem a Rita. Seus cabelos, que antigamente eram penteados com cachos caprichosos, agora caíam lisos e malcuidados em torno do rosto. A tinta escarlate nas garras de cinco centímetros estava lascada e faltavam umas pedrinhas nos seus óculos de asas. Ela tomou outro grande gole e perguntou a Harry pelo canto da boca:
- É uma garota bonita, Harry?
- Mais uma palavra sobre a vida amorosa de Harry e o trato está desfeito, eu juro - disse Hermione, irritada.
- Que trato? - perguntou Rita, enxugando a boca com as costas da mão. - Você ainda não tinha falado em trato, Srta. Certinha, só me disse para aparecer. Ah, um dia desses... - Ela inspirou profundamente estremecendo.
- Sei, sei, um dia desses você vai escrever mais histórias horrorosas sobre Harry, eu ou a Lu. - retorquiu Hermione com indiferença. - Procure alguém que se interesse, por que não faz isso?
- Publicaram muitas histórias horrorosas sobre Harry este ano sem a minha ajuda - retrucou Rita, olhando-o enviesado por cima dos óculos e acrescentando num sussurro rouco. - Como foi que você se sentiu, Harry? Traído? Incompreendido?
- Harry sente raiva, é claro - respondeu Hermione com a voz dura e clara. - Porque ele disse a verdade ao ministro da Magia e o ministro é idiota demais para acreditar.
- Então você na realidade continua a afirmar que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado retornou? - perguntou Rita, baixando o copo e submetendo Harry a um olhar penetrante, enquanto seu dedo procurava ansiosamente o fecho da bolsa de crocodilo. - Você sustenta todas as bobagens que Dumbledore tem dito sobre Você-Sabe-Quem ter retornado e você ser a única testemunha?
- Eu não fui a única testemunha - vociferou Harry. - Havia mais de uma dúzia de Comensais da Morte presentes. Quer saber o nome deles?
- Adoraria saber - sussurrou Rita, agora tornando a mexer na bolsa, sem tirar os olhos de Harry como se o garoto fosse a coisa mais bonita que ela já vira. Uma enorme manchete: "Potter acusa..." Um subtítulo "Harry Potter cita os nomes dos Comensais da Morte entre nós". E embaixo uma bela fotografia "Adolescente perturbado que sobreviveu a um ataque de Você-Sabe-Quem, Harry Potter, 15 anos, provocou indignação ontem ao acusar membros respeitáveis e destacados da comunidade bruxa de serem Comensais da Morte..."
A Pena de Repetição Rápida já estava na mão da repórter e a meio caminho da boca, quando a expressão arrebatada em seu rosto se desfez.
- Mas, naturalmente - disse baixando a pena e fuzilando Hermione com o olhar -, a Srta. Perfeição não iria querer ver essa história divulgada, não?
- Na verdade - disse Hermione com meiguice -, é exatamente o que a Srta. Perfeição deseja.
Rita arregalou os olhos para Hermione. E Harry também. Luna, por outro lado, cantarolou baixinho como se sonhasse "Weasley é nosso rei", e mexeu sua bebida com uma cebola de coquetel na ponta de um palito.
- Você quer que eu noticie o que ele diz a respeito de Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado? - perguntou Rita a Hermione em tom abafado.
- Quero. A história verdadeira. Todos os fatos. Exatamente como Harry os conta. Ele lhe dará todos os detalhes, lhe dirá os nomes dos Comensais da Morte não conhecidos do público que ele viu lá, lhe dirá que aparência tem Voldemort agora; ah, controle-se - acrescentou com desdém, atirando o guardanapo sobre a mesa, pois, ao som do nome de Voldemort, Rita se assustara tanto que derramara metade do copo de uísque de fogo na roupa.
Rita enxugou a frente da capa de chuva encardida, ainda encarando Hermione. Então disse capengamente:
- O Profeta não publicaria isso. Caso você não tenha notado, ninguém acredita nessa conversa fiada. Todos acham que ele é delirante. Agora, se você me deixar escrever a notícia daquele ângulo...
- Não precisamos de outra notícia contando como foi que Harry ficou biruta! - exclamou Hermione, zangada. - Já lemos muitas dessas, muito obrigada! Quero que ele tenha a oportunidade de contar a verdade!
- Não há mercado para uma notícia dessas - respondeu Rita com frieza.
- Você quer dizer que o Profeta não publicará porque Fudge não vai deixar - disse Hermione, irritada.
Rita lançou a Hermione um olhar longo e duro. Então, curvando-se sobre a mesa se dirigiu à garota em tom objetivo.
- Muito bem, Fudge está ameaçando o Profeta, o que dá no mesmo. O jornal não vai publicar uma reportagem favorável a Harry. Ninguém quer lê-la. É contra o sentimento público. Essa última fuga de Azkaban já deixou as pessoas bem preocupadas. Ninguém quer acreditar que Você-Sabe-Quem retornou.
- Então o Profeta Diário existe para dizer às pessoas o que elas querem ouvir, é isso? -perguntou Hermione criticamente.
Rita tornou a se endireitar, as sobrancelhas erguidas, e virou seu copo de Uísque de Fogo.
- O Profeta existe para vender exemplares, sua tolinha - disse com frieza.
- Meu pai acha que é um péssimo jornal - comentou Luna, entrando inesperadamente na conversa. Chupando a cebolinha do seu coquetel, ela fixou em Rita seus olhos enormes, protuberantes, ligeiramente alucinados. - Meu pai divulga notícias importantes que acha que o público quer ler. Não está interessado em ganhar dinheiro.
Rita olhou depreciativamente para Luna.
- Dá para adivinhar que seu pai publica um jornaleco idiota de interior, não é? Provavelmente Vinte e Cinco Maneiras de se Misturar com os Trouxas e as datas dos próximos bazares.
Fechei o punho irritada quase ao ponto de soca-la.
- Não - respondeu Luna, tornando a mergulhar a cebolinha na água de gilly -, ele é o editor do Pasquim.
Rita soltou um bufo tão alto que as pessoas nas mesas próximas olharam assustadas.
- Notícias importantes que ele acha que o público deve saber, hein? - fulminou. - Eu poderia estrumar o meu jardim com o conteúdo daquele trapo.
- Bom, então esta é a sua chance de melhorar o conteúdo da revista, não? - sugeriu Hermione com gentileza. - Luna diz que o pai dela ficaria muito contente em fazer uma entrevista com Harry. Ele é quem irá publicá-la.
Rita encarou as garotas por um momento, então soltou gargalhadas.
- O Pasquim! - exclamou com um cacarejo. - Vocês acham que as pessoas vão levar Harry a sério se ele aparecer no Pasquim!
- Algumas pessoas não - disse Hermione com a voz controlada. - Mas a versão que o Profeta publicou da fuga de Azkaban tinha furos enormes. Acho que muita gente deverá estar se perguntando se não há uma explicação melhor para o que aconteceu, e se há uma história alternativa, mesmo que seja publicada por um... - olhou para mim de esguelha - em um... bom, uma revista incomum... acho que essa gente poderia gostar de lê-la.
Rita ficou em silêncio por algum tempo, mas mirou Hermione astutamente, a cabeça um pouco inclinada para um lado.
- Tudo bem, vamos dizer por um momento que eu aceite - disse subitamente. - Que tipo de remuneração vou receber?
- Acho que papai não chega exatamente a pagar as pessoas para escreverem para a revista - disse. - Escrevem porque é uma honra e, naturalmente, para ver o nome delas em letra de imprensa.
A cara de Rita Skeeter ao se virar para Hermione era de quem achou outra vez forte o gosto do Palha-fede na boca.
- É para eu fazer isso de graça?
- Bom, é - disse Hermione calmamente, tomando um golinho da bebida. - Do contrário, como você já sabe, informarei às autoridades que você nunca se registrou como animago. Naturalmente, o Profeta Diário talvez lhe pague um bom cachê por uma reportagem em primeira mão da vida em Azkaban.
Pela reação pareceu que nada daria mais prazer a Rita do que agarrar a sombrinha de papel que saía da bebida de Hermione e enfiá-la pelo nariz da garota adentro.
- Suponho que não tenha outra opção, não é? - disse com a voz ligeiramente trêmula. Abriu, então, a bolsa de crocodilo mais uma vez, apanhou um pergaminho e ergueu a Pena de Repetição Rápida.
- Papai vai ficar satisfeito - disse animada. Um músculo tremeu no queixo de Rita.
- O.k., Harry? - perguntou Hermione, virando-se para o garoto. - Pronto para contar a verdade ao público?
- Suponho que sim - disse Harry observando Rita pôr em posição a Pena de Repetição Rápida sobre o pergaminho que os separava.
- Então, pode começar, Rita - disse Hermione serenamente, pescando uma cereja do fundo do copo.
Disse a eles vagamente que não sabia quando a entrevista de Harry com Rita apareceria no Pasquim, pois meu pai estava esperando um longo e interessante artigo sobre as recentes aparições de Bufadores de Chifre Enrugado, e, naturalmente, seria uma história muito importante, então a entrevista de Harry talvez tivesse de aguardar o próximo número. Rita extraiu dele cada mínimo detalhe e ele lhe passou tudo que lembrava, sabendo que era uma grande oportunidade de contar a verdade para o mundo. Perguntava-me como as pessoas reagiriam.
- Mal posso esperar para ver o que a Umbridge pensa de você falar publicamente - comentou Dino, parecendo assombrado no jantar de segunda-feira à noite. Simas despejava goela abaixo grandes garfadas de torta de frango com presunto, sentado do outro lado de Dino, mas sabia que ele estava escutando.
- É o certo, Harry - disse Neville, sentado defronte. Estava muito pálido, mas continuou em voz baixa. - Deve ter sido... dureza... falar disso... não foi?
- Foi - balbuciou Harry -, mas as pessoas precisam saber do que Voldemort é capaz, não?
- Com certeza - disse Neville concordando com a cabeça -, e os Comensais da Morte também... as pessoas precisam saber...
Neville deixou a frase no ar e voltou a atenção para sua batata assada. Transcorrido algum tempo, Dino, Simas e Neville saíram para a sala comunal, deixando Harry, eu e Hermione à mesa esperando por Rony. Cho Chang entrou no salão com a amiga Marieta, a garota não olhou para a mesa da Grifinória, e se sentou de costas para ele.
No dia seguinte fui Salão Principal para tomar o café da manhã exatamente na hora em que as corujas chegavam com o correio na segunda-feira. Pelo visto o Potter não parece mais tão chateado comigo, talvez eu ter ajudado com a revista tenha o acalmado, agora conversamos normalmente, porem evito mencionar Sirius a ele. Hermione não era a única pessoa que esperava ansiosa pelo Profeta Diário: quase todos ansiavam por ler mais notícias sobre os Comensais da Morte fugitivos, que, apesar de avistados várias vezes, ainda não tinham sido recapturados. Ela pagou à coruja o nuque da entrega e desdobrou o jornal depressa enquanto Harry se servia de suco de laranja.
- Quem é que você está procurando? - perguntou ele, puxando languidamente o seu suco debaixo do bico da ave e se curvando para verificar o nome e o endereço do destinatário:
Harry Potter
Salão Principal
Escola de Hogwarts
Enrugando a testa, ele fez menção de tirar a carta da coruja, mas, antes que o fizesse, mais três, quatro, cinco corujas pousaram ao lado da primeira e procuraram uma posição, pisando na manteiga, derrubando o saleiro, tentando entregar a carta antes das outras.
- Que é que está acontecendo? - indagou Rony espantado, quando a mesa da Grifinória inteira se inclinou para olhar, e outras sete corujas pousaram entre as primeiras, berrando, piando e batendo as asas.
- Harry! - disse Hermione sem fôlego, enfiando as mãos naquele ajuntamento de penas e retirando uma coruja-das-torres que trazia um embrulho comprido e cilíndrico. - Acho que sei o que significa isso: abra este aqui primeiro!
Harry abriu o embrulho pardo. Dele rolou um exemplar compactamente dobrado da edição de março do Pasquim. Ele o desenrolou e viu o próprio rosto sorrindo acanhado para ele na capa da revista. Enormes letras vermelhas atravessadas na foto anunciavam:
HARRY POTTER ENFIM REVELA: A VERDADE SOBRE AQUELE-QUE-NÃO-DEVESER-NOMEADO E A NOITE EM QUE VIU O SEU RETORNO
- Parece bom, não? - comentei agora me apertando no banco entre Fred e Rony. - Saiu ontem, pedi ao papai para lhe mandar um exemplar de cortesia. Imagino que tudo isso - acenei abarcando as corujas que se empurravam sobre a mesa diante de Harry - sejam cartas dos leitores.
- Foi o que pensei - disse Hermione, ansiosa. - Harry você se importa se a gente...?
- Sirvam-se - respondeu ele, parecendo um pouco confuso.
Rony e Hermione começaram a abrir os envelopes.
- Esta é de um cara que acha que você pirou - disse Rony correndo os olhos pela carta. -Ah, bom...
- Esta mulher aqui recomenda que você experimente uma série de Feitiços de Choque no St. Mungus - disse Hermione, parecendo desapontada e amassando uma segunda.
- Mas esta aqui parece o.k. - disse Harry lentamente, lendo uma longa carta de uma bruxa em Paisley. - Ei, ela diz que acredita em mim!
- Este aqui está dividido - disse Fred, que se juntara com entusiasmo à tarefa de abrir as cartas. - Diz que você não passa a impressão de ser maluco, mas que ele realmente não acredita que Você-Sabe-Quem tenha retornado, então, agora não sabe o que pensar. Caracas, que desperdício de pergaminho.
- Tem um aqui que você convenceu, Harry! - Falei alegre. - "Tendo lido a sua versão da história, sou forçado a concluir que o Profeta Diário tem sido injusto com você... por menos que eu queira pensar que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado retornou, sou forçado a aceitar que você está falando a verdade" Ah, é maravilhoso!
- Outra acha que você está só ladrando - disse Rony atirando a carta que amassara por cima do ombro - ... mas esta outra diz que você a converteu e ela agora acha que você é um verdadeiro herói: e manda junto uma foto, uau!
- Que é que está acontecendo aqui? - perguntou uma voz falsamente meiga e infantil. Harry ergueu a cabeça com as mãos cheias de envelopes. A Prof. Umbridge estava em pé atrás de Rony e Luna, seus olhos de sapo esbugalhados esquadrinhando a confusão de corujas e cartas em cima da mesa diante de Harry. Às suas costas, ele viu muitos alunos observando-os com avidez.
- Por que recebeu todas essas cartas, Sr. Potter? - perguntou ela lentamente.
- Isso agora é crime?! - exclamou Fred em voz alta. - Receber cartas?
- Cuidado, Sr. Weasley, ou será que terei de lhe dar uma detenção? - disse Umbridge. - Então, Sr. Potter?
Harry hesitou, mas não via como poderia abafar o que fizera; agora era apenas uma questão de tempo até um exemplar do Pasquim chegar à atenção de Umbridge.
- As pessoas estão me escrevendo porque dei uma entrevista. Sobre o que me aconteceu em junho passado.
Por alguma razão ele olhou para a mesa dos professores ao dizer isso.
- Uma entrevista? - repetiu Umbridge, sua voz mais fina e aguda que nunca. - Como assim?
- Uma repórter me fez perguntas e eu respondi - disse Harry. - Aqui...
E atirou à professora o exemplar do Pasquim. Ela o apanhou e arregalou os olhos para a capa. Seu rosto, cor de massa de pão, ficou malhado de violeta.
- Quando foi que você fez isso? - perguntou ela, sua voz ligeiramente trêmula.
- No último fim de semana em Hogsmeade.
Ela o encarou, incandescente de fúria, a revista tremendo em seus dedos curtos e grossos.
- Não haverá mais passeios a Hogsmeade para o senhor, Sr. Potter - sussurrou ela. - Como se atreveu... como pôde... - Ela tomou fôlego. - Tenho tentado repetidamente ensinar você a não contar mentiras. A mensagem, pelo visto, ainda não entrou em sua cabeça. Cinquenta pontos a menos para a Grifinória e mais uma semana de detenções.
Ela se afastou, apertando o exemplar do Pasquim contra o peito, seguida pelos olhares de muitos alunos.
No meio da manhã, enormes avisos haviam sido afixados por toda a escola, não apenas nos quadros das Casas, mas nos corredores e salas de aula também.
POR ORDEM DA ALTA INQUISIDORA DE HOGWARTS
O estudante que for encontrado de posse da revista O Pasquim será expulso.
A ordem acima está de acordo com o Decreto Educacional Número Vinte e Sete.
Assinado: Dolores Joana Umbridge, Alta Inquisidora
Toda as vezes que avistava um desses avisos meu rosto se iluminava de prazer.
- Com que é, exatamente, que você está tão satisfeita? - perguntou-me Harry.
- Ah, Harry, você não está vendo? - sussurrei ao menino. - Se ela quisesse fazer uma única coisa para garantir que todo aluno da escola lesse a sua entrevista, era exatamente proibir sua leitura!
E parece que tinha toda a razão. Até o fim do dia, embora não tivesse visto nem um pedacinho do Pasquim em lugar algum da escola, todos pareciam estar citando a entrevista uns para os outros. Os ouviu cochichando nas filas às portas das salas de aulas, discutindo-a no almoço e no fundo das salas, e Hermione chegou a contar que as meninas que estavam usando os boxes nos banheiros falavam nisso quando ela passou por lá antes da aula de Runas Antigas.
- Então elas me viram, e obviamente sabem que sei, então me bombardearam com perguntas - contou Hermione a Harry, com os olhos brilhando -, e Harry, acho que elas acreditam em você, realmente, acho que enfim você as convenceu!
Entrementes, a Prof.ª Umbridge rondava a escola, parando alunos e mandando-os mostrar os livros e os bolsos. Sabia que a professora procurava exemplares do Pasquim, mas os estudantes estavam muito à frente dela. As páginas que continham a entrevista de Harry tinham sido reformatadas por meio de feitiços para parecer cópias de livros-texto se mais alguém as lesse, ou apagadas por magia até que seus donos quisessem tornar a lê-las. Logo pareceu que todo o mundo na escola vira a entrevista.
E, para coroar, Luna lhe disse ao jantar que nunca uma tiragem do Pasquim se esgotara tão rápido.
- Papai vai fazer uma segunda tiragem! - contou ela a Harry, com os olhos arregalados de excitação. - Ele nem consegue acreditar, diz que as pessoas parecem ainda mais interessadas na entrevista do que nos Bufadores de Chifre Enrugado!
Harry foi herói na sala comunal da Grifinória àquela noite. Atrevidos, Fred e Jorge tinham lançado um Feitiço Ampliador na capa do Pasquim e a penduraram na parede, para que a cabeça gigantesca de Harry contemplasse os colegas do alto e ocasionalmente dissesse frases do tipo: O MINISTÉRIO É RETARDADO e COMA BOSTA, UMBRIDGE em voz ressonante. Hermione não achou isso muito divertido; disse que interferia com sua concentração e acabou indo se deitar cedo, irritada. Harry teve de admitir que o cartaz perdeu a graça uma ou duas horas depois, principalmente quando o Feitiço da Fala começou a se desgastar e se ouviam apenas palavras desconexas como "BOSTA" e "UMBRIDGE", a intervalos sempre mais frequentes, em um tom progressivamente mais alto.
Nos dias que se passaram finalmente tínhamos começado a trabalhar o Patrono, que todos queriam muito praticar, embora Harry não parasse de lembrar a todos da AD que produzir um Patrono no meio de uma sala de aula iluminada quando ninguém os ameaçava era muito diferente de produzi-lo quando estivessem enfrentando, por exemplo, um Dementador.
Cho, animada, apreciando o seu Patrono em forma de cisne prateado voar pela Sala Precisa durante a última aula antes da Páscoa. - Eles são tão bonitos!
- Eles não têm de ser bonitos, têm é que proteger você - disse Harry, paciente. - O que realmente precisamos é de um bicho-papão ou coisa parecida; foi assim que aprendi, tinha de conjurar o Patrono enquanto o bicho-papão fingia ser um Dementador...
- Mas isso seria realmente apavorante! - exclamou Lilá, que soltava baforadas de vapor prateado pela ponta da varinha. - E ainda não... consigo... fazer! - completou ela com raiva.
Neville estava encontrando dificuldade também. Seu rosto se contraía ao se concentrar, mas apenas tênues fiapinhos de fumaça prateada saíam da ponta de sua varinha.
- Você tem de pensar em alguma coisa feliz - Harry lembrava ao garoto.
- Estou tentando - disse Neville, infeliz, cujo empenho era tanto que seu rosto redondo chegava a brilhar de suor.
- Harry, acho que estou conseguindo! - berrou Simas, que fora trazido por Dino à sua primeira reunião da AD. - Olha... ah... desapareceu... mas era decididamente alguma coisa peluda, Harry!
O Patrono de Hermione, uma reluzente lontra prateada, brincava à sua volta.
- Eles são bonitinhos, não são? - comentou ela, olhando-o com carinho.
Quando fui tentar fazer pela terceira vez o feitiço, a luz prateada saiu e se transformou em um... cachorro. Quando o vi me fez lembrar de Sirius, a tempos que não nos falamos, porém é muito arriscado agora com tudo isso do pasquim... encarei Harry que parecia ter se lembrado do padrinho também quando viu meu patrono. Fico sem graça e desvio o olhar.
A porta da Sala Precisa se abriu e fechou. Harry se virou para ver quem entrara, mas não parecia haver ninguém. Passou-se um momento até ele perceber que as pessoas próximas à porta haviam se calado. No instante seguinte, alguma coisa puxava suas vestes na altura do joelho. Ele olhou e viu, para seu grande espanto, Dobby, o elfo doméstico, mirando-o por baixo dos seus oito gorros de lã habituais.
- Oi, Dobby! Que é que você... Que aconteceu?
Os olhos do elfo se arregalavam de terror e ele tremia. Os participantes da AD mais próximos de Harry tinham se calado; todos observavam Dobby. Os poucos Patronos que as pessoas tinham conseguido conjurar desapareceram em fumaça prateada, deixando a sala bem mais escura do que antes.
- Harry Potter, meu senhor... - esganiçou-se o elfo, tremendo da cabeça aos pés. - Harry Potter, meu senhor... Dobby veio avisar... mas os elfos foram avisados para não contar...
- Que aconteceu, Dobby? - perguntou Harry, agarrando o bracinho do elfo e mantendo-o afastado de qualquer coisa que ele pudesse encontrar para se machucar.
- Harry Potter... ela... ela...
Dobby deu um forte soco no nariz com o punho livre. Harry agarrou-o também.
- Quem é "ela", Dobby?
Mas ele achava que sabia; certamente só havia uma "ela" capaz de induzir tal pavor em Dobby. O elfo ergueu os olhos, ligeiramente vesgo, e pronunciou silenciosamente.
- Umbridge? - perguntou Harry, horrorizado.
Dobby confirmou, e em seguida tentou bater a cabeça nos joelhos de Harry. O garoto o segurou à distância dos braços.
- Que tem a Umbridge? Dobby... ela não descobriu isso... nós... a AD?
Ele leu a resposta no rosto aflito do elfo. Com as mãos presas por Harry, ele tentou se chutar e caiu de joelhos.
- Ela está vindo? - perguntou Harry calmamente.
Dobby deixou escapar um uivo.
- Está, Harry Potter, está!
Harry se endireitou e olhou para os colegas, imóveis e aterrorizados, que contemplavam o elfo a se debater.
- QUE É QUE VOCÊS ESTÃO ESPERANDO! - berrou Harry. - CORRAM!
Todos se arremessaram para a saída na mesma hora, embolando na porta, então passaram num ímpeto. Harry ouviu-os correndo pelos corredores e desejou que tivessem o bom-senso de não tentar ir direto para os dormitórios. Eram apenas dez para as nove; se ao menos se refugiassem na biblioteca ou no corujal, que eram mais próximos...
- Harry, anda logo! - gritou Hermione em meio ao bolo de gente que se empurrava para sair. Ele pegou Dobby, que continuava tentando se machucar seriamente, e correu com o elfo nos braços para o fim da fila.
- Dobby, isto é uma ordem, volte para a cozinha com os outros elfos e, se ela perguntar se você me avisou, minta e diga que não! E proíbo você de se machucar! - acrescentou, largando o elfo no chão quando finalmente cruzou o portal e bateu a porta.
- Obrigado, Harry Potter - disse Dobby com a sua vozinha esganiçada, e afastou-se desabalado.
Eu corri para o banheiro feminino a fim de disfarçar, porem a Pensy me tirou de lá me levando até a sala de Dumbledore junto da vaca rosa.
A sala estava cheia de gente. Dumbledore encontrava-se à escrivaninha, a expressão serena, as pontas dos longos dedos juntas. A Profa. McGonagall empertigada ao seu lado, o rosto extremamente tenso. Cornélio Fudge, ministro da Magia, se balançava para a frente e para trás sem sair do lugar, ao lado da lareira, pelo visto imensamente satisfeito com a situação; Quim Shacklebolt e um bruxo com uma carranca e cabelos muito curtos e crespos, que não reconheci, estavam postados de cada lado da porta como guardas, e a figura de sardas e óculos de Percy Weasley pairava excitada junto à parede, uma pena e um pesado rolo de pergaminho nas mãos, aparentemente preparado para tomar notas. Os retratos dos velhos diretores e diretoras não estavam fingindo dormir esta noite. Estavam atentos e sérios, observando o que acontecia embaixo. Quando Harry entrou, alguns fugiram para quadros vizinhos e cochicharam com urgência aos ouvidos dos colegas. Harry se desvencilhou do aperto de Umbridge quando a porta se fechou. Cornélio Fudge o olhou com uma espécie de maligna satisfação no rosto.
- Ora! - exclamou. - Ora, ora, ora...
Harry respondeu com o olhar mais sujo que conseguiu dar. Meu coração batia descontrolado no peito, mas o cérebro estava estranhamente claro e tranquilo.
- Ele estava voltando à Torre da Grifinória - disse Umbridge. Havia uma excitação obscena em sua voz, o mesmo prazer perverso que Harry ouvira quando a Prof.ª Trelawney se desintegrava de infelicidade no Saguão de Entrada. - O menino Malfoy o encurralou.
- Foi mesmo, foi mesmo?! - exclamou Fudge, admirado. - Preciso me lembrar de contar ao Lúcio. Muito bem, Potter... espero que saiba por que estão aqui.
Sua boca abrira e a palavra começara a se formar quando ele percebeu a expressão de Dumbledore. O diretor não olhava diretamente para ele - tinha os olhos fixos em um ponto por cima do seu ombro.
- É... não.
- Como disse? - perguntou Fudge.
- Não - repetiu Harry com firmeza.
- Você não sabe por que estão aqui?
- Não, senhor, não sei.
Fudge olhou incrédulo de Harry para a Prof.ª Umbridge. O garoto se aproveitou da desatenção momentânea para lançar outro olhar rápido a Dumbledore, que deu um aceno mínimo e a sombra de uma piscadela para o tapete.
- Então você não faz ideia - disse o ministro com a voz positivamente pesada de sarcasmo - por que a Profa. Umbridge os trouxe a esta sala? Você não sabe que infringiu o regulamento da escola?
- Regulamento da escola? Não.
- Nem os decretos do Ministério? - acrescentou Fudge, irritado.
- Não que eu tenha consciência - respondeu Harry brandamente.
Meu coração continuava a bater acelerado. Quase valia a pena dizer mentiras para ver a pressão sanguínea de Fudge subir, mas não conseguia ver como iria dizê-las impunemente; se alguém informara a Umbridge sobre a AD, então ele, o líder, poderia começar a arrumar as malas agora mesmo.
- E você menina, sabe o porquê está aqui?
- Não. - Respondi simples tentando fazer uma cara tediosa.
- Então, é novidade para vocês - disse Fudge, sua voz agora pastosa de raiva - que foi descoberta uma organização estudantil ilegal nesta escola?
- É, sim senhor - disse Harry, exibindo um olhar de inocência e de surpresa pouco convincente, assim como eu.
- Acho, ministro - disse Umbridge atrás do garoto com a voz sedosa - que faríamos maior progresso se eu trouxesse a nossa informante.
- É, faça isso - disse Fudge com um aceno, e olhou maliciosamente para Dumbledore quando Umbridge saiu. - Nada como uma boa testemunha, não é, Dumbledore?
- Nada mesmo, Cornélio - concordou Dumbledore gravemente, inclinando a cabeça.
Houve uma espera de vários minutos, em que ninguém se entreolhou, então Harry ouviu a porta se abrir às suas costas. Umbridge entrou e passou por ele segurando pelo ombro a amiga de cabelos crespos de Cho, Marieta, que escondia o rosto nas mãos.
- Não se apavore, querida, não tema - disse a Prof.ª Umbridge com suavidade, dando-lhe palmadinhas nas costas -, está tudo bem agora. Você agiu certo. O ministro está muito satisfeito com você. Dirá à sua mãe que boa menina você foi. A mãe de Marieta, ministro - acrescentou, erguendo os olhos para Fudge -, é Madame Edgecombe, do Departamento de Transportes Mágicos, seção da Rede de Flu, tem nos ajudado a policiar as lareiras de Hogwarts, sabe.
- Muito bom, muito bom! - disse Fudge cordialmente. - Tal mãe, tal filha, eh? Bom, vamos então, querida, erga a cabeça, não seja tímida, vamos ver o que você tem a... gárgulas galopantes!
Quando Marieta ergueu a cabeça, Fudge deu um salto para trás chocado, quase se estatelando na lareira. Em seguida praguejou e sapateou na bainha da capa que começara a fumegar. Marieta deu um guincho e puxou o decote das vestes até os olhos, mas não antes de todos verem que seu rosto estava terrivelmente desfigurado por uma quantidade de pústulas roxas muito juntas que cobriam seu nariz e suas faces formando a palavra "DEDO-DURO".
- Não se incomode com as marcas agora, querida - disse Umbridge, impaciente -, tire as vestes de cima da boca e conte ao ministro.
Mas Marieta soltou outro guincho abafado e sacudiu a cabeça freneticamente.
- Ah, muito bem, sua tolinha, eu contarei - disse Umbridge com rispidez. Tornando a refazer o sorriso doentio no rosto, disse: - Bom, ministro, a Srta. Edgecombe aqui veio à minha sala pouco depois do jantar hoje à noite e me disse que queria me contar uma coisa. Contou que se eu fosse a uma sala secreta no sétimo andar, às vezes conhecida como Sala Precisa, eu descobriria algo que me interessaria. Fiz-lhe mais algumas perguntas, e ela admitiu que haveria uma reunião ali. Infelizmente, naquela altura, a azaração - ela acenou impaciente para o rosto escondido de Marieta - produziu efeito, e, ao ver seu rosto no meu espelho, a menina ficou aflita demais para me fornecer maiores detalhes.
- Bom, agora - disse Fudge, fixando Marieta com o que evidentemente imaginava que fosse um olhar paternal -, é muita coragem sua, querida, ir contar à Prof.ª Umbridge. Você agiu certo. Agora, pode me dizer o que aconteceu na reunião? Qual era a finalidade? Quem mais estava presente?
Mas Marieta não quis falar; meramente tornou a sacudir a cabeça, os olhos muito abertos e receosos.
- Você não tem uma contra-azaração para isso? - perguntou Fudge a Umbridge, impaciente, indicando o rosto de Marieta. - Para ela poder falar livremente?
- Ainda não consegui descobrir uma - admitiu Umbridge a contragosto, e senti um assomo de orgulho pelas habilidades de Hermione em azaração. - Mas não faz diferença se ela não quiser falar, eu posso continuar a história a partir deste ponto. O senhor deve se lembrar, ministro, que lhe enviei um relatório em outubro informando que Potter se encontrara com vários colegas no Cabeça de Javali, em Hogsmeade...
- E qual é a sua prova disso? - interrompeu-a a Prof.ª McGonagall.
- Tenho o testemunho de Willy Widdershins, Minerva, que por acaso estava no bar naquela ocasião. Usava muitas bandagens, é verdade, mas sua audição estava perfeita - disse Umbridge cheia de si. - Ele ouviu cada palavra que Potter disse e veio direto à escola me relatar...
- Ah, então foi por isso que ele não foi processado por ter feito todos aqueles vasos sanitários regurgitarem! - exclamou a Prof.ª McGonagall, erguendo as sobrancelhas. - Que visão interessante do nosso sistema judiciário!
- Corrupção descarada! - bradou o retrato de um corpulento bruxo de nariz vermelho na parede atrás da escrivaninha de Dumbledore. - No meu tempo o Ministério não negociava com criminosos baratos, não, senhor, não negociava!
- Obrigado, Fortescue, já chega - disse Dumbledore suavemente.
- A finalidade do encontro de Potter com esses estudantes - continuou a Umbridge - era persuadi-los a formar uma sociedade ilegal, com o fito de aprender feitiços e maldições que o Ministério declarou inadequados para a idade escolar...
- Acho que você vai descobrir que está enganada, Dolores - disse Dumbledore calmamente, espiando por cima dos oclinhos de meia-lua encarrapitados no meio do nariz adunco.
Não entendia como é que Dumbledore ia livra-nos dessa; se Willy Widdershins tivesse de fato ouvido tudo que eles dissera no Cabeça de Javali, simplesmente não haveria escapatória.
- Oho! - exclamou Fudge, recomeçando a se balançar sobre os pés. - Sim, vamos ouvir a última lorota inventada para tirar Potter de uma confusão! Vamos, então, Dumbledore, vamos... Willy Widdershins estava mentindo, é isso? Ou era o gêmeo idêntico de Potter que estava no Cabeça de Javali naquele dia? Ou a explicação costumeira que envolve a reversão do tempo, um morto que retorna à vida e uns Dementadores invisíveis?
Percy Weasley deixou escapar uma gostosa gargalhada.
- Ah, essa é muito boa, ministro, muito boa!
Eu facilmente poderia ter dado um soco nele. Então vi, para meu espanto, que Dumbledore também sorria gentilmente.
- Cornélio, eu não nego, e tenho certeza de que Harry também não, que ele estivesse no Cabeça de Javali naquele dia, nem que estivesse procurando recrutar estudantes para um grupo de Defesa Contra as Artes das Trevas. Estou apenas dizendo que Dolores está muito enganada de que tal grupo fosse, à época, ilegal. Se você se lembra, o Decreto Educacional que proibiu todas as associações de estudantes só entrou em vigor dois dias depois da reunião de Harry em Hogsmeade, portanto ele não estava infringindo regulamento algum no Cabeça de Javali.
Percy parecia ter sido atingido no rosto por alguma coisa muito pesada. Fudge se imobilizou no meio do seu balanço, boquiaberto.
Umbridge se recuperou primeiro.
- Tudo isso está muito bem, diretor - disse sorrindo meigamente -, mas agora já faz seis meses que o Decreto Número Vinte e Quatro entrou em vigor. Se o primeiro encontro não foi ilegal, todos os que ocorreram depois certamente o são.
- Bom - replicou Dumbledore, estudando-a com educado interesse por cima dos dedos entrelaçados -, eles certamente seriam, se tivessem continuado depois que o decreto entrou em vigor. Você tem alguma prova de que os encontros continuaram?
Enquanto Dumbledore falava, ouvi um rumorejo atrás, e achei que Quim cochichara alguma coisa. Podia jurar, também, que sentira alguma coisa roçar o lado do seu corpo, alguma coisa suave como um sopro ou as asas de um pássaro, mas olhando para baixo não viu nada.
- Prova? - repetiu Umbridge, abrindo aquele sorriso bufonídeo. - Você não esteve prestando atenção, Dumbledore? Por que acha que a Srta. Edgecombe está aqui?
- Ah, e ela pode nos falar dos seis meses de encontros? - perguntou Dumbledore, erguendo as sobrancelhas. - Tive a impressão de que ela estava meramente relatando uma reunião hoje à noite.
- Srta. Edgecombe - disse imediatamente -, conte-nos há quanto tempo essas reuniões vêm acontecendo, querida. Você pode simplesmente acenar ou balançar a cabeça, tenho certeza de que isso não vai piorar as manchas. Elas têm se realizado regularmente nos últimos seis meses?
Senti meu estômago despencar. Era o fim, tinham chegado a uma muralha de provas inegáveis que nem mesmo Dumbledore seria capaz de remover.
- Só precisa acenar ou balançar a cabeça, querida - disse Umbridge, tentando persuadir Marieta. - Vamos, agora, isso não vai reativar a azaração.
Todos na sala olharam para o topo da cabeça da garota. Apenas seus olhos estavam visíveis entre as vestes repuxadas e a franja crespa. Talvez fosse um efeito das chamas, mas seus olhos pareciam estranhamente vidrados. Então Marieta balançou negativamente a cabeça. Umbridge olhou depressa para Fudge, e de novo para Marieta.
- Acho que você não entendeu a pergunta, entendeu, querida? Estou perguntando se você tem ido a essas reuniões nos últimos seis meses? Você tem, não tem?
Mais uma vez, Marieta balançou a cabeça.
- Que é que você quer dizer balançando a cabeça, querida? - perguntou Umbridge impaciente.
- Eu diria que o significado do gesto da menina foi muito claro - disse a Prof.ª McGonagall com aspereza. - Não houve reuniões secretas nos últimos seis meses. Estou certa, Srta. Edgecombe?
Marieta acenou a cabeça afirmativamente.
- Mas houve uma reunião hoje à noite! - exclamou Umbridge, furiosa. - Houve uma reunião, Srta. Edgecombe, a senhorita me falou nela, na Sala Precisa! E Potter era o líder, não era, Potter a organizou, Potter... por que você está balançando a cabeça, menina?
- Bom, normalmente quando uma pessoa balança a cabeça - disse McGonagall friamente - ela quer dizer "não". Então, a não ser que a Srta. Edgecombe esteja usando uma linguagem de sinais ainda desconhecida dos seres humanos...
A Prof.ª Umbridge agarrou Marieta, virou-a de frente e começou a sacudi-la violentamente. Uma fração de segundo depois, Dumbledore estava em pé, a varinha erguida; Quim se adiantou e Umbridge se afastou de Marieta, sacudindo a mão no ar como se tivesse se queimado.
- Não posso permitir que você brutalize os meus estudantes, Dolores - disse Dumbledore e, pela primeira vez, pareceu aborrecido.
- Queira se acalmar, Madame Umbridge - disse Quim com sua voz profunda e lenta. - A senhora não quer se envolver em confusões.
- Não - disse Umbridge, ofegante, erguendo os olhos para a figura imponente de Quim. - Quero dizer, sim, você tem razão, Shacklebolt... eu... eu... perdi a cabeça.
Marieta estava parada exatamente onde Umbridge a largara. Não parecia nem perturbada pelo inesperado ataque da professora nem aliviada por ter sido solta; continuava a segurar as vestes na altura dos olhos vidrados e fixos em algum ponto à sua frente. Uma repentina suspeita, ligada ao cochicho de Quim e à coisa que sentira passar por ele.
- Dolores - disse Fudge, com ar de quem tentava determinar algo de uma vez por todas -, a reunião de hoje à noite... a que sabemos que decididamente se realizou...
- Sim - disse Umbridge, recuperando-se -, sim... bom, a Srta. Edgecombe me informou e eu imediatamente me dirigi ao sétimo andar, acompanhada por certos estudantes dignos de confiança, para apanhar em flagrante os participantes da reunião. Parece, no entanto, que eles foram avisados, porque quando chegamos ao sétimo andar corriam em todas as direções. Mas não faz diferença. Tenho todos os nomes aqui, a Srta. Parkinson entrou na Sala Precisa a meu pedido para ver se haviam esquecido alguma coisa ao sair. Precisávamos de provas e a sala nos forneceu.
E, para horror de Harry, ela puxou do bolso a lista de nomes que Hermione havia prendido na parede da Sala Precisa e entregou-o a Fudge.
- No instante em que vi o nome de Potter na lista, percebi o que tínhamos nas mãos.
- Excelente - disse Fudge, um sorriso se espalhando pelo rosto. - Excelente, Dolores. E.... pelo trovão...
Ele ergueu os olhos para Dumbledore, que continuava parado ao lado de Marieta, segurando a varinha frouxamente na mão.
- Está vendo o nome que escolheram para o grupo? - disse Fudge calmo. - Armada de Dumbledore.
Dumbledore estendeu a mão e apanhou o pergaminho que Fudge segurava. Olhou para o cabeçalho escrito por Hermione meses antes, e por um momento pareceu incapaz de falar.
Então, ergueu a cabeça e sorriu.
- Bom, o plano fracassou - disse com simplicidade. - Quer que eu escreva uma confissão, Cornélio, ou basta uma declaração diante dessas testemunhas?
Vi McGonagall e Quim se entreolharem. Havia medo nos rostos de ambos. Não entendia o que estava acontecendo e, pelo visto, Fudge também não.
- Declaração? - perguntou o ministro lentamente. - Que... eu não...?
- A Armada de Dumbledore, Cornélio - disse Dumbledore, ainda sorrindo ao agitar a lista de nomes diante dos olhos de Fudge. - Não é a Armada de Potter. É a Armada de Dumbledore.
- Mas... mas...
A compreensão iluminou subitamente o rosto de Fudge. Ele recuou um passo, horrorizado, soltou um ganido e pulou outra vez para longe da lareira.
- Você? - sussurrou, sapateando na capa em chamas.
- Isso mesmo - confirmou Dumbledore em tom agradável.
- Você organizou isso?
- Organizei.
- Você recrutou esses estudantes para... para uma armada?
- Hoje à noite seria a primeira reunião - disse Dumbledore, acenando com a cabeça. - Somente para saber se eles estariam interessados em se unir a mim. Vejo agora que obviamente foi um erro convidar a Srta. Edgecombe.
Marieta confirmou com a cabeça. Fudge olhou da garota para Dumbledore, seu peito inchando.
- Então você tem conspirado contra mim! - berrou.
- Isto mesmo - respondeu Dumbledore alegremente.
- NÃO! - gritou Harry.
Quim lançou um olhar de advertência a ele, McGonagall arregalou os olhos ameaçadoramente, mas Harry compreendera de repente o que Dumbledore ia fazer, e não podia deixar isso acontecer.
- Não... Prof. Dumbledore...!
- Fique quieto, Harry, ou receio que terá de sair da minha sala - disse Dumbledore calmamente.
- É, cale-se, Potter! - vociferou Fudge, que continuava a devorar Dumbledore com os olhos com uma espécie de prazer horrorizado. - Ora, ora, ora... vim aqui esta noite esperando expulsar Potter e em vez disso...
- Em vez disso consegue me prender - concluiu Dumbledore, sorridente. - É como perder um nuque e encontrar um galeão, não é mesmo?
- Weasley! - chamou Fudge, agora positivamente tremendo de prazer. - Weasley, você anotou tudo, tudo que ele disse, a confissão, está tudo aí?
- Sim, senhor, penso que sim! - respondeu Percy pressuroso, com o nariz sujo de tinta tal a velocidade com que fizera suas anotações.
- A parte em que diz que está tentando organizar uma armada contra o Ministério, que está trabalhando para me desestabilizar?
- Sim, senhor, anotei, sim, senhor - respondeu Percy verificando as anotações exultante.
- Muito bem, então - disse o ministro, agora irradiando felicidade - reproduza suas notas, Weasley, e mande uma cópia para o Profeta Diário imediatamente. Se despacharmos uma coruja veloz chegará em tempo para a edição matutina! - Percy saiu correndo da sala, batendo a porta ao passar, e Fudge voltou sua atenção para Dumbledore. - Você será agora escoltado ao Ministério, onde será formalmente acusado, e escoltado a Azkaban para aguardar julgamento!
- Ah - disse Dumbledore educadamente -, sim. Sim, achei que chegaríamos a este pequeno transtorno.
- Transtorno?! - exclamou Fudge, a voz vibrando de felicidade. - Não vejo nenhum transtorno, Dumbledore!
- Bom - replicou Dumbledore desculpando-se -, receio dizer que vejo.
- Ah, verdade?
- Bom... parece que você tem a ilusão de que irei... como é mesmo a expressão? Que irei sem fazer barulho. Receio dizer que não vou sem fazer barulho, Cornélio. Não tenho absolutamente a intenção de ser mandado para Azkaban. Eu poderia fugir, é claro, mas que perda de tempo, e francamente, posso pensar em inúmeras coisas que prefiro fazer.
O rosto de Umbridge corava sem parar; parecia que ela estava sendo enchida com água fervendo. Fudge olhou para Dumbledore com uma expressão muito tola no rosto, como se estivesse aturdido por um golpe repentino e não conseguisse acreditar no que estava acontecendo. Teve um pequeno engasgo, depois olhou para Quim e o homem de cabelos curtos e grisalhos, o único na sala que permanecera totalmente em silêncio até então. Este deu a Fudge um aceno de confirmação e se adiantou uns passos, afastando-se da parede. Vi sua mão deslizar, quase displicentemente, em direção ao bolso.
- Não seja bobo, Dawlish - disse Dumbledore em tom bondoso. - Estou certo de que você é um excelente auror, tenho a impressão de que obteve "Excepcional" em todos os seus N.I.E.M.s, mas se tentar... ah... me levar à força terei de machucá-lo. O homem chamado Dawlish piscou meio abobado. Tornou a olhar para Fudge, mas desta vez parecia esperar uma dica sobre o que fazer a seguir.
- Então - caçoou Fudge recuperando-se -, você pretende enfrentar Dawlish, Shacklebolt, Dolores e a mim sozinho, é, Dumbledore?
- Pelas barbas de Merlim, não! - disse Dumbledore sorrindo. - Não, a não ser que vocês sejam suficientemente insensatos de me obrigar a isso.
- Ele não estará sozinho! - exclamou a Profa. McGonagall em voz alta, metendo a mão nas vestes.
- Ah, estará sim, Minerva - tornou Dumbledore rápido. - Hogwarts precisa de você!
- Chega de disparates! - disse Fudge, puxando a própria varinha. - Dawlish! Shacklebolt! Prendam-no!
Um raio prateado lampejou pela sala; ouviu-se um estrondo como o de um tiro e o chão tremeu; uma mão agarrou-me e forçou a se deitar no chão quando o segundo raio disparou; vários retratos berraram, Fawkes guinchou e uma nuvem de fumaça encheu o ar. Tossindo por causa da poeira, vi um vulto escuro desabar com estrépito no chão na frente dele; ouviu-se um grito agudo e um baque e alguém exclamando: "Não!"; seguiu-se o ruído de vidro quebrando, de pés se arrastando freneticamente, um gemido... e silêncio.
Vi a mão que me puxou era Prof.ª McGonagall encolhida ao seu lado; ela livrara a mim, Harry e a Marieta, afastando-nos do perigo. A poeira ainda caía devagarinho do alto em cima deles. Ligeiramente ofegante, vi uma figura alta vindo em minha direção.
- Vocês estão bem? - perguntou Dumbledore.
- Estamos! - respondeu a Prof.ª McGonagall, erguendo-se e arrastando com ela Harry e Marieta.
A poeira foi se dissipando. A destruição no escritório tornou-se visível: a escrivaninha de Dumbledore fora virada, todas as mesinhas de pernas finas tinham tombado no chão, os instrumentos de prata estavam partidos. Fudge, Umbridge, Quim e Dawlish estavam imóveis, caídos no chão. Fawkes, a fênix, sobrevoava-os em círculos amplos, cantando baixinho.
- Infelizmente, tive de azarar Quim também ou teria parecido muito suspeito - disse o diretor em voz baixa. - Ele entendeu extraordinariamente rápido, modificando a memória da Srta. Edgecombe quando os outros não estavam olhando; agradeça a ele por mim, por favor, Minerva. Agora, eles não tardarão a acordar e será melhor que não saibam que tivemos tempo de nos comunicar; vocês devem agir como se o tempo não tivesse passado, como se eles tivessem apenas sido derrubados, eles não se lembrarão.
- Aonde é que você vai, Dumbledore? - sussurrou McGonagall. - Largo Grimmauld?
- Ah, não - respondeu com um sorriso triste. - Não vou sair para me esconder. Fudge logo irá desejar nunca ter me tirado de Hogwarts, prometo.
- Prof. Dumbledore... - começou Harry.
- Escute, Harry - disse com urgência. - Você precisa estudar Oclumência o máximo que puder, está me entendendo? Faça tudo que o Prof. Snape mandar e pratique particularmente toda noite antes de dormir para poder fechar sua mente aos pesadelos: você vai entender a razão muito em breve, mas precisa me prometer...
O homem chamado Dawlish começou a se mexer. Dumbledore agarrou o pulso de Harry.
- Lembre-se... feche sua mente...
Fawkes deu uma volta na sala e mergulhou em direção ao diretor. Dumbledore soltou Harry, ergueu a mão e segurou a longa cauda dourada da fênix. Houve uma labareda e os dois desapareceram.
- Aonde é que ele foi? - bradou Fudge, levantando-se do chão. - Aonde é que ele foi?
- Não sei! - berrou Quim, também se pondo de pé.
- Ora, ele não pode ter desaparatado! - exclamou Umbridge. - Não se pode fazer isso aqui na escola...
- As escadas! - gritou Dawlish, e precipitou-se para a porta, escancarou-a e desapareceu, seguido de perto por Quim e Umbridge. Fudge hesitou, então ficou em pé lentamente, espanando a poeira da frente das vestes.
Houve um longo e penoso silêncio.
- Bom, Minerva - disse Fudge desagradavelmente, endireitando a manga rasgada. - Receio dizer que este é o fim do seu amigo Dumbledore.
- Você acha mesmo? - desdenhou a professora.
Fudge pareceu não ouvi-la. Corria os olhos pela sala destruída. Alguns retratos o vaiaram; um ou dois até fizeram gestos obscenos com as mãos.
- É melhor você levar esses três para a cama - disse Fudge, tornando a olhar para McGonagall com um aceno de dispensa em direção a nós.
A Prof.ª McGonagall não respondeu, mas se encaminhou conosco para a porta. Quando ela se fechou, ouvi a voz de Fineus Nigellus:
- Sabe, ministro, discordo de Dumbledore em muita coisa... mas não se pode negar que ele tem estilo...
Não pude evitar dar uma risadinha, em seguida voltamos a nossas comunais.
POR ORDEM DO MINISTÉRIO DA MAGIA
Dolores Joana Umbridge (Alta Inquisidora) substituiu Alvo Dumbledore na diretoria da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
A ordem acima está de acordo com o Decreto Educacional Número Vinte e Oito
Assinado: Cornélio Oswaldo Fudge, ministro da Magia
Os avisos foram afixados por toda a escola da noite para o dia, mas não explicavam como é que todas as pessoas que ali viviam pareciam saber que Dumbledore dominara dois aurores, a Alta Inquisidora, o ministro da Magia e seu assistente júnior para fugir. Por onde quer que andasse no castelo, o único tema das conversas era a fuga de Dumbledore e, embora alguns detalhes tivessem sido alterados nas repetições, era surpreendente como o restante da informação era exata. Todos sabiam, por exemplo, que Harry, eu e Marieta éramos os estudantes que haviam presenciado a cena na sala de Dumbledore e, como agora Marieta se achava na ala hospitalar, Harry e eu vivíamos assediados com pedidos para contar a história em primeira mão.
- Dumbledore não vai demorar a voltar - disse Ernesto Macmillan, confiante, ao sair da aula de Herbologia, depois de ouvir com atenção a história de Harry. - Eles não puderam mantê-lo afastado no nosso segundo ano e também não vão poder agora. O Frei Gorducho me disse - e aqui ele baixou a voz conspirativamente, obrigando eu, Harry, Rony e Hermione a se inclinarmos para ouvir - que aquela Umbridge tentou voltar à sala de Dumbledore na noite passada depois de terem vasculhado o castelo e a propriedade à procura dele. Não conseguiu passar pela gárgula. A sala do diretor se lacrou para impedir sua entrada. - Riu Ernesto. - Pelo que contam, ela teve um bom acesso de raiva.
- Ah, tenho certeza de que ela realmente se imaginou sentada lá em cima na sala do diretor - disse Hermione maldosamente, quando subiam a escada para o Saguão de Entrada. - Reinando sobre todos os professores, aquela velha burra, presunçosa e ávida de poder que é..
- Ora, você realmente quer terminar essa frase, Granger?
Draco Malfoy saíra de trás de uma porta, seguido por Crabbe e Goyle. Seu rosto pálido e fino iluminava-se de malícia. - Receio que vou ter de cortar alguns pontos da Grifinória e da Lufa-Lufa - falou do seu jeito arrastado.
- Só os professores podem tirar pontos das Casas, Malfoy - repliquei na hora.
- Eu sei que monitores não podem tirar pontos uns dos outros - retrucou Malfoy. Crabbe e Goyle deram risadinhas. - Mas os membros da Brigada Inquisitorial...
- Os o quê? - perguntou Hermione com rispidez.
- Brigada Inquisitorial, Granger - disse Malfoy apontando para um minúsculo "I" no peito, logo abaixo do distintivo de monitor. - Um grupo seleto de estudantes que apoia o Ministério da Magia, escolhidos a dedo pela Prof.ª Umbridge. Em todo o caso, os membros da Brigada Inquisitorial têm o poder de tirar pontos... então, Granger, vou tirar de você cinco por ter sido grosseira com a nossa nova diretora. Do Macmillan e da Lovegood, cinco por me contradizer. E cinco porque não gosto de você, Potter. Weasley, a sua camisa está para fora, por isso vou ter de tirar mais cinco. Ah, é, me esqueci, e você é uma Sangue ruim, Granger, então menos dez por isso.
Rony puxou a varinha, mas Hermione afastou-a, sussurrando: - Não!
- Muito sensato, Granger - murmurou Malfoy. - Nova diretora, novos tempos... agora comporte-se, Potter Pirado... Rei Banana...
Dando boas gargalhadas, Malfoy se afastou com Crabbe e Goyle. - Ele estava blefando - comentou Ernesto estarrecido. - Não pode ter o direito de descontar pontos... isso seria ridículo... subverteria completamente o sistema monitório. Mas quando me virei automaticamente para as gigantescas ampulhetas, dispostas em nichos na parede, que registravam o número de pontos das Casas. Naquela manhã, Grifinória e Corvinal estavam disputando a liderança quase empatadas. Enquanto olhavam, subiram algumas pedrinhas, reduzindo seu total nas bolhas inferiores. De fato, a única que parecia inalterada era a ampulheta cheia de esmeraldas da Sonserina.
- Já reparou? - perguntou a voz de Fred. Ele e Jorge tinham acabado de descer a escadaria de mármore e se reuniram a nós diante das ampulhetas. - Malfoy acabou de nos descontar uns cinquenta pontos - disse Harry, furioso; enquanto observavam, viram mais pedrinhas subirem na ampulheta da Grifinória.
- É, o Montague tentou nos prejudicar durante o intervalo - contou Jorge.
- Como assim "tentou"? - perguntou Rony na mesma hora.
- Ele não chegou a enunciar todas as palavras - disse Fred -, nós o empurramos de cabeça no Armário Sumidouro do primeiro andar.
Hermione pareceu muito chocada.
- Mas vocês vão se meter numa confusão horrível!
- Não até o Montague reaparecer, e isso pode levar semanas, não sei aonde o mandamos - disse Fred, descontraído. - Em todo o caso... decidimos que não vamos mais ligar se nos metemos ou não em confusão.
- E algum dia vocês ligaram? - indagou Hermione.
- Mas é claro - protestou Jorge. - Nunca fomos expulsos, não é?
- Sempre soubemos onde parar - acrescentou Fred.
- Às vezes ultrapassávamos um dedinho - disse Jorge.
- Mas sempre paramos em tempo de evitar um caos total - completou Fred.
- Mas e agora? - perguntou Rony hesitante.
- Bom, agora... - começou Jorge.
- ... com a partida de Dumbledore - continuou Fred.
- ... concluímos que um certo caos... - disse Jorge.
- ... é exatamente o que a nossa querida diretora merece - disse Fred.
- Pois não deviam! - sussurrou Hermione. - Realmente não deviam! Ela adoraria ter uma razão para expulsar vocês!
- Você não está entendendo, Hermione, não é? - perguntou Fred, sorrindo para ela. - Não fazemos mais questão de ficar. Sairíamos agora se não estivéssemos decididos a fazer alguma coisa por Dumbledore primeiro. Então, assim sendo - ele consultou o relógio -, a fase um está prestes a começar. Eu iria para o Salão Principal almoçar, se fosse vocês, para os professores verem que não têm nada a ver com a coisa.
- Nada a ver com o quê? - indagou Hermione, ansiosa.
- Vocês verão - respondeu Jorge. - Agora, vão andando, Luana você nos acompanha?
Sorri para eles enquanto negava com a cabeça.
- Ainda tenho um bom motivo pra ficar. Mas espero que façam uma boa pegadinha, seria muito triste ver que ficaram enferrujados quanto a isso. - Falei com um sorriso malicioso sendo seguida por algumas risadas dos gêmeos.
Fred e Jorge desapareceram na massa crescente de alunos que descia a escadaria para almoçar. Com o ar muito desconcertado, Ernesto murmurou alguma coisa sobre terminar um dever de Transfiguração, e saiu apressado.
- Acho que devíamos sair daqui, sabe - disse Hermione, nervosa. - Só por precaução...
- É, vamos - concordou Rony. Antes de sairmos Harry esbarrou com Filch, o zelador. O garoto recuou vários passos; Filch era melhor visto de longe.
- A diretora quer ver você, Potter - disse maliciosamente, conhecendo esse sorriso boa coisa não deve ser. Harry o seguiu calado. Pensei em acompanha-los mas poderia ser pior e ele sabe se defender.
Enquanto conversávamos no corredor ouvimos um barulho absurdamente alto, nos encaramos e juntos corremos até onde ouvimos o barulho. Alguém (e eu tinha uma boa ideia de quem) aparentemente tocara fogo em uma enorme caixa de fogos mágicos. Dragões formados inteiramente por faíscas verdes e douradas voavam para cima e para baixo nos corredores, produzindo explosões e labaredas pelo caminho; rodas rosa-choque de mais de um metro de diâmetro zumbiam letalmente pelo ar como discos voadores; foguetes com longas caudas de estrelas de prata cintilantes ricocheteavam pelas paredes; centelhas escreviam palavrões no ar sem ninguém acioná-las; rojões explodiam como minas para todo lado que olhava e, em vez de se queimarem e desaparecerem de vista ou pararem crepitando, quanto mais olhava essas maravilhas pirotécnicas mais elas pareciam aumentar em energia e ímpeto. Filch e Umbridge estavam parados no meio da escada, parecendo pregados no chão. Enquanto assistia, uma das rodas maiores pareceu decidir que precisava de mais espaço para manobrar: saiu rodando em direção a Umbridge e Filch com um ruído sinistro. Os dois berraram de susto e se abaixaram, e a roda voou direto pela janela às costas deles e atravessou os terrenos da escola. Entrementes, vários dragões e um grande morcego roxo que fumegava agourentamente aproveitaram a porta aberta no fim do corredor e escaparam para o segundo andar.
- Depressa, Filch, depressa! - gritou Umbridge. - Eles vão se espalhar pela escola toda se não fizermos alguma coisa: Estupefaça!
Um jorro de luz vermelha projetou-se da ponta de sua varinha e bateu em um dos foguetes. Em vez de se imobilizar no ar, o artefato explodiu com tal força que fez um furo no retrato de uma bruxa piegas no meio de um relvado; ela fugiu bem a tempo, e reapareceu segundos depois no quadro vizinho, onde dois bruxos que jogavam cartas se levantaram rapidamente e abriram espaço para acomodá-la.
- Não os estupore, Filch! - bradou Umbridge furiosa, como se ele fosse o responsável pelo feitiço.
- Pode deixar, diretora! - chiou Filch, que, sendo um aborto, não poderia ter estuporado os fogos nem tampouco os engolido. Ele correu para um armário próximo, tirou uma vassoura e começou a bater nos fogos que voavam; em poucos segundos a vassoura estava em chamas. Já vimos o suficiente; abaixamos e os guiei para uma porta que sabia existir atrás de uma tapeçaria mais à frente no corredor, e ao entrar deu de cara com Fred e Jorge que estavam ali escondidos junto de Harry, ouvindo os gritos de Umbridge e Filch, sacudindo de riso reprimido.
- Impressionante - cochichou Harry sorrindo. - Impressionante... vocês levariam o Dr. Filibusteiro à falência, podem crer...
- Falou - sussurrou Jorge, enxugando as lágrimas de riso do rosto. - Ah, espero que ela experimente agora fazê-los desaparecer... eles se multiplicam por dez todas as vezes que alguém tenta.
Todos ficamos ali rindo por um bom tempo.
Os fogos continuaram a queimar e a se espalhar pela escola toda durante a tarde. Embora causassem muitos estragos, particularmente os rojões, os outros professores não pareceram se importar muito com isso.
- Ai, ai! - exclamou a Prof a McGonagall ironicamente, quando um dos dragões entrou voando em sua sala, emitindo fortes ruídos e soltando chamas. - Srta. Abbot, se importa de procurar a diretora para informá-la que temos um dragão errante em nossa sala?
O resultado de tudo isso foi que a Prof.ª Umbridge passou sua primeira tarde como diretora correndo pela escola para atender aos chamados dos professores, que não pareciam capazes de livrar suas salas dos fogos sem a sua ajuda. Quando a última sineta tocou e todos iam voltando à Torre da Grifinória com suas mochilas, vi, com imensa satisfação, uma Umbridge desarrumada e suja de fuligem saindo com passos vacilantes e o rosto suado da sala do Prof. Flitwick.
- Muito obrigado, professora! - disse Flitwick na sua vozinha esganiçada. - Eu poderia ter me livrado dos fogos, é claro, mas não estava muito seguro se teria autoridade para tanto. Sorrindo, ele fechou a porta da sala na cara da Umbridge, que parecia prestes a rosnar. Fred e Jorge foram heróis naquela noite na sala comunal da Grifinória. Até Hermione se esforçou para atravessar a aglomeração de colegas excitados e dar parabéns aos gêmeos.
- Foram fogos maravilhosos - falei com admiração e Hermione concordou.
- Obrigado - agradeceu Jorge, ao mesmo tempo surpreso e contente pelos elogios até de Hermione. - Fogos Espontâneos Weasley. O único problema é que gastamos todo o nosso estoque; agora vamos ter de recomeçar do zero.
- Mas valeu a pena - disse Fred, que anotava os pedidos dos colegas aos berros. - Se quiser acrescentar o seu nome à lista de espera, Hermione, custa cinco galeões uma caixa de Fogos Básicos e vinte uma Deflagração de Luxo...
Hermione riu e voltou à mesa em que Harry e Rony estavam sentados, contemplando as mochilas como se esperassem que os deveres de casa fossem saltar de dentro delas e começar a se fazer sozinhos.
- Ah, por que não tiramos a noite de folga? - perguntou a garota, animada, quando um rojão Weasley de cauda prateada coriscou pela janela. - Afinal, as férias da Páscoa começam na sexta-feira, e teremos muito tempo então.
- Você está se sentindo bem? - perguntou Rony, encarando a amiga sem acreditar no que ouvia.
- Por falar nisso - continuou Hermione alegremente -, sabem... acho que estou me sentindo um pouquinho... rebelde.
Alguns dias seguiram e Harry parecia estranho desde sua última sessão de Oclumência, ele falou que Snape o havia liberado das aulas para treinar por conta própria, mas o menino parecia mais pensativo que o comum. Ele não havia falado nada então eu também não perguntei, porem comecei a ficar mais atenta a ele. Até que um dia Harry cismou que precisava ver Sirius, então decidiu usar uma lareira que estava na sala da vaca rosa enquanto eu e os gêmeos distraiamos com nossas pegadinhas.
Os estudantes estavam parados junto às paredes formando um grande círculo, professores e fantasmas também faziam parte da multidão. Destacavam-se entre eles os membros da Brigada Inquisitorial, todos parecendo excepcionalmente satisfeitos, e Pirraça, que flutuava no alto, observava Fred e Jorge no meio do saguão com o ar inconfundível de pessoas que acabavam de ser encurraladas.
- Então! - disse Umbridge triunfalmente. - Então... vocês acham divertido transformar o corredor da escola em um pântano?
- Achei bastante divertido - respondeu Fred, encarando-a sem o menor sinal de medo. Filch abriu caminho para se aproximar de Umbridge, quase chorando de felicidade.
- Apanhei o documento, diretora - disse rouco, acenando o pergaminho. - Tenho o documento e tenho as chibatas prontas... ah... me deixe fazer isso agora...
- Muito bem, Argo. Vocês dois - continuou ela, olhando para Fred e Jorge -, vocês vão aprender o que acontece com malfeitores na minha escola.
- A senhora sabe de uma coisa? - disse Fred. - Acho que não vamos não. Ele se virou para o irmão. - Jorge, acho que já passamos da idade de receber educação em tempo integral.
- É, tenho sentido isso também - comentou Jorge alegremente. - Está na hora de testarmos os nossos talentos no mundo real, você não acha?
- Decididamente.
E, antes que Umbridge dissesse uma palavra, eles ergueram as varinhas e falaram juntos: - Accio vassouras!
Ouvi um estrondo ao longe. As vassouras de Fred e Jorge, uma delas ainda arrastando a pesada corrente e o gancho de ferro com que Umbridge as pregara na parede, voaram velozes ao encontro dos seus donos; viraram à esquerda e pararam bruscamente diante dos gêmeos, a corrente batendo com estrépito no chão lajeado.
- Não a veremos mais - disse Fred à Prof.ª Umbridge, passando a perna por cima da vassoura.
- É, e não precisa mandar notícias - disse Jorge, montando a própria vassoura.
Fred correu o olhar pelos estudantes reunidos, para a multidão que assistia silenciosa à cena. - Se alguém tiver vontade de comprar um Pântano Portátil, conforme demonstramos lá em cima, pode nos procurar no Beco Diagonal, número noventa e três: Gemialidades Weasley - disse em voz alta. - Nossas novas instalações.
- Descontos especiais para os alunos de Hogwarts que jurarem que vão usar os nossos produtos para se livrar dessa morcega velha - acrescentou Jorge, apontando para a Prof.ª Umbridge.
- IMPEÇA-OS! - gritou Umbridge, mas tarde demais. Quando a Brigada Inquisitorial se aproximou, Fred e Jorge deram impulso no chão e se projetaram quase cinco metros no ar, o gancho de ferro balançando perigosamente embaixo. Fred olhou para o poltergeist que flutuava do outro lado do saguão no mesmo nível que os gêmeos acima da multidão. - Infernize ela por nós, Pirraça.
E Pirraça, que nunca vira obedecer ordem de nenhum estudante antes, tirou o chapéu em forma de sino que usava e saudou os garotos, ao mesmo tempo que Fred e Jorge faziam a volta sob os aplausos dos estudantes e saíam em alta velocidade pelas portas de entrada abertas para um glorioso pôr de sol. Quando voltei ao quarto as meninas estavam gargalhando da cena mais cedo e Angelina que pensei ficar triste com a saída de Fred se mostrou orgulhosa pelo ato deles.
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